O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, classificou o cenário dos incêndios no Amazonas como “mais grave” do que o previsto e disse ter observado “inúmeros focos” de chamas durante o sobrevoo das áreas atingidas, neste domingo. A decolagem da comitiva federal chegou a ser atrasada por causa dos impactos da densa camada de fumaça em Manaus sobre a visibilidade e o teto operacional.
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De acordo com Capobianco, há focos de incêndio isolados em áreas preservadas da floresta e de difícil acesso, o que indica ação humana intencional para degradar o bioma e preparar o terreno para futuro desmatamento.
— Eu diria, mais grave do que eu imaginava depois de fazer o sobrevoo, porque nós identificamos muitos focos de incêndio no meio da floresta preservada. Não se trata apenas daquele fogo que foi colocado na pastagem e adentrou a floresta. Nesse caso, além do fogo que vem da pastagem, nós vimos focos no meio da floresta preservada. Inúmeros focos — destacou ele. — É fundamental que as pessoas que estão agindo criminosamente vejam que serão punidas.
Em nota, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), por meio da Delegacia Especializada em Meio Ambiente e Urbanismo (Dema), disse que atua na investigação de possíveis crimes ambientais, especialmente diante dos incêndios registrados no estado. Segundo a corporação, só em setembro foram registrados 69 boletins de ocorrência relacionados a esses casos.
“O trabalho tem o objetivo de identificar eventuais responsáveis e adotar as medidas legais cabíveis. As ações buscam fortalecer as investigações e garantir a responsabilização dos envolvidos em crimes ambientais”, destaca o comunicado.
Duas aeronaves KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira (FAB) pousaram na noite deste domingo na Base Aérea de Manaus (BAMN) para reforçar as ações de combate aos incêndios florestais que atingem regiões do Amazonas (AM). O Comando de Operações Aeroespaciais organizou para esta segunda-feira três decolagens de cerca de duas horas, cada, para o enfrentamento das chamas. Serão lançados cerca de 12 mil litros de água por saída.
Só nos primeiros dez dias de outubro, o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio, quase quatro vezes mais que o registrado no mesmo período do ano passado, de acordo com o Painel do Fogo do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, ligado ao Ministério da Defesa. O governador do estado, Roberto Cidade (União Brasil), decretou neste sábado situação de emergência em 36 municípios, do entorno da capital ao sul do Amazonas. Há relatos de chamas passando por cidades como Manaus, Itacoatiara, Parintins, Coari e Tefé.
Pouco depois do decreto estadual, o governo federal reconheceu situação de emergência nos 36 municípios. A medida foi oficializada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), também no sábado, com vistas à liberação de recursos de órgãos da União destinados ao enfrentamento da crise. O ministro Waldez Góes viajou a Manaus para supervisionar a mobilização da força-tarefa nacional.
A ajuda aérea chega ao estado em meio a embates entre as autoridades estaduais e as forças da União, que divergem sobre onde começa o fogo. O Ministério do Meio Ambiente afirmou neste sábado que o governo do Amazonas dispensou o apoio do governo federal que havia antes solicitado para combater queimadas florestais. A pasta alegou que a gestão rejeitou uma equipe de brigadistas antes que ela se deslocasse para atuar no estado. O posicionamento do ministério ocorreu após o comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, dizer que a solicitação de ajuda havia sido negada, inclusive em áreas sob responsabilidade federal.
A pasta rebateu e afirmou que o governo federal já atua no combate às queimadas no Amazonas, com aviões Air Tractor, que já lançam água sobre as áreas atingidas, helicópteros e os cargueiros KC-390 da FAB, além de 290 brigadistas federais em campo. No total, onze aeronaves serão mobilizadas.
Segundo Waldez Góes, o Amazonas recebeu, de 2023 até o momento, R$ 372 milhões do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) para socorro, ajuda humanitária, reconstrução e restabelecimento de serviços essenciais pós-desastres.
Uma das aeronaves da FAB transportou ao local materiais e equipamentos de apoio, enquanto a outra foi enviada para auxiliar diretamente no combate aos incêndios, por meio do Sistema Modular Aerotransportado de Combate a Incêndios (MAFFS, na sigla em inglês). O equipamento conta com um tubo que projeta água pela porta traseira esquerda do avião, podendo descarregar até três mil galões de água em áreas de incêndios, com ou sem retardante de fogo, conforme o critério de nível de cobertura padrão do solo e em diversos tipos de terrenos.
Segundo a FAB, o sistema oferece maior precisão e aumenta “significativamente” a eficácia das operações. Isso, apesar das adversidades esperadas, já que os voos precisam ser realizados em baixa altitude, baixa velocidade e em elevadas temperaturas. Dessa forma, é possível manter a aeronave pressurizada, ou seja, sem comprometer a performance do KC-390.
Desde setembro, os focos de incêndio no Amazonas vêm crescendo em intensidade e quantidade, o que, segundo especialistas, já pode ter influência dos efeitos do El Niño na região. O fenômeno climático causa secas no Norte do Brasil.
Segundo a prefeitura de Manaus, o fogo tem origem na Região Metropolitana e cidades do interior do estado. Além das queimadas, as ondas de calor dificultam a dissipação da fumaça. Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), disse que os incêndios se concentram na margem sul do Rio Amazonas, em frente a Manaus, principalmente nos municípios de Careira da Várzea, Careira e Autazes.
Nos primeiros nove dias de outubro, a área queimada do Amazonas soma 122.794 hectares, número que já é 97,3% maior que a média histórica do mês inteiro — 62.239 hectares, de acordo com o Sistema Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da UFRJ. Até sexta (9), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 782 focos de calor no estado, durante outubro.
O governo estadual do Amazonas também intensificou as operações de combate a crimes ambientais na Região Metropolitana de Manaus e nos municípios de Manaquiri, Autazes, Careiro Castanho e Careiro da Várzea.
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