O que podem ter em comum um aderecista de escola de samba, produtores de moda , um influenciador digital, organizadores de rodas de samba e diretores de cinema? Todos esses profissionais ajudam a dar protagonismo da chamada indústria criativa para a economia fluminense, em particular a da capital . É o que revela um mapeamento do setor, feito pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e divulgado nesta quarta-feira (18).
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De acordo com o estudo, o setor emprega 124 mil trabalhadores, o segundo maior número do país, atrás apenas de São Paulo, que tem 517 mil. Cerca de 75% desse total se concentram na capital fluminense. Já o crescimento dos empregos criativos no estado (6,5%) superou o ritmo nacional (6,1%). Esses números podem até ser maiores, já que o estudo foi feito com estatísticas oficiais disponíveis entre 2022 e 2023.
Um dos principais exemplos desse mercado é o carnaval, que este ano movimentou, na capital, R$ 5,5 bilhões em serviços, prestados principalmente por hotéis, bares e restaurantes. A economia da folia também exige cada vez mais mão de obra especializada.
— No auge dos preparativos do desfile deste ano, chegamos a ter cerca de 280 a 290 pessoas trabalhando. O nível da festa tem crescido sempre, exigindo reforçar as equipes, inclusive trabalhadores temporários. Isso representa um aumento de 30% de pessoal em cerca de dez anos. E muitas vezes é difícil encontrar especialistas em produzir alegorias e adereços com espuma e palha por exemplo — diz o presidente da Beija-Flor, Almir Reis, atual campeã do carnaval.
Outro exemplo vem do setor audiovisual. Em obras há dois anos, o Polo Cine e Vídeo, na Barra Olímpica, deve duplicar sua área construída, oferecida para filmagens, até fevereiro do ano que vem. Entre as produções mais recentes que usaram o espaço está a sequência do filme “O auto da compadecida”, que atraiu mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas.
— Somos uma potência do audiovisual. Além de o Brasil conquistar um Oscar (Ainda Estou Aqui, melhor filme internacional, com uma história que passa no Rio nos anos 1970), a cidade tem um grande número de diárias de filmagens para cinema, com destaque para Marechal Hermes, na Zona Norte. Nesse contexto, uma produção internacional que grave aqui pode levar o Rio como protagonista dessa indústria — diz a gerente de Ambientes de Inovação da Firjan e coordenadora da pesquisa, Julia Zardo.
Segundo dados mais recentes da Rio Film Comission, órgão da prefeitura que presta apoio a produtoras, a capital registrou, em um ano, 7.885 diárias de filmagens, superando Paris, que abrigou 7.400, e São Paulo, com 4.895.
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Outros números da pesquisa reforçam a importância do setor: 2,7% das empresas empregadoras no estado são do segmento criativo, percentual maior que a média nacional (2,3%). Em números absolutos, o estado registrou cerca de oito mil estabelecimentos criativos, um crescimento de 2,8% entre 2022 e 2023.
Seja pela vista da Lagoa, na Zona Sul, seja pela representação da estética do subúrbio, nas cenas que retratam o bairro de Vila Isabel, na Zona Norte, com seus bares e praças, o remake de “Vale tudo”, da TV Globo, por exemplo, dissemina o imaginário carioca diariamente, em horário nobre.
— Estamos sempre lidando com a questão da brasilidade. Eu faço a criação das aberturas de novelas e séries. Participei do processo criativo da abertura de “Vale tudo”, que conta com mais de 150 imagens que tentam construir um retrato do que entendemos de Brasil. Recentemente, houve um painel em Cannes, na França, em que exibiram o material justamente para falar de brasilidade — diz Julia Rocha, diretora de arte da TV Globo.
Além das produções audiovisuais, os megaeventos, como o réveillon e grandes shows, a exemplo da recente apresentação de Lady Gaga na praia de Copacabana, ajudam a fazer do Rio uma vitrine do país para o exterior, reforça os valores e estilos de vida brasileiros internacionalmente. De acordo com a pesquisa, isso contribui para um impacto simbólico que reforça os valores e estilos de vida brasileiros internacionalmente e influencia desejos, desempenhando o chamado soft power.
Trata-se de um conceito desenvolvido no fim dos anos 1980 pelo cientista político americano Joseph Nye. Ele defendeu a tese de que é possível influir e projetar uma boa imagem de uma cidade ou do país através de sua cultura. No caso da cidade, não faltam inspirações até para eventos no exterior. Um exemplo é a marca Rock In Rio, que já promoveu edições em Lisboa, Madri e Las Vegas.
— Você tem o design criativo gerando valor em outras cadeias, como no mobiliário urbano que tem a cara do Rio, e no calçadão de Copacabana, com o desenho das ondas, que é reconhecido no mundo inteiro. No design de vestuário, a Farm, inspirada na cultura carioca, por exemplo, está no mundo inteiro levando a marca do Rio — exemplifica a coordenadora da pesquisa. — Diferentes gêneros musicais, como o funk, o charme, o rap e ainda a bossa nova, continuam como uma referência de exportação da nossa cultura, com participação crescente dos DJs, além do calendário permanente de grandes eventos.
