O recuo de Gianni Infantino no plano de abrir uma empresa para vender participações em ativos comerciais da Fifa não foi suficiente para conter a crise política que se instalou na entidade. Um dia após o presidente abandonar a proposta, a Uefa afirmou que já não confia na atual gestão da federação internacional e anunciou que trabalhará com outras confederações para discutir mecanismos que impeçam iniciativas semelhantes no futuro.
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Em comunicado divulgado neste sábado, a entidade europeia afirmou que o episódio expôs uma quebra de confiança entre a Fifa e parte de suas associações filiadas. A Uefa também classificou a condução do projeto como um processo sem transparência e afirmou que a análise sobre o caso deverá ser “profunda”, sem descartar mudanças na forma como decisões dessa natureza são levadas aos membros da entidade.
A proposta de Infantino previa a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária responsável por reunir os direitos comerciais das principais competições organizadas pela Fifa, como a Copa do Mundo masculina e o Mundial de Clubes. A ideia era vender uma participação minoritária da empresa a investidores privados e levantar até US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 21,5 bilhões), recursos que, segundo a entidade, seriam destinados ao desenvolvimento do futebol.
O projeto, porém, encontrou resistência imediata. A Uefa foi a primeira a rejeitar publicamente a iniciativa e chegou a anunciar um boicote a futuras competições organizadas pela Fifa caso o plano fosse levado adiante.
O movimento ganhou força quando Concacaf, que reúne as federações das Américas do Norte e Central e do Caribe, e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) também passaram a criticar a proposta. As duas entidades, tradicionalmente consideradas próximas de Infantino, questionaram a falta de consultas prévias às associações nacionais e a rapidez com que a mudança estrutural seria submetida à aprovação.
Juntas, Uefa, Concacaf e AFC representam 143 das 211 associações filiadas à Fifa, formando uma maioria capaz de inviabilizar politicamente o projeto. A oposição das três confederações foi considerada decisiva para que Infantino desistisse da proposta apenas três dias depois de ela se tornar pública.
Na sexta-feira, ao anunciar a retirada do plano, o presidente da Fifa afirmou que a iniciativa havia provocado divisões entre os integrantes da entidade e que, por isso, deixava de atender ao objetivo para o qual havia sido concebida.
Apesar da desistência, a Uefa sinalizou que considera a crise longe do fim. A entidade informou que pretende discutir o episódio com suas federações filiadas e em cooperação com outras confederações para estabelecer salvaguardas que impeçam mudanças semelhantes sem amplo debate entre os membros da Fifa.
Críticas extrapolam o futebol
A reação ao projeto também chegou ao meio político. Na sexta-feira, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, afirmou que Gianni Infantino é “a pessoa errada” para comandar a Fifa e classificou a proposta de abrir parte dos direitos comerciais da entidade ao mercado como “ultrajante”. Segundo ele, o simples fato de a iniciativa ter sido cogitada já colocava em dúvida a capacidade do dirigente de permanecer à frente da organização.
A manifestação reforçou a pressão sobre o presidente da Fifa, que já enfrentava oposição aberta das principais confederações do futebol mundial. Em comunicado divulgado neste sábado, a Uefa afirmou que a atual liderança da entidade perdeu a confiança não apenas da organização europeia, mas também de “muitos outros membros da família do futebol”. A entidade ainda agradeceu o apoio recebido de torcedores, clubes, ligas, jogadores e também de primeiros-ministros e chefes de Estado que criticaram a proposta.

