O Irã afirmou neste sábado que realizou ataques contra alvos ligados às forças dos Estados Unidos em resposta aos bombardeios americanos realizados contra a costa sul iraniana. A nova escalada ocorre enquanto Teerã e Washington continuam acusando um ao outro de descumprir o acordo firmado na semana anterior para encerrar a guerra, que já dura quatro meses.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou a ofensiva como uma ação defensiva e afirmou que os bombardeios americanos contra instalações de vigilância costeira violaram a Carta das Nações Unidas. O governo iraniano, porém, não informou quais alvos ligados aos Estados Unidos teriam sido atingidos, segundo a agência de notícias Reuters.
Poucas horas depois do anúncio iraniano, o Bahrein informou que seu território foi alvo de um ataque com drones atribuído ao Irã. Em comunicado, o governo bareinita afirmou que a ação representou uma violação da soberania do país, colocou em risco sua segurança nacional e advertiu que se reserva o direito de responder em legítima defesa. O Bahrein abriga a Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos.
Até o momento, Washington não havia comentado a informação divulgada por Teerã sobre ataques contra alvos americanos. Os militares americanos afirmam que os bombardeios realizados na sexta-feira foram uma resposta ao ataque com drones contra um navio cargueiro no Estreito de Ormuz. O Irã não assumiu a autoria desse ataque, ocorrido na quinta-feira, na costa de Omã.
Disputa pelo Estreito de Ormuz
Em vez de reconhecer envolvimento na ofensiva contra o cargueiro, o governo iraniano reafirmou sua autoridade sobre a regulamentação da navegação no Estreito de Ormuz. Segundo Teerã, as embarcações devem seguir as rotas estabelecidas pelo país, os governos do Golfo foram alertados contra um alinhamento com Washington e o acordo provisório firmado com os Estados Unidos lhe confere controle sobre o tráfego marítimo na região.
O presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, Ebrahim Azizi, afirmou que qualquer embarcação que desrespeitar as determinações iranianas para navegar pelo estreito receberá uma resposta firme.
O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) condenou o ataque ao navio cargueiro, classificando-o como uma “agressão injustificada contra a navegação comercial”. O comando também informou que continuará oferecendo coordenação e apoio para garantir a passagem segura das embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz.
Antes do início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, em 28 de fevereiro, a rota era responsável pelo transporte de cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo.
Em outro desdobramento da crise regional, Israel e Líbano anunciaram um acordo para encerrar os confrontos entre Israel e o Hezbollah. Segundo os dois governos, o entendimento prevê o desarmamento do grupo libanês e a retirada das tropas israelenses do território do Líbano.
Ainda não foi divulgado como essas medidas serão implementadas. O Hezbollah informou que não irá colaborar com o acordo.
Acusações sobre o cessar-fogo
A televisão estatal iraniana informou que a Guarda Revolucionária deu uma “resposta decisiva” após forças americanas atingirem uma torre de comunicações na cidade portuária de Sirik. Já a agência iraniana Mehr afirmou que o porto continua funcionando normalmente e que não houve danos às instalações nem aos equipamentos.
O Bahrein acusou o Irã de comprometer os esforços internacionais para reduzir as tensões na região e de violar a Resolução 2817 do Conselho de Segurança da ONU e o memorando de entendimento assinado em Islamabad em 17 de junho.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou que Washington considera estar cumprindo integralmente o cessar-fogo firmado com o Irã e disse que eventuais divergências devem ser resolvidas por meio do diálogo.
— O Irã assinou um acordo de cessar-fogo. Nós o cumprimos. Se eles têm divergências sobre a forma como o memorando está sendo aplicado, podem simplesmente pegar o telefone. Mas violência será respondida com violência.
Ao mesmo tempo, o Ministério das Relações Exteriores do Irã voltou a acusar Washington de descumprir o protocolo de entendimento firmado entre os dois países.
“O Irã condena com firmeza os ataques aéreos realizados pelo exército terrorista dos Estados Unidos na noite de sexta-feira, 26 de junho, contra vários pontos da costa sul do Irã”, disseram em comunicado.
Segundo o ministério, os bombardeios americanos representam uma “violação flagrante do parágrafo 1 do protocolo de entendimento” firmado entre Irã e Estados Unidos em meados deste mês.
Petróleo recua e países defendem livre navegação
Antes da retomada das hostilidades, os preços do petróleo recuaram cerca de 3% na sexta-feira e caminhavam para encerrar a semana em forte queda. Petroleiros voltaram a deixar o Estreito de Ormuz, enquanto a Saudi Aramco retomou o carregamento de petróleo bruto no terminal de Ras Tanura após uma paralisação de quase quatro meses. Os embarques de fertilizantes pelo estreito também aumentaram, reduzindo as preocupações com uma possível alta global dos preços dos alimentos.
Ao concluir uma viagem pela região, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, divulgou uma declaração conjunta com o Conselho de Cooperação do Golfo defendendo a livre navegação no Estreito de Ormuz, sem cobrança de taxas e sem que qualquer país exerça controle sobre a passagem marítima.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã respondeu afirmando que a administração do estreito deve caber exclusivamente ao Irã e a Omã. O principal assessor do líder supremo iraniano, Ali Akbar Velayati, afirmou que “a sobrevivência dos aliados de Washington no Golfo depende da tolerância de Teerã”.

