EUA e Israel expandiram neste domingo os bombardeios contra infraestrutura crítica do Irã, enquanto a República Islâmica manteve seus ataques a Israel e aos vizinhos do Golfo e tentou projetar estabilidade ao nomear Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo morto em 28 de fevereiro, como seu sucessor. Pela primeira vez, forças israelenses atacaram infraestrutura petrolífera nos arredores de Teerã e em Alborz, atingindo quatro depósitos de combustível e um centro logístico. Com fortes explosões e emissão de uma espessa fumaça preta, os ataques mergulharam a capital iraniana em uma escuridão apocalíptica com forte cheiro de queimado e lembraram as cenas dos campos de petróleo do Kuwait em chamas durante a Guerra do Golfo de 1991.
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— Com o fogo, parecia que a noite virava dia, e então, com toda a fumaça, o dia voltava a virar noite — disse ao New York Times Aryan, de 33 anos, morador de Teerã que pediu anonimato para evitar possíveis represálias das autoridades iranianas.
EUA e Israel atacam depósito de combustíveis em Teerã
As Forças Armadas israelenses justificaram os ataques afirmando que os locais eram usados pela Guarda Revolucionária — força de elite com estimados 200 mil integrantes — para distribuir combustível a estruturas militares. Em junho de 2025, durante a chamada “guerra de 12 dias”, Israel já havia atacado depósitos de combustível em Teerã. O Irã possui reservas significativas de petróleo e gás natural, e sua indústria energética é crucial para sua economia, tanto para exportação quanto para o mercado interno. Ataques contínuos poderiam tornar o regime iraniano e o país como um todo mais vulneráveis.
Mais de uma semana após o início da guerra, não há sinal de um cessar-fogo, e os planos do presidente dos EUA, Donald Trump, permaneceram incertos. Anteontem, ele disse que havia descartado o envolvimento das forças curdas em combates em terra no Irã, pelo risco de tornar o conflito “mais complexo”. Dois dias antes, ele havia afirmado estar “totalmente a favor” de uma ofensiva curda no Irã. Neste domingo, afirmou não descartar o uso de tropas terrestres americanas para confiscar o urânio enriquecido do Irã.
— Tudo está sobre a mesa — disse Trump. — Tudo.
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O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse à rede americana NBC que o Exército iraniano está “aguardando qualquer inimigo que entre em nosso território para eliminá-lo”. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse que Washington não tem planos de atacar a infraestrutura energética do Irã, mas crescem especulações de que os EUA ou aliados tenham como alvo a Ilha de Kharg, o mais importante centro petrolífero do Irã. Segundo o site Axios, os EUA estariam considerando tomar a ilha, localizada na costa oeste do Irã.
O Exército israelense afirma que efetuou 3.400 ataques contra o Irã desde o início da guerra, enquanto os EUA informaram 3.000 operações e mais um soldado americano morto, elevando para sete o total. Neste domingo, o Comando Central americano (CENTCOM) instou os civis iranianos a permanecerem em casa, sugerindo que os EUA poderiam atacar áreas densamente povoadas, já que as forças iranianas costumam usar áreas urbanas para lançar ataques com drones e mísseis balísticos.
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As forças americanas também intensificaram os ataques contra alvos militares, incluindo a Guarda Revolucionária e sistemas de defesa aérea e mísseis. Segundo o chanceler iraniano, os EUA atacaram uma usina de dessalinização de água doce na Ilha de Qeshm, no sul do país, o que foi negado pelo CENTCOM. Na sexta-feira, o embaixador do Irã na ONU disse que o número de mortos no país ultrapassa os 1.300, mas não há como confirmar a informação de forma independente.
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Já o Irã continuou seus ataques nos países vizinhos. Uma ação de drone atingiu uma das usinas de dessalinização do Bahrein, e a Arábia Saudita registrou suas duas primeiras mortes civis. Mísseis iranianos feriram cinco pessoas em Israel, que retomou seu ataque ao sul do Líbano e confirmou a morte de dois soldados, em suas primeiras baixas militares desde o início da guerra. Os bombardeios israelenses no Líbano deixaram 394 mortos, segundo o Ministério da Saúde.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que os bombardeios contra instalações energéticas do país marcam uma “nova fase perigosa”, com consequências ambientais e humanitárias que podem ultrapassar as fronteiras iranianas.
“Ao atacar depósitos de combustível, os agressores estão liberando materiais perigosos e substâncias tóxicas no ar, envenenando civis, devastando o meio ambiente e colocando vidas em risco em larga escala”, escreveu na rede social X.
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Como hidrocarbonetos tóxicos, enxofre e óxidos de nitrogênio foram liberados na atmosfera, a principal agência ambiental iraniana orientou os moradores de Teerã a permanecer em casa e evitar atividades não essenciais ao ar livre por causa da poluição.
O Crescente Vermelho iraniano também alertou que produtos químicos liberados pelos tanques de combustível atingidos podem provocar chuva ácida capaz de afetar a pele e os pulmões. A chuva, segundo a agência Associated Press, também pode se misturar com água contaminada e atingir represas em Teerã e nos arredores da cidade, o que poderia afetar a qualidade da água potável.
Autoridades iranianas também reduziram de 30 litros para 20 litros a cota de combustível para motoristas na capital. O acesso ao combustível automotivo é fortemente subsidiado no país e costuma ser limitado para evitar contrabando. Neste domingo, longas filas foram registradas em postos de gasolina na capital. A AFP contou cerca de 40 veículos aguardando abastecimento em um dos postos da cidade.
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O Irã nomeou o filho de Ali Khamenei, Mojtaba, como seu sucessor, de acordo com uma declaração da Assembleia de Especialistas, entidade formada por 88 integrantes, responsável pela nomeação. Sua designação, anunciada na manhã de segunda-feira no horário local (noite de domingo em Brasília), sinaliza o desejo do governo de manter a continuidade enquanto o país enfrenta ataques cada vez mais fortes dos EUA e de Israel.
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Mojtaba, de 56 anos, foi nomeado após seu pai, que liderou a República Islâmica por quase quatro décadas, ter sido morto em um ataque aéreo no primeiro dia da guerra iniciada pelos EUA e Israel, em 28 de fevereiro. Ele é conhecido por ter laços estreitos com a Guarda Revolucionária, força de elite do país, e assume o comando não apenas como a nova autoridade religiosa e política do país, mas também como comandante-em-chefe de suas Forças Armadas.
Antes mesmo da nomeação, as Forças Armadas de Israel alertaram que qualquer sucessor de Khamenei será um alvo, enquanto Trump — que anteriormente disse que Mojtaba seria uma escolha “inaceitável” —, alertou ontem em uma entrevista à ABC News que o próximo líder supremo “não vai durar muito” sem a aprovação dos EUA.
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Em resposta, o chanceler Araghchi afirmou neste domingo que a escolha não é prerrogativa de Washington.
— Não permitimos que ninguém interfira em nossos assuntos internos — disse Araghchi ao programa “Meet the Press”, do canal NBC, antes do anúncio da nomeação. — É responsabilidade do povo iraniano escolher seu líder.
Mais cedo, alguns membros da Assembleia haviam antecipado que uma decisão havia sido alcançada com base no conselho de Khamenei de que seu substituto deveria “ser odiado pelo inimigo”.
— O candidato mais adequado, aprovado pela maioria, foi determinado — disse Mohsen Heydari, membro do órgão de seleção, segundo a agência de notícias iraniana Isna.
Mohammad Mehdi Mirbagheri, também integrante, confirmou em um vídeo divulgado pela agência de notícias iraniana Fars que “se chegou a uma opinião firme que reflete o ponto de vista da maioria”.
Já o aiatolá Mohsen Heidari Alekasir disse que o “Grande Satã” — termo usado pelo Irã para se referir aos EUA — havia, inadvertidamente, prestado “uma espécie de serviço” à Assembleia ao criticar publicamente certos candidatos. Seus comentários pareciam se referir às declarações de Trump, que afirmou na quinta-feira que seria inaceitável a escolha de Mojtaba como sucessor.
— Alguém que se opõe ao inimigo tem maior probabilidade de beneficiar o Irã e o Islã — disse Alekasir.
(Com New York Times e AFP)

