O ex-presidente boliviano Evo Morales (2006-2019), impedido de disputar as eleições gerais deste domingo e alvo de um mandado de prisão, afirmou que o pleito não tem legitimidade e assegurou que o voto nulo, que convocou em protesto, prevalecerá. Segundo as autoridades eleitorais, as urnas já foram fechadas e os primeiros resultados são aguardados às 20h do horário local (21h em Brasília). Pesquisas preliminares apontam um segundo turno entre dois candidatos de direita, o que levaria à saída da esquerda do poder após 20 anos.
— Esta votação vai demonstrar que é uma eleição sem legitimidade — disse Morales, após votar perto de Lauca Eñe, um pequeno povoado no centro da Bolívia, onde seus apoiadores o protegem dia e noite para evitar sua prisão. — Primeira vez na história, se não houver fraude, [que] o [voto] nulo será o primeiro.
- Entenda: Mesmo dividida e sem apelo popular, direita é favorita para conquistar a Presidência da Bolívia pela 1ª vez em 20 anos
- Crise econômica: Com disparada da inflação, bolivianos adotam criptomoedas, para pagar de café a salários
Vestindo camisa branca e sandálias, o ex-chefe de Estado, de 65 anos, foi escoltado por dezenas de camponeses que formaram um círculo humano para garantir sua segurança.
— Desta vez vamos votar, mas não vamos eleger — disse ele, em referência ao fato de estar judicialmente proibido de concorrer a um quarto mandato por decisão do Tribunal Constitucional.
- Contexto: Escondido em um complexo no meio da floresta, Evo Morales comanda campanha fantasma às vésperas das eleições na Bolívia
As urnas foram fechadas às 16h do horário local e a contagem de votos começou imediatamente. Os primeiros resultados oficiais são aguardados para as 20h. Segundo o presidente interino do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), Óscar Hassenteufel, a jornada eleitoral transcorreu em tranquilidade, destacando que apenas incidentes isolados foram registrados e que nenhum deles alterou o andamento normal do processo.
O episódio mais grave ocorreu com o candidato de esquerda Andrónico Rodríguez, da Aliança Livre. Logo após votar na província de Carrasco, na região cocalera do Chapare, um reduto de Morales, Rodríguez foi alvo de pedras e insultos e precisou deixar rapidamente o local. Os agressores seriam supostamente seguidores do ex-presidente, que rompeu com seu antigo afilhado político e agora o acusa de traição. Segundo Morales, Rodríguez se tornou um “peão do império e da direita”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/t/g/PnhXeuQkahJvJBZdRB3A/112049925-bolivian-president-of-the-senate-and-presidential-candidate-for-the-popular-alliance-a.jpg)
A violência reflete o grau de polarização em torno da figura de Evo Morales, primeiro presidente indígena da Bolívia e líder histórico do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que deixou após romper com seu sucessor e atual presidente, Luis Arce. Sem candidato próprio e sem espaço político, Morales fez campanha pelo voto nulo e acusa o governo de ter se apropriado da legenda. “Se não fosse por seu aliado Luis Arce, que roubou nossa sigla e proscreveu o maior movimento político do país, essas eleições nós ganharíamos de longe”, escreveu nas redes sociais.
Apesar das acusações, o processo eleitoral avança e deve levar a um segundo turno em 19 de outubro. As últimas pesquisas apontam empate técnico entre o empresário Samuel Doria Medina, de centro-direita, e o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, de perfil conservador. Ambos aparecem com um empate técnico de cerca de 20% das intenções de voto, enquanto os nomes da esquerda, incluindo Rodríguez, figuram bem atrás.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/A/X/mP7Y09T2eBuiKHjfdimw/112050959-combo-this-combination-of-pictures-created-on-august-17-2025-shows-bolivias-president.jpg)
De acordo com a lei eleitoral boliviana, será eleito no primeiro turno apenas o candidato que obtiver mais de 50% dos votos válidos ou, no mínimo, 40% com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Caso contrário, a disputa vai ao segundo turno, um mecanismo introduzido pela Constituição de 2009.
Mais de 7,9 milhões de bolivianos foram convocados a votar para escolher o novo presidente e renovar os 166 membros da Assembleia Legislativa. O país atravessa uma crise econômica severa, com inflação anual próxima de 25%, falta de combustíveis e escassez de dólares. O cenário aprofundou a rejeição ao MAS, no poder desde a eleição de Morales em 2005.
Na manhã de votação, , expressou o sentimento de parte do eleitorado.
- Segunda troca em menos de um ano: Bolívia muda o comando das Forças Armadas a três dias da eleição presidencial
— A esquerda nos fez muito mal. Quero mudança para o país — disse a aposentada Miriam Escobar, de 60 anos, à AFP, após ser a primeira a votar em uma escola no sul de La Paz.
O ex-presidente Quiroga, de 65 anos, também falou em mudança ao depositar seu voto.
— Este é um dia que marcará a história da Bolívia — afirmou, em La Paz.
Samuel Doria Medina, de 66 anos, afirmou que “a Bolívia pode sair desta crise econômica de forma pacífica, democrática”.
Ambos os candidatos de direita defendem cortes nos gastos públicos, abertura ao investimento estrangeiro e uma reaproximação com os Estados Unidos. Durante o governo Morales, houve um afastamento nas relações diplomáticas entre os dois países. Para alguns bolivianos, no entanto, nem Quiroga nem Doria Medina representam o futuro.
— São dinossauros — criticou à AFP Agustín Quispe, mineiro de 51 anos, que declarou apoio ao candidato de centro-direita Rodrigo Paz, defensor do combate à corrupção.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/9/z/eLtCCoQviq8FAtNGPWDw/112049929-a-man-cast-his-vote-at-a-polling-station-during-the-presidential-election-in-la-paz-on.jpg)
Outros eleitores comparam a situação da Bolívia à da Argentina, onde a crise levou à vitória do libertário Javier Milei em 2023.
— A economia boliviana precisa de uma terapia de choque — disse Emanuel Arratia, designer gráfico de 31 anos, à France Presse.
- Análise: Janaína Figueiredo: Esquerda busca milagre na Bolívia
Segundo a cientista política Daniela Osorio Michel, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais, a demanda social vai além do debate ideológico.
— O que as pessoas buscam agora, mais do que uma mudança da esquerda para a direita, é um retorno à estabilidade — afirmou à AFP.
Arce, que abriu mão da reeleição diante da baixa popularidade, prometeu entregar o poder em 8 de novembro ao vencedor.
— Vamos fazer história como o governo que cumpriu o mandato de 2020: recuperar a democracia. Não apenas a recuperamos, como a preservamos e a entregaremos em um processo democrático — declarou, ao votar em La Paz.