Uma investigação militar em curso determinou que os Estados Unidos foram responsáveis por um ataque mortal com míssil Tomahawk contra uma escola primária iraniana no dia 28 de fevereiro, que deixou mais de 170 mortos, muitas deles crianças. De acordo com autoridades americanas e outras pessoas familiarizadas com as conclusões preliminares, o ataque ao prédio da escola primária Shajarah Tayyebeh foi resultado de um erro de direcionamento por parte das Forças Armadas dos EUA, que realizavam bombardeios contra uma base iraniana adjacente, da qual o prédio da escola fazia parte anteriormente.
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Segundo a investigação, oficiais do Comando Central dos EUA criaram as coordenadas do alvo para o ataque usando dados desatualizados fornecidos pela Agência de Inteligência de Defesa. As autoridades ouvidas pelo New York Times sob anonimato enfatizaram que as conclusões são preliminares.
Caso seja comprovado, o ataque uma escola repleta de crianças certamente ficará registrado como um dos erros militares americanos mais devastadores das últimas décadas. Autoridades iranianas afirmam que o número de mortos chegou a pelo menos 175 pessoas, a maioria crianças.
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Embora a conclusão fosse esperada — os Estados Unidos são o único país envolvido no conflito que utiliza mísseis Tomahawk — ela lança uma sombra sobre a operação militar americana no Irã.
As tentativas do presidente Trump de se esquivar da culpa pelo ataque também vêm deixando preocupadas as autoridades que analisaram as conclusões. As pessoas entrevistadas para a reportagem do New York Times falaram sob condição de anonimato, citando a natureza delicada da investigação em curso e a afirmação de Trump, em determinado momento, de que o Irã, e não os Estados Unidos, era o responsável pelo episódio.
“Como o próprio New York Times reconhece em sua reportagem, a investigação ainda está em andamento”, disse Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, em um comunicado.
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Pessoas a par da investigação afirmam que muitas perguntas ainda precisam ser respondidas sobre por que informações desatualizadas foram usadas e quem deixou de verificar os dados. Ainda assim, o erro não surpreendeu funcionários — atuais e antigos.
A escola, na cidade de Minab, fica no mesmo quarteirão que prédios usados pela Marinha da Guarda Revolucionária do Irã, um dos principais alvos dos ataques militares dos EUA. O terreno da escola fazia parte originalmente da base. Autoridades informadas sobre a investigação disseram que o prédio nem sempre foi usado como escola, embora não esteja claro exatamente quando a instituição de ensino foi inaugurada no local.
Uma investigação visual realizada pelo New York Times mostrou que o edifício que abriga a escola esteve cercado e isolado da base militar entre 2013 e 2016.
Imagens de satélite analisadas pelo jornal mostraram que as torres de vigia que antes ficavam perto do prédio foram removidas, três entradas públicas foram abertas para a escola, o terreno foi limpo e áreas de lazer, incluindo um campo esportivo, foram pintadas de asfalto, e as paredes foram pintadas de azul e rosa.
A “codificação de alvos” fornecida pela Agência de Inteligência de Defesa, a agência de inteligência militar que auxilia no desenvolvimento de alvos, classificou o prédio da escola como um alvo militar quando foi repassada ao Comando Central, o quartel-general militar que supervisiona a guerra, de acordo com pessoas informadas sobre as conclusões preliminares da investigação.
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Os investigadores ainda não compreendem completamente como os dados desatualizados foram enviados ao Comando Central, nem se a Agência de Inteligência de Defesa possuía informações atualizadas.
O direcionamento militar é muito complexo e envolve múltiplas agências. Os oficiais do Comando Central são responsáveis por verificar as informações que recebem da Agência de Inteligência de Defesa ou de outra agência de inteligência. Mas em uma situação de rápida evolução, como os primeiros dias de uma guerra, as informações às vezes não são verificadas.
Além da Agência de Inteligência de Defesa e do Comando Central, os investigadores estão examinando o trabalho da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA), que fornece e analisa imagens de satélite de potenciais alvos.
Autoridades do Comando Central se recusaram a comentar. Já os responsáveis da Agência de Inteligência de Defesa encaminharam as perguntas ao Pentágono, que também se recusou a comentar, alegando que o incidente está sob investigação. A Agência Nacional de Inteligência Geoespacial não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
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A Agência de Inteligência de Defesa e a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial têm dezenas, até mesmo centenas, de analistas em comandos de combate que trabalham com planejadores operacionais militares e escritórios de inteligência para desenvolver alvos.
Quando os dados de localização de alvos da Agência de Inteligência de Defesa (DIA) forem antigos, espera-se que os oficiais de inteligência usem imagens ou dados da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGIA) para atualizar e verificar o alvo.

TV estatal exibe imagens de escola atingida por ataque mortal no sul do Irã
Embora Donald Trump tenha feito do ataque à marinha iraniana uma das principais prioridades da guerra para impedir que ela interfira no comércio global na região, historicamente essa não tem sido uma das prioridades da Agência de Inteligência de Defesa, que se concentrou mais nos mísseis do Irã e em outras prioridades, como a China e a Coreia do Norte.
Segundo autoridades americanas, os responsáveis pela investigação examinaram se algum modelo de inteligência artificial, programa de processamento de dados ou outro meio técnico de coleta de informações foi responsável pelo ataque equivocado à escola.
Embora Claude, o modelo de linguagem abrangente criado pela Anthropic, não crie alvos diretamente, ele funciona com o Sistema Inteligente Maven da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial e outros softwares para identificar pontos de interesse para oficiais de inteligência militar.
Mas as autoridades disseram que era improvável que o erro tivesse sido resultado de uma nova tecnologia. Em vez disso, afirmaram, provavelmente refletia um erro humano comum — mas às vezes devastador — em tempos de guerra.
A principal conclusão da investigação militar interna reflete um crescente conjunto de evidências públicas que sugerem a responsabilidade dos EUA.
Imagens de satélite, publicações em redes sociais e vídeos verificados, reunidos pela equipe de investigação visual do The New York Times, indicam que a escola foi severamente danificada por um ataque de precisão ocorrido quase simultaneamente aos ataques à base naval. Uma análise mostrou que a base foi atingida novamente cerca de duas horas após os primeiros ataques.
Um vídeo divulgado no domingo, pela agência de notícias semioficial iraniana Mehr e verificado pelo jornal, também mostra um míssil de cruzeiro Tomahawk atingindo a base naval ao lado da escola em Minab, em 28 de fevereiro.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, e outros funcionários do governo se recusaram a comentar o ataque, limitando-se a dizer que está sob investigação. Apesar disso, o presidente tentou, por vezes, atribuir a culpa ao Irã.
— Na minha opinião, com base no que vi, isso foi feito pelo Irã. Eles são muito imprecisos, como vocês sabem, com suas munições. Eles não têm precisão nenhuma. Foi feito pelo Irã — afirmou Donald Trump.
Na segunda-feira, um repórter do The New York Times perguntou ao presidente americano por que ele era o único funcionário de seu governo a culpar o Irã.
— Porque eu simplesmente não sei o suficiente sobre isso — respondeu , afirmando incorretamente que o Irã também poderia ter mísseis Tomahawk, mas acrescentando que aceitaria os resultados da investigação sobre o ocorrido.
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Embora a maioria dos presidentes se abstivesse de comentar ou suavizasse suas declarações enquanto uma investigação estivesse em andamento, o Trump não hesitou em se manifestar e não recuou completamente, mesmo com o aumento das evidências de culpa dos EUA. Na terça-feira, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, reiterou que Trump aceitaria as conclusões da investigação.
Em 1999, mapas antigos e desatualizados, além de técnicas de espionagem deficientes, levaram a CIA a fornecer dados de alvos errôneos aos militares, resultando em um ataque aéreo à embaixada chinesa em Belgrado que matou três cidadãos chineses. A CIA avaliou erroneamente que o prédio era a sede de uma agência de armamentos iugoslava.
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— A manutenção de bancos de dados é um dos elementos básicos do nosso trabalho de inteligência, mas também é um dos que sofreram nos últimos anos, já que nossa força de trabalho ficou reduzida — disse George J. Tenet, então diretor da CIA, a uma comissão do Congresso em 1999.
Os planejadores militares presumiram que a agência de inteligência havia verificado o local e ordenado o ataque.
