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A maior parte é de produtos industriais, como aço, têxteis, móveis, café solúvel, calçados e máquinas. Apesar de considerarem positiva a ampliação de setores isentos do tarifaço e de verem uma sinalização de que é possível avançar nas negociações com os EUA, grandes empresários e representantes de setores ainda impactados por tarifas de 50% têm poucas esperanças de que haja uma trégua nas tarifas remanescentes ainda neste ano.
O presidente em exercício e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, voltou a comemorar ontem a decisão do presidente americano anunciada na quinta-feira, que na prática zerou as tarifas adicionais de importação sobre o café e a carne brasileira, itens de peso na pauta de exportações do Brasil para os EUA. Somaram US$ 2,8 bilhões em vendas em 2024.
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Alckmin classificou a medida “o maior avanço” do governo até agora na negociação com os americanos, mas reiterou a disposição do governo de avançar nas conversas para livrar outros produtos do tarifaço. O Itamaraty também afirmou que vai manter o pleito de suspensão total do tarifaço.
No entanto, industriais receiam que, como as negociações entre os governos do Brasil e dos EUA sobre os termos e detalhes de um acordo comercial mal começaram, uma suspensão geral do tarifaço é improvável no curtíssimo prazo.
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Os principais setores que permanecem afetados com tarifas de 50% são majoritariamente industriais, de maior valor agregado. São complementares à indústria americana ou competem com ela. Máquinas e equipamentos e as indústrias química, têxtil e de calçados estão entre as afetadas. Há, ainda, algumas commodities como pescados e cereais, mel, açúcar e tabaco.
Representantes de empresas ouvidos pelo GLOBO observam que a isenção de 238 categorias de produtos, anunciada pelo governo Trump na quinta-feira, teve como principal motivador mitigar o impacto que o tarifaço teve no preço de alimentos no mercado americano.
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— No nosso entendimento, a publicação da ordem executiva desta quinta tem duas motivações. A primeira é mitigar a pressão inflacionária nos EUA. A segunda é sinalizar o início das negociações com o Brasil. O texto cita o governo brasileiro e o processo de negociação em curso, o que é muito importante. Caracteriza um gesto de boa vontade (de Trump) — diz o superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Frederico Lamego.
Ele diz que, agora, o Brasil é que deve fazer um gesto:
— A CNI propôs um rol de temas para o governo brasileiro (apresentar aos EUA). Os americanos aguardam que o Brasil coloque uma oferta de cooperação para desenhar o acordo comercial.
Os EUA têm interesses em mineração em terras raras e minerais críticos, na área de big techs e buscam uma redução de barreiras tarifárias ao etanol anidro, mas não houve proposta formal por parte dos americanos.
O Brasil apresentou uma proposta de acordo oficial em 4 de novembro, mas não divulgou os itens envolvidos na proposta. Alckmin, que também está na equipe destacada para negociar com os EUA, disse nesta sexta-feira que o governo Lula espera uma resposta dos americanos.
A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) destacou em estudo que 62,9% das vendas do Brasil aos EUA ainda estão sujeitas a algum tipo de tarifa (entre 10% e 50%). A medida da Casa Branca elevou para 37,1% a fatia da pauta de exportação livre de sobretaxas.
Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que Trump sinalizou disposição dos EUA para aprofundar a negociação, o que pode incluir a pauta industrial: “Setores muito relevantes, como máquinas e equipamentos, móveis e calçados, que tinham os EUA como principais clientes externos, ainda não entraram na lista de exceções. O aumento das isenções é um sinal muito positivo de que temos espaço para remover barreiras para outros produtos industriais. Esse é nosso foco agora”.
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O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, diz que o setor tem dificuldade em negociar uma isenção de todo o segmento devido à pulverização de produtos exportados.
No ano passado, o Brasil vendeu aos EUA US$ 3,8 bilhões, estima a Abimaq, o que colocaria o setor como o segundo que mais exportou ao país (atrás do petrolífero).
— A medida (aumento de isenções do tarifaço) é boa, mas insuficiente. Mostra que a questão política deixou de ser uma barreira à negociação. O lado ruim é que o setores como o máquinas e tudo o que tem valor agregado ficou de fora porque nossos produtos não afetam diretamente a inflação local — diz Velloso.
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O presidente da Abimaq estima que, quando forem iniciadas as discussões sobre os termos de um acordo comercial de fato, o Brasil poderá negociar uma suspensão temporária do tarifaço.
— O Brasil pediu a trégua (temporária do tarifaço), mas ela só será concedida quando começar a negociação para valer. Temos um certo nervosismo pelo fato de essas discussões não terem começado ainda. Não acredito que isso virá neste ano ainda — ressalta.
Concorrência americana pesa
Presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), André Passos Cordeiro também se diz pouco otimista em relação a uma resolução para o tarifaço sobre a indústria.
— Os produtos que estão no tarifaço são quase todos da indústria de transformação e, no caso da indústria química, que concorrem com a indústria de transformação dos EUA. Só estão isentos os fertilizantes. Vários produtores brasileiros têm plantas nos EUA e estão se articulando lá para negociar, mas a pauta de exportações químicas é muito dispersa, não consigo chegar e dizer que, em bloco, quero fazer recuar a tarifa sobre químicos, a diversidade de produtos é enorme — diz Cordeiro.
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O presidente da Abiquim pede ao governo brasileiro a sanção de um projeto, aprovado pelo Congresso neste mês, que isenta o setor de impostos de importação sobre insumos para a indústria química, como uma forma de fortalecer o setor com desoneração.
— Quanto ao tarifaço, até agora, do ponto de vista da indústria, não houve muito avanço. A sanção desse projeto pode devolver parte da nossa competitividade.
A indústria de madeira processada, que historicamente depende de exportações, foi beneficiada na semana passada com a retirada de 10 pontos percentuais da tarifa, mas ainda é afetada pelos 40% impostos ao Brasil.
— Nessa lista de isenção, os principais beneficiados foram produtos que causam inflação nos EUA. A taxa sobre itens industriais causa inflação de maneira mais lenta, não foi contemplada ainda. Dependemos da negociação — diz Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimici).
Pupo diz que os EUA representam 50% das exportações do setor. — Já tivemos demissões e lay offs, não conseguimos redirecionar os produtos a outros mercados, pelo volume e porque muita coisa é feita para a demanda americana, como molduras para a construção civil americana. Em três meses de tarifaço, nossa exportação caiu 55% em volume — diz ele.
Para especialistas, negociação fica mais difícil
Pelos cálculos do Goldman Sachs, a tarifa efetiva sobre as exportações brasileiras aos EUA caiu agora de 29,2% para 25,5%. Para especialistas, o Brasil pode encontrar mais dificuldades para negociar tarifas de produtos industriais.
Até agora, Trump desonerou o que tem impacto no bolso dos americanos, de olho no efeito da inflação em sua popularidade, destaca Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da consultoria BMJ. Ele diz que os produtos industriais representam cerca de 50% do volume de exportações brasileiras para os EUA:
— E isso inclui os artigos com tarifa de até 50% imposta no âmbito da Seção 232 (da Lei de Comércio dos EUA, para todos os países), como para aço e alumínio. O Brasil vai ter de negociar. Para isso, terá de levar para a mesa os temas da Seção 301, que inclui Pix, patentes, etanol e desmatamento, além de terras-raras.
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), concorda que a negociação agora será mais difícil.
— Ninguém esperava, agora, alívio para produtos manufaturados — disse. — Quando Trump anunciou a tarifa adicional de 40%, todos achavam que a medida, de tão absurda, logo iria cair. Está acontecendo com muito mais lentidão que o previsto. E o decreto de agora trouxe basicamente commodities: café, suco, carne bovina. Trump agiu porque viu sua popularidade caindo. Mas há pequena chance de resultado em acordo para manufaturados no curto prazo.
O Mdic, pasta de Alckmin, contabilizou 238 produtos brasileiros que os EUA passaram a isentar da sobretaxa de 40% após a decisão de Trump de anteontem. Representam cerca de 10% dos embarques para os EUA, ou US$ 4 bilhões de vendas ao ano.
Em agosto, Trump havia listado quase 700 exceções. Dessa nova lista, os produtos mais relevantes, em termos de valores exportados, são café, carne bovina e frutas. Os produtos totalmente isentos de tarifas adicionais representam agora 36% das exportações de 2024.
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— Gradualmente, já tivemos duas decisões anteriores (que ampliaram isenções). Alguns produtos foram saindo, como celulose, ferro, suco de laranja. Alguns passaram para a sessão 232 (tarifas setoriais para qualquer país), como madeira serrada e alguns tipos de armário. Agora, tivemos o maior avanço — disse Alckmin, no Palácio do Planalto, em Brasília.
Ao ser questionado sobre que temas podem compor a negociação comercial com os EUA, Alckmin mencionou áreas como mineração de terras-raras (importantes para a transição energética e com grandes reservas no Brasil), atuação de big techs e energia renovável, sem dar detalhes.
— As conversas estão em andamento. Vamos aguardar. O presidente Lula colocou que não há tema proibido. O Brasil é sempre aberto. Há questões tarifárias e não tarifárias. Entre as não tarifárias, você tem o Redata (regime fiscal que beneficia o setor de data centers). O Brasil está atraindo investimentos na área de data centers. O limitador da inteligência artificial (IA) no mundo é energia. O Brasil tem energia abundante e renovável. Terras-raras, big techs, você tem uma pauta para conversas — disse o vice-presidente.
Itamaraty manterá pleito de suspensão total
Itamaraty promete perseguir a suspensão total do tarifaço na mesa de negociações. O Ministério das Relações Exteriores afirmou ter recebido “com satisfação” a medida, mas ressaltou que “o Brasil seguirá mantendo negociações com os EUA com vistas à retirada das tarifas adicionais sobre o restante da pauta de comércio bilateral.”
Um integrante do Ministério da Fazenda destacou que a medida beneficia produtos em que o Brasil é bastante competitivo, como café, carne bovina e suco de laranja. A expectativa é de retomada das exportações dos produtos beneficiados, que tiveram quedas entre agosto e outubro.
A Câmara de Comércio Americana (Amcham Brasil) avaliou como “muito positiva” a decisão da Casa Branca. “A medida representa um avanço importante rumo à normalização do comércio bilateral, com efeitos imediatos para a competitividade das empresas brasileiras envolvidas e sinaliza um resultado concreto do diálogo em alto nível entre os dois países”, diz um trecho da nota divulgada ontem.
Setores contemplados comemoram
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou que a reversão “reforça a estabilidade do comércio internacional e mantém condições equilibradas para todos os países envolvidos”. Também destacou a “efetividade do diálogo técnico e das negociações conduzidas pelo governo brasileiro”.
A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) celebrou destacando que, na prática agora o produto garante taxa zero ao entrar nos EUA, inclusive nas modalidades torrado e moído. “Com esta nova ordem fica evidenciado que o café brasileiro é um produto essencial e estratégico para a economia americana, abrindo, inclusive, espaço para ampliação da presença dos cafés industrializados brasileiros no varejo norte-americano, com ganhos diretos para toda a cadeia produtiva, da indústria ao produtor”, diz um comunicado.
— Nosso trabalho agora é para que tenhamos o mesmo sucesso com o café solúvel — complementou o presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Márcio Ferreira, que também celebrou a decisão.
Segundo ele, a entidade estima que, sem os cortes das tarifas, o país perderia cerca de US$ 3 bilhões no mercado americano, o maior do mundo.
Produtos agora isentos de tarifa adicional
Além do café e da carne bovina, uma lista de frutas, a exemplo do tomate e da manga, terão um regime especial, com isenção da tarifa adicional em períodos específicos ao longo do ano. Veja alguns dos produtos agropecuários listados na decisão da Casa Branca:
- Café
- Carne bovina
- Açaí
- Banana
- Castanha de caju
- Laranja
- Suco de laranja (que já estava na lista de exceções em agosto)
Frutas frescas que têm isenção em períodos específicos do ano
A lista isenta de tarifa uma série de outros alimentos como cogumelos, alcaparras, broto de bambu, mandioca, inhame e gengibre.
As castanhas de caju e do Brasil, além de chás verde, preto e mate também foram excluídos. Assim como ervas e temperos a exemplo de cúrcuma, cominho e cardamomo. Há outros vegetais não comestíveis livres da taxação de 40%, como óleos essenciais e carvão.

