O Ministério das Relações Exteriores convocou para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, após as declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), no último sábado, em São Paulo. Bitelli deve chegar ao Brasil na noite deste domingo ou na madrugada de segunda-feira.
A decisão foi tomada na madrugada de sábado para domingo. O ministro das Relações Exteriores estava em trânsito, retornando da Ásia para o Brasil, quando soube das declarações de Milei durante o voo e decidiu pela convocação do embaixador. O ministro pousou em Brasília na manhã deste domingo.
Durante o evento do PL, Milei fez um longo e duro discurso no qual criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O argentino também declarou apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e pediu que os brasileiros fossem às urnas em 4 de outubro para, segundo ele, decidir o futuro do país.
— Eu creio que Flávio somente pode parar Lula, e trazer uma verdadeira mudança para todos os brasileiros. (…) Creio firmemente que não há outro capaz de parar o efeito de Lula sobre o país. E não há outro para fazer de frente às organizações criminais e narcotráficos, e nisso eu confio plenamente em Flávio Bolsonaro — disse.
Milei afirmou ainda que a corrupção é um problema que assola os países da América Latina e acusou a esquerda de transformar o continente em um “laboratório de experimentos de sua política”. Ao abordar a criminalidade, defendeu uma política de endurecimento contra criminosos e afirmou que estratégias que classificou como socialistas fracassaram.
— Já tentamos o garantismo, já tentamos a paciência e a piedade com quem comete crimes, e todas e cada uma dessas estratégias socialistas fracassaram. Por isso, os brasileiros já sabem que existe apenas uma fórmula bem-sucedida para erradicar a criminalidade: quem faz, paga (…) Já demonstramos que tudo isso é possível na Argentina. Demonstramos que é possível reduzir a criminalidade e recuperar a ordem pública quando se tem mão firme e se pune quem comete crimes — afirmou.
O presidente argentino também criticou o chamado Foro de São Paulo, que classificou como uma “rede internacional chave para a disseminação do comunismo no continente”, e disse que a entidade foi criada por Lula e pelo ex-presidente cubano Fidel Castro.
— O que quero dizer é que o Brasil ainda não viveu as consequências mais nefastas e profundas deste modelo, mas pode vivê-las se não der uma volta de rumo. Confiamos em você, Flávio, para conseguir parar o socialismo — falou.
Em outro momento do discurso, Milei fez uma ofensa a Alexandre de Moraes, a quem atribuiu a decisão de impedir uma visita sua ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. O argentino havia anunciado na semana passada, durante uma entrevista em seu país, a intenção de visitar Bolsonaro.
— O lixo não me permitiu visitar ao meu amigo injustamente encarcerado, quando eu sei que Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández — declarou.
Aliado da família Bolsonaro, Milei já afirmou que Jair Bolsonaro sofre “perseguição judicial” no Brasil. A proximidade entre o presidente argentino e o bolsonarismo é um dos temas que a campanha de Flávio Bolsonaro pretende explorar como demonstração do alinhamento entre os dois líderes e como parte da estratégia de aproximação com nomes da direita internacional.
O discurso de Milei ocorreu após a fala do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Antes, os dois estiveram juntos no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, onde o presidente argentino recebeu a Medalha de Ordem do Ipiranga, maior honraria do estado. Também participaram do encontro o presidenciável Flávio Bolsonaro e o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Na ocasião, Milei foi recebido com um inusual tapete azul, em vez do tradicional tapete vermelho, em referência à “onda azul” de eleições de políticos de direita na América do Sul, expressão utilizada pelo presidente argentino.

