Martin Baron, 70 anos, se tornou editor-chefe do Boston Globe em 2001, após passar por Miami Herald, Los Angeles Times e The New York Times. Um ano depois, sob seu comando, o diário mais importante da Nova Inglaterra revelou os seguidos abusos sexuais de menores de idade cometidos por membros da Igreja Católica, no estado de Massachusetts. As reportagens renderam o prêmio Pulitzer, além de “Spotlight: Segredos revelados” — vencedor do Oscar de melhor filme em 2016 — e, não menos relevante, incentivaram outras vítimas a contarem suas histórias e forçaram o Vaticano a encarar, de forma mais incisiva, crimes desgraçadamente repetidos em paróquias não apenas nos Estados Unidos, mas mundo afora.
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Uma década depois, já no comando da redação do Washington Post, Baron se viu no centro da aquisição, pelo fundador da Amazon, o bilionário Jeff Bezos, de uma das joias da coroa do jornalismo americano. E justamente no momento em que a indústria se debatia sobre como seguir relevante após a entrada das grandes corporações de tecnologia no já complexo xadrez das notícias. Em seu livro “Collision of power: Trump, Bezos and the Washington Post” (“Choque de Poderes: Trump, Bezos e o Washington Post”, em tradução livre), ele reflete sobre os embates e transformações da prática jornalística após a entrada em cena de personagens atípicos neste meio, entre eles políticos autoritários com retórica anti-imprensa.
Uma das argamassas da república americana é a ideia de que a democracia moderna não sobrevive sem a imprensa livre. Mas o oposto também é verdadeiro, não?
A imprensa profissional livre é fundamental para uma sociedade de fato democrática, assim como não há uma sociedade autoritária sequer com registro de imprensa independente. É importante lembrarmos o leitor de que é muito difícil reconquistar a democracia após ela ser retirada. E que os princípios centrais do jornalismo incluem o policiamento e a denúncia de todos os indivíduos, especialmente os políticos.
A maneira como se cobriu a primeira campanha presidencial de Donald Trump, há dez anos, foi apontada como uma das causas para seu rápido crescimento nas pesquisas. A imprensa deveria ter feito um mea culpa?
Se houve erro, o cometemos antes de Trump aparecer nas escadarias da Trump Tower em 2015 (quando anunciou a candidatura).
O de termos sido incapazes de antecipar um candidato como ele. De não termos medido adequadamente a temperatura da opinião pública, a dimensão da raiva e do ressentimento contra as ditas elites, em que a imprensa estava incluída.
A cobertura jornalística se afastou dos interesses do cidadão comum?
Estabeleceu-se a percepção de que não entendemos quem eles são, não compreendemos seus valores. E há legitimidade para essa argumentação. Nos EUA, um terço dos eleitores se informa majoritariamente por amigos e famílias, outra porção o faz nas redes sociais e apenas o terço final tem a imprensa tradicional como fonte principal.
Trump é dono de sua própria rede social. Seu ex-braço direito no governo, Elon Musk, também. Isso complica o entendimento do que é notícia?
Vivemos a era da fragmentação da mídia, com disseminadores de informação que o fazem sem checagem, sem compromisso com a imparcialidade, a veracidade e a justiça. Trump percebeu que poderia tirar proveito do cenário, falando diretamente com seus seguidores, algo inédito para um presidente. Mas ainda é mais significativo ele contar com a Fox News. Musk transformou o antigo Twitter em campo aberto para as mais perigosas teorias de conspiração. Ele é, hoje, com seus 200 milhões de seguidores, o segundo maior disseminador de desinformação do planeta, atrás apenas de Trump. Mas é balela afirmar que a mídia tradicional se tornou irrelevante.
As histórias da imprensa tradicional continuam conduzindo a narrativa nas redes sociais. Quando Trump completou 100 dias de governo, deu as principais entrevistas para os grandes títulos, que, em público, classifica como desimportantes. O mesmo com Musk, quando deixou o governo atirando.
Em que a imprensa deve prestar atenção para seguir relevante?
É preciso investir na cobertura de temas nacionais, mas também em questões locais. Precisamos refletir o tempo todo se estamos, de fato, considerando as preocupações de quem nos lê, escuta e vê. E não é mais suficiente apenas relatar os fatos. É preciso, didaticamente, mostrar de que modo o fazemos. Precisamos ser 100% transparentes com quem consome nosso trabalho. Apresentar como identificamos os fatos e sua graduação de importância. Todas as ferramentas devem ajudar. O modo como as pessoas consomem notícias continua mudando radicalmente. O que fazíamos já não chega mais a uma parcela significativa da população, especialmente os mais jovens. Muitos não percebem diferenças significativas entre instituições jornalísticas centenárias, como O GLOBO, e influencers, podcasters, youtubers. Precisamos encontrar maneiras mais informais de noticiar. Um bom exercício é, ao apurar, escrever e editar, pensar que estamos conversando com nossos amigos e família.
As big techs, como a Amazon, cujo fundador é também, desde 2013, dono do Washington Post, deveriam pagar pelo uso de conteúdos criados pela imprensa profissional para alimentar seus sistemas de inteligência artificial?
Nós, jornalistas, produzimos e oferecemos a matéria-prima, e a lógica é similar à de qualquer outro setor da economia. Elas não estão usando o que produzimos ocasionalmente, mas de forma consistente. Muitos deles desdenham do que fazemos, mas, ironicamente, não nos acham desimportantes quando usam o que produzimos com destreza para alimentar o que monetizam.
Está otimista com o futuro do jornalismo?
Sim. Quando me tornei jornalista, em 1976, o fiz atraído pela impressão de que essa seria uma carreira que não desbotaria, ao longo do tempo, as cores do encantamento, do valor e da urgência. Cinco décadas depois, penso igual. Ficou mais complexo exercê-la, mas hoje podemos fazer tudo o que as outras mídias oferecem — áudio, vídeo, gráficos interativos, comentários online. Se trabalharmos duro e usarmos de forma inteligente as estratégias corretas, podemos fazer a diferença. Há um declínio global no apoio à democracia, entre outros motivos pela ilusão de que o autoritarismo melhorará as vidas dos cidadãos e as tornará mais seguras, e essa perda de confiança sempre deve ser traduzida como um declínio no apoio também ao jornalismo profissional. Seguiremos, desde que cientes de nossas missões, se as cumprirmos com esmero, e se assegurarmos o apoio de quem mais importa, os cidadãos. Todo momento histórico apresenta dificuldades, e às vezes esquecemos o que nossos antecessores tiveram de superar.