Bato cabeça para comer no Centro. Nem digo “bem”, só “direito”, saciar a fome e seguir em frente. Afora o Lilia e outras honrosas exceções, é peregrinação certa. Às vezes, em vão. Contar com Itsáry, aberto há menos de um ano na Franklin Roosevelt, é um plus de peso para a mesa do bairro. Um achado para a turma que ocupava, no dia em que estive lá, os 35 lugares da casa comandada por Ignácio Peixoto, que andou por bons restaurantes da Zona Sul. Eram engravatados almoçando com turistas e caminhantes, num clima atípico por aqueles lados. A casa virou destino, não é passagem.
Brasilidades: Roxy estreia almoço musical nos fins de semana com feijoada e menu de Kátia Barbosa
Novidades: De bar subterrâneo de ‘Vale Tudo’ a menu degustação à beira-mar, 9 endereços recém-abertos no Rio
Ignácio é jovem, tem 35 anos, mas começou cedo. Conheci o chef nos tempos do Pipo, do Felipe Bronze. Hoje, acumula um bom repertório culinário, que põe em prática nesse que é o seu primeiro restaurante autoral. Domina técnicas, é sensível nas misturas, é criativo, ousado e irreverente. Tudo que conta. Peixes e carnes são maturados na casa, e boa parte dos pratos passa pelo carvão na cozinha aberta.
Rafa Costa e Silva costuma dizer que o cardápio do Lasai “não tem palestrinha”, ou seja, os pratos são descritos pelo que trazem, “sem historinhas”. O Itsáry segue o molde. Cabe ao atendente descrever, por exemplo, que a beterraba é assada com casca no sal grosso, traz boursin de Teresópolis, gotas de mel picante fermentado com gengibre, gotas de óleo de tangerina e castanha-de-caju (R$ 49). E que o creme de ostras tem picles de chuchu, maçã verde, ostras curadas e alga wakame (R$ 35). Texturas e aparências se confundem. Gosto de historinhas (palestrinha é outra história, de vinho então…).
Costela angus assada por 16 horas: hit absoluto no Itsáry
Tomás Rangel
São 17 pratos no cardápio, entre entradas (fomos majoritariamente nelas) e principais. O especial do dia era um arroz de altitude com cavaca e porco com aioli picante muito bom (R$ 129). O crudo de peixe graçainha, da nossa costa, passa cinco dias maturando. Vai pra brasa e é servido com lascas de melão — parecia uma coisa só (R$ 62). O crudo de carne vem sobre um cubo crocante de canjiquinha e queijo de Alagoas ralado (R$ 62), para comer de uma bocada só. Já o rosbife chegou como uma guirlanda rosada por dentro e tostadinha por fora, com creme de castanha no meio (R$ 65).
Mas o hit absoluto dali é a costela angus assada por 16 horas, caramelada, se desmanchando (dispensa faca), acompanhada de creme de aipim com pó de cebola tostada e folhas de agrião — uma versão de vaca atolada de Ignácio (R$ 105). Entre as duas sobremesas, recomendo o tartare de goiaba fresca com chantilly de cumaru e um toque de gochujang, uma pasta de pimenta fermentada (R$ 35). Delicado, fresco e único.
Goaiaba e sablé: delicada sobremesa no Itsáry
Tomás Rangel
Os preços são generosos para os padrões do Rio e do que chega no prato. Adicione à cena uma casa gostosa, de trilha musical adorável, uma seleção de vinhos simpática e o fato de ser das poucas do Centro que abrem aos sábados. Revitalização também passa pela boa mesa.
Itsáry: quatro garfinhos (muito bom)
Rua Franklin Roosevelt 194, Centro (97207-4218). Seg a sex, das 11h30m às 15h30. Sáb, das 12h às 16h.
Initial plugin text

