A jornalista e escritora Míriam Leitão tomou posse na cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL) na noite desta sexta-feira (8), em cerimônia na sede da instituição, no centro do Rio. Décima-segunda mulher a ingressar na casa (e a quinta do atual quadro de acadêmicos), Míriam entrou no Salão Nobre da ABL acompanhada de três acadêmicas: Fernanda Montenegro, Rosiska Darcy e Lilia Schwarcz. Em seu discurso, ela destacou a importância da inclusão e da representatividade.
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— Sei que há deveres aos quais eu me dedicarei nos próximos anos da minha vida, nesta instituição, que está em momento tão interessante e desafiador. Ao mesmo tempo em que preserva seu legado institucional, ela se renova — declarou a jornalista de 72 anos, que sucede o cineasta Cacá Diegues, morto em fevereiro deste ano.
O discurso de Míriam está em sintonia com uma nova da ABL, que nos últimos anos se esforça para se tornar mais plural e diversa. No ano passado, empossou o primeiro indígena da instituição, o filósofo e ativista ambiental Aílton Krenak. No mês passado, elegeu sua primeira mulher negra, a romancista Ana Maria Gonçalves.
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Míriam comparou a função dos acadêmicos à de “guardiãs e guardiões”, mas ressaltou que uma nova história da casa vem sendo escrita por “pessoas de todos os recantos e origens”.
— Merecer os que vieram antes de nós é sobretudo procurar cada vez mais fazer dela um centro plural do pensamento brasileiro, no qual esse país diverso, negro, branco, indígena, multilíngue, construído por homens e mulheres das mais diversas origens e de todas as regiões se veja, se reconheça — discursou a acadêmica. — E o nome da nova ordem é inclusão.
Nascida em Caratinga, MG, em 1953, Míriam tem uma carreira consolidada no jornalismo. Iniciou sua trajetória profissional em Vitória, no Espírito Santo, e passou por veículos como Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil, Veja e o O Estado de S. Paulo. Atualmente, é colunista de O GLOBO, comentarista do Bom Dia Brasil, Globonews, CBN e âncora do programa de entrevistas Míriam Leitão Globonews. Míriam foi pioneira ao tornar a cobertura de economia mais acessível para o público leigo.
Nas últimas cinco décadas, acompanhou de perto planos econômicos, crises sucessivas, o impeachment de Collor e o de Dilma, e a redemocratização.
Presa e torturada aos 19 anos durante a ditadura militar, a jornalista tem sido uma voz consistente em defesa da democracia e da liberdade de expressão — uma postura que lhe rendeu, no ano passado, o Troféu Juca Pato de 2024, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE) ao intelectual do ano.
Em seu discurso de posse na ABL, alertou que a democracia é “o valor maior a defender”. E citou Hannah Arendt: “Quem não se mobiliza quando a liberdade está sob ameaça, jamais se mobilizará por coisa alguma”.
— Sem ela, nenhum outro avanço é possível — complementou Míriam. — Neste tempo sombrio em que quase a perdemos, e em que as intimidações autoritárias permanecem sobre nós, é preciso refletir sobre o nosso papel na proteção da democracia. Os intelectuais não são espectadores nessa luta. Escolhem um lado.
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‘Patrimônio natural sob ataque’
Como escritora, Míriam Leitão publicou 16 livros, explorando diversos gêneros como não ficção, crônicas, romance, livros infantis, e venceu duas vezes o Prêmio Jabuti, o mais tradicional da literatura brasileira. Seu romance “Tempos extremos”, que entrelaça ditadura militar e escravidão, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2015.
No ano passado, Míriam lançou “Amazônia na encruzilhada: o poder da destruição e o tempo das possibilidades” (Intrínseca), um panorama da situação atual da Região Amazônica e das perspectivas de uma conciliação entre a preservação ambiental e a exploração econômica.
O meio ambiente teve destaque no discurso da nova imortal, para quem a natureza “protege o Brasil” :
— Precisamos de todos os nossos biomas, e eles dependem uns dos outros — alertou Míriam. — O Brasil é o país com a maior biodiversidade do planeta. Porém, nosso patrimônio natural está sob ataque. Diário, incessante, dos que ainda hoje mantêm a obsoleta visão de que proteção ambiental impede o desenvolvimento.
O interesse pelo tema da inclusão também aparece em suas obras infanto-juvenis. Seu último livro do segmento, “Lulli, a gata aventureira”, conta a história real de uma menina portadora de uma síndrome rara, chamada Cri-du-Chat (também conhecida como Síndrome do Miado de Gato). Outras obras trazem suas preocupações ambientais, como “A perigosa vida dos passarinhos pequenos” (2013), “O mistério do pau oco” (2018) e “As aventuras no tempo” (2019).
O presidente da ABL, Merval Pereira, falou ao GLOBO sobre a chegada de Míriam à instituição:
— Miriam Leitão tem todas as qualificações para estar entre nós, não é apenas uma especialista em economia, tem um espectro muito amplo de interesses: causa indígena, dos negros, e aqui estamos na mesma sintonia. Além disso, é feminina e feminista. Estamos precisando aumentar nossa representação feminina e Miriam vem em boa hora — disse.
A nova imortal foi recebida pelo acadêmico Antonio Carlos Secchin, que, em seu discurso, também ressaltou a defesa da democracia e a independência intelectual da colega de fardão.
— A cadeira, cujos ocupantes terão daqui a pouco suas trajetórias belamente escritas por Míriam, é, como todas as outras 39, saudavelmente plural — disse Secchin. — Isso não impede, contudo, que possamos identificar em muitos de seus ocupantes um traço unificador: a preocupação com as injustiças sociais do país. Une a todos a atenção especial à grande parcela da população marginalizada, excluída, silenciada, cujo direito à voz é um imperativo ético e uma demanda permanente de reparação histórica.
Presente na posse, o jornalista e escritor Edney Silvestre é outro que destaca a coragem de Míriam Leitão.
— Com ela, a Academia ganha uma mulher destemida, sem medo de expressar opiniões controversas, sempre em busca da coerência neste nosso país tão incoerente, que a Miriam me ajuda a compreender. — diz o autor de “Vidas provisórias”.