Autoridades de Nova Délhi ficaram surpresas e desapontadas com a ameaça surpresa do presidente Donald Trump na noite de quarta-feira de aplicar tarifas de 25% ao país, e avaliam opções para tranquilizar a Casa Branca, incluindo até um aumento das importações dos EUA. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a Índia descarta, no entanto, uma retaliação imediata.
O governo indiano quer manter as negociações comerciais bilaterais em andamento e está estudando maneiras de aumentar as compras de seu maior parceiro comercial, afirmaram.
A Índia considera ampliar as importações de gás natural dos EUA, bem como aumentar a compra de equipamentos de comunicação e ouro, disseram as fontes. Eles acrescentaram que esse aumento nas compras pode ajudar a reduzir o superávit comercial do país com os americanos nos próximos três a quatro anos. No entanto, não estão sendo planejadas compras de equipamentos de defesa, segundo eles.
Embora o governo indiano já tenha reservado o direito, na Organização Mundial do Comércio (OMC), de retaliar contra as tarifas mais altas dos EUA sobre aço e automóveis, no momento que considerar apropriado, não está considerando nenhuma retaliação imediata às tarifas anunciadas ontem.
O Ministro do Comércio da Índia, Piyush Goyal — que dias antes havia demonstrado confiança em fechar um acordo comercial com Washington — disse ao Parlamento nesta quinta-feira que o governo agora está dialogando com exportadores para avaliar o impacto das tarifas anunciadas por Trump. “As implicações dos acontecimentos recentes estão sendo analisadas”, afirmou Goyal, enquanto a oposição realizava protestos barulhentos.
Ele acrescentou que seu ministério está coletando feedback de exportadores e de setores industriais e que tomará “todas as medidas necessárias para proteger e promover os interesses nacionais”.
Ainda não está claro se as medidas de Nova Délhi irão suavizar a posição de Trump. Embora o líder americano e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, tenham mantido relações amistosas e até recentemente demonstrado otimismo quanto à conclusão de um acordo comercial, Trump criticou a Índia na quarta-feira por suas tarifas elevadas, classificando suas barreiras comerciais como “exigentes e ofensivas”. Ele também ameaçou impor sanções à Índia por comprar energia e armas da Rússia.
Mais tarde, o presidente disse a repórteres que Washington e Nova Délhi ainda estavam em negociações e que uma decisão final sobre as tarifas seria tomada até o fim da semana. No entanto, apenas algumas horas depois, ele postou na rede Truth Social: “Não me importo com o que a Índia faz com a Rússia” — e se referiu a ambos os países como “economias mortas”.
No ano passado, os EUA registraram um déficit comercial de cerca de US$ 43 bilhões com a Índia — o 11º maior — bem abaixo de países como o Vietnã, cujo déficit foi de aproximadamente US$ 121 bilhões, segundo dados do Fundo Monetário Internacional. Neste mês, Trump já havia anunciado uma tarifa de 20% para o Vietnã.
Nesta quinta-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, culpou a Índia pela lentidão nas negociações comerciais, dizendo à rede de notícias CNBC que “toda a equipe de comércio está frustrada” com Nova Délhi.
Ele acrescentou que os próximos passos agora dependem da Índia e criticou o país por não ser um “grande ator global”, citando seus laços estreitos com a Rússia.
Na quarta-feira, o governo indiano afirmara que continua comprometido com um acordo comercial “mutuamente benéfico” e destacou a necessidade de proteger seus agricultores e pequenas empresas. Ambos os lados já haviam concordado em concluir um acordo bilateral até o outono nos EUA (setembro-outubro), com autoridades indianas informando no início da semana que negociadores dos EUA visitariam o país para dar continuidade às conversas.
Analistas estão incertos sobre o quanto devem levar a sério as declarações de Trump. “Sendo Trump quem é, não podemos ter certeza”, disse Abhijit Das, especialista em comércio internacional baseado em Nova Délhi. “Pode ser uma jogada de negociação, como ele já fez com a União Europeia.” Inicialmente, o líder americano pressionou o bloco europeu ameaçando tarifas de 30%, depois as reduziu para 15%.
A moeda e o mercado de ações da Índia caíram nesta quinta-feira, embora as perdas tenham sido relativamente moderadas.
Apesar de considerar o aumento nas compras de produtos americanos, o governo Modi dificilmente atenderá à exigência de Trump de comprar mais equipamentos de defesa dos EUA, disseram autoridades familiarizadas com o assunto.
A Índia informou aos EUA que não tem interesse em adquirir os caças F-35, disseram as fontes. Durante a visita de Modi à Casa Branca, em fevereiro, Trump havia oferecido vender os aviões de guerra ao país. No entanto, o governo Modi está mais interessado em parcerias para desenvolver e fabricar equipamentos de defesa localmente, afirmaram.
O Ministério da Defesa da Índia não respondeu a um pedido de comentário.
As recentes declarações de Trump correm o risco de tensionar ainda mais as já frágeis relações entre os EUA e a Índia. O presidente dos EUA afirmou repetidamente que sua pressão comercial ajudou a garantir um cessar-fogo que pôs fim a um conflito armado de quatro dias entre a Índia e o Paquistão em maio — uma afirmação veementemente negada por Modi e altos funcionários em Nova Délhi.
Em fevereiro, quando os laços entre os dois líderes estavam particularmente amistosos, Modi convidou Trump a visitar a Índia. Nova Délhi deve sediar, ainda este ano, uma cúpula de líderes do Diálogo de Segurança do Quadrilátero (Quad) — que inclui EUA, Japão, Índia e Austrália.
“Índia não está em posição de prometer grandes importações de energia dos EUA. Também não estamos em condições de falar sobre grandes investimentos indianos nos EUA,” disse Ajay Dua, ex-funcionário do Ministério do Comércio, em entrevista à Bloomberg TV. Ele acrescentou que o país agora precisa ser “um pouco mais flexível nas negociações em andamento”.
Primeiro de agosto tornou-se a nova data simbólica para uma série de tarifas alfandegárias além do mínimo universal de 10%, imposto em abril à maioria dos países, e das aplicadas a certos produtos, como 50% sobre alumínio e aço ou 25% sobre automóveis.
Na sexta-feira, também entrarão em vigor sobretaxas de 50% para os produtos fabricados com cobre, mas as importações do metal bruto ficam de fora, uma ótima notícia para o Chile.
As tarifas alfandegárias sobre os produtos de aproximadamente 80 países, incluindo os 27 da União Europeia (UE), aumentarão a partir da meia-noite, entre 11% e 50%, dependendo da origem dos bens.
Alguns países, como Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Vietnã, Indonésia e Filipinas, além da UE, chegaram a acordos com a Casa Branca, o que se traduz em sobretaxas inferiores às inicialmente anunciadas.
O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, disse nesta quinta-feira que foram obtidos acordos com o Camboja e a Tailândia, sem dar detalhes. E Taiwan fala de “certo consenso” com Washington.