O Jobi está em vias de fazer 70 anos. Sou capaz de imaginar clientes com O GLOBO em punho lendo pelas mesas de um Leblon que engatinhava e estava longe de ser o CEP valorizado dos dias de hoje. Nasci ali, um bairro Zona Sul, classe média, perto da praia. O Leblon era só e tudo isso. E o Jobi (o nome é do prédio onde se instalou, no térreo) passava longe do meu bico, mas já deixara de ser o pé-sujo (sujíssimo) que servia PFs baratos para o operariado que dava um novo shape ao bairro.
Para escrever sobre a evolução da gastronomia na edição festiva do jornal, viajei no tempo, fiquei nostálgica. Não por acaso, fui ao Jobi nesse embalo. Era finalzinho do dia, quando sempre tem mesa dando mole e o badalo e ruído me são mais agradáveis. E me ajudam a destrinchar um dos maiores cardápios que conheço. Quase 200 opções? Só para começo de conversa, tem entradinha, salgadinho e petiscos. Nessa arrancada, já são 50. E sanduíches, pizzas, aves, peixes e frutos-do-mar (dá-lhe bacalhau), carnes, massas, omeletes, fritadas (onde mais?), arrozes, caldos. Há tempos é bem mais que um bar.
O que me fascina nesses lugares antigos são a gestão segura, a constância, um padrão que não muda — o que é ruim segue ruim, e o que é bom não falha. A impressão que tive ao observar as mesas ao redor é que a turma chega ali sabendo o que quer comer. Dispensa o cardápio para pedir. Pelas expressões, seguirá pedindo. Nem o clássico “traz o sal?” ouvi.
Minha mesa só tinha “fichinha” do Jobi. Eu, certamente, a mais bissexta. Fui na carona. Cardápio portuga: os fundadores vieram de Penafiel. Daí, bolinhos de bacalhau, só que perfeitos, cheio de bacalhau (R$ 60, seis bolotas douradas e quentinhas). Também pedimos bolinho de aipim com camarão e Catupiry (R$ 60), também no ponto, e rodada de caldinho de feijão (R$ 23).
Provei a carne seca desfiada com cebola e farofa (R$ 98) e sou só elogios, a sardinha portuguesa, que pedimos para grelhar (R$ 60, duas), o escondidinho de bacalhau e camarão (R$ 62) e o frango à passarinho (R$ 66) — e dei cabo do prato praticamente sozinha.
São 23 opções de peixes, 20 de filés, 20 tipos de sanduíches… Só mesmo sabendo de antemão o que pedir: o “momento de decisão” é trabalhoso. Uma “pérola” da casa: o bar quase foi parar no Irajá. A ideia era mudar de ponto, ir para a Zona Norte. Não fosse um episódio traumático (jazia um cadáver bem na porta do possível ponto), o Leblon perderia um de seus bares mais icônicos.
Av. Ataulfo de Paiva 1.166, Leblon. Diariamente, das 11h às 3h.