Uma descoberta técnica da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP) expôs a sofisticação da engrenagem financeira por trás da Operação Carbono Oculto, que investiga a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal, especialmente o setor de combustíveis. Segundo as investigações, pelo menos 11 empresas diferentes utilizaram o mesmo endereço de IP para realizar 76,2% de suas operações fiscais.
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Um endereço de IP é como o RG de um computador na internet. Ele funciona como um número de identificação que todo dispositivo conectado à rede precisa ter — seja um celular, um computador ou até o sistema de uma empresa.
Assim como não existem dois RGs iguais para pessoas diferentes, em tese cada endereço de IP deveria ser único. Ele indica de onde partiu uma conexão e pode ser rastreado para entender quem estava por trás de uma operação online.
No caso investigado pela Operação Carbono Oculto, a repetição do mesmo IP em empresas diferentes é um indício forte de que elas não atuavam de forma independente, mas que estavam conectadas a um mesmo “centro de comando digital”. Juntas, essas empresas que compartilharam o registro digital movimentaram R$ 6,4 bilhões.
As distribuidoras Orizona Combustíveis S/A, Start Petróleo S/A, Port Brazil Distribuidora de Combustíveis Ltda. e Estrela Distribuidora de Combustíveis Ltda. foram identificadas emitindo notas fiscais eletrônicas a partir dos mesmos endereços de IP.
A repetição sugere, segundo as investigações, uma operação controlada a partir de um único centro, e não a atuação de empresas autônomas. O mesmo se aplica à Império Comércio de Petróleo S/A, listada em conjunto com Maximus, Estrela, Orizona, Start e Port Brazil, todas vinculadas ao mesmo protocolo de rede.
Outro elo identificado pela investigação é o da Rodopetro Distribuidora de Petróleo Ltda., que também compartilha IPs com distribuidoras ligadas ao mesmo grupo. Segundo os investigadores, esse tipo de coincidência não ocorre em um realmente competitivo e mostra uma espécie de ‘coordenação oculta’ entre empresas de fachada.

Megaoperação mira esquema bilionário do PCC no setor de combustíveis; 350 são alvos
As relações entre as empresas se tornam ainda mais evidentes quando cruzadas com outros dados. A Start Petróleo S/A e a Port Brazil Distribuidora de Combustíveis Ltda. foram flagradas vendendo combustível para postos que utilizavam o mesmo número de telefone.
Esses dados ajudaram os investigadores a identificar uma atuação orquestrada para manter em vigor práticas de fraude, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
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A Operação Carbono Oculto, que investiga a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal, especialmente o setor de combustíveis, também atingiu nomes de peso da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.
A investigação apura como o Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou na economia formal, em especial no setor de combustíveis, utilizando gestoras e fintechs para lavar dinheiro. Dos 350 alvos da operação, 42 estão concentrados na Faria Lima.
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Segundo a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), tratava-se de um esquema complexo com várias frentes, que começava nas usinas sucroalcooleiras e na formulação de gasolina e diesel, e seguia com um esquema de ocultação de dinheiro por meio de fintechs e fundos de investimento.
De acordo com as investigações, entre 2020 e 2024, empresas formuladoras de combustível ligadas ao PCC importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel, usando dinheiro ilegal da facção. Essas empresas sonegavam impostos — que totalizaram R$ 8,67 bilhões — e também adulteravam combustíveis distribuídos nos postos.
Além do setor de combustíveis, outros setores da economia formal são utilizados pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. Entre eles, estão o mercado imobiliário, transporte público, mineração, cigarros, comércio de bebidas, e o próprio setor financeiro. Estas atividades ajudam a esconder produtos de atividades criminosas e diversificar os negócios das organizações criminosas, criando uma aparência de legalidade para a sua atuação.