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juízas da capital compartilham suas percepções sobre os casos de feminicídio julgados no Rio

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setembro 14, 2025
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Elizabeth Louro é juíza da 2ª Vara Criminal — Foto: Ana Branco / Agência O Globo

O convite para entrar no carro parecia despretensioso. Os dois iriam conversar sobre o fim da relação de dois anos e, no possível, refletir sobre uma reconciliação. Na casa do ex-companheiro, Sônia (nome fictício) se manteve despreocupada, até decidiu dormir no imóvel ao lado dele. Porém, na madrugada, foi acordada de forma brutal. Irado, o homem começou a agredi-la de repente na cama, jogando-a no chão. Um soco forte no rosto a deixou desorientada e, após uma sucessão de ameaças, ele arrancou fios de telefone e os usou para estrangular a mulher. Foram três as tentativas até que, sem forças, ela se fingiu de morta na esperança de cessar as violências.

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O agressor chegou a aproximar os dedos à narina de Sônia para se certificar de que não havia respiração. Num ímpeto, colocou-a novamente na cama e, aproveitando-se da vulnerabilidade dela — e de seu corpo — decidiu estuprá-la. Após a sequência de crimes, ele voltou a dormir, chegando a roncar ao lado da imobilidade da mulher. O som surgiu como uma possibilidade de fuga e, silenciosa, ela conseguiu sair do imóvel e procurar por ajuda.

Registrado na polícia em 2022, o caso de Sônia vai a julgamento este semestre no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), somando-se a dezenas de tentativas de feminicídio já sentenciadas este ano. Segundo duas das quatro juízas dos Tribunais do Júri da capital, a crueldade e a brutalidade dos homens têm sido percebidas frequentemente em plenário.

Dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que crimes de feminicídio representam 19% de todos os casos julgados na capital, de janeiro a julho de 2025 — no ano passado inteiro, eram pouco mais de 16%. Somente na 2ª Vara Criminal, um levantamento interno revela que, até agosto, já superam os julgamentos de mortes praticadas pelo crime organizado: 21 contra 17.

Ao GLOBO, as juízas Elizabeth Louro e Lucia Glioche, titulares da 2ª e da 4ª Varas Criminais, apresentaram suas percepções sobre esses crimes, constantemente associados à humilhação feminina e à exposição de filhos à violência.

  • Pela primeira vez na história: os quatro tribunais do júri da cidade do Rio são presididos por mulheres
Elizabeth Louro é juíza da 2ª Vara Criminal — Foto: Ana Branco / Agência O Globo

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  • “Para mim, o feminicídio virou uma epidemia”, destaca Elizabeth Louro
  • ‘É aquela sensação de ir escutando os fatos e ficar boquiaberta’, diz Lucia Glioche
      • juízas da capital compartilham suas percepções sobre os casos de feminicídio julgados no Rio

“Para mim, o feminicídio virou uma epidemia”, destaca Elizabeth Louro

Qual costuma ser o perfil dos casos que chegam ao júri na 2ª Vara? Há alguma mudança em relação aos processos mais antigos?

Quando eu era juíza no interior do Rio, há mais de 15 anos, boa parte dos júris era de “cachacídio”, briga de pessoas bêbadas que terminava em morte. Lembro até um caso que me marcou muito: um homem que matou o melhor amigo em um bar. Ele estava desolado. Atualmente, esses casos são minoria. Aqui na capital, quase não vemos. A frequência na 2ª Vara é de feminicídios e tentativas, depois, crimes ligados ao tráfico, reação à polícia e mortes pela milícia.

Qual destaque os feminicídios e as tentativas de feminicídio têm em relação aos demais crimes? Estão muito frequentes?

Para mim, o feminicídio virou uma epidemia. Não há uma semana no tribunal em que não haja pelo menos um caso no júri. Já tivemos um dia de audiências com três. É até curioso porque eu percebo esse aumento desde a criação da Lei Maria da Penha. É como se os homens estivessem reagindo e sendo cada vez mais cruéis com as mulheres.

Pode explicar melhor essa percepção? Em que medida eles estão reagindo e por quê?

Os homens foram criados para serem provedores, e eles não estão se adaptando às mudanças socioculturais, à emancipação e ao protagonismo femininos. É uma reação condicionada que me parece partir de um questionamento: “Como eu vou agir, agora, se eu fui ensinado a controlar a família?”. Eles estão deslocados e, como expressão, usam a violência.

Como reverter esse comportamento? O júri pode gerar alguma transformação, contribuir para políticas públicas de proteção às mulheres?

Eu avalio o caso e, seguindo as leis, dou penas mais altas. Mas não adianta acreditar numa mudança só pelo lado punitivo. Já há algum tempo eu exponho a importância de se investir em educação, da escola à vida adulta. Uma educação que não aponte o dedo somente aos homens, porque muitas mulheres também alimentam misoginia, por exemplo. E essas mulheres, eventualmente, serão mães e educarão seus filhos. Então, o fundamento precisa ser amparado em equidade e respeito; é em que eu acredito.

Geralmente, os crimes contra as mulheres têm quais características?

Não vou afirmar que são 100%, mas o ciúme é a principal causa. É aquele pensamento: “Se não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém”. E, aí, eles matam mesmo. Matam na frente dos filhos, de quem for. Temos casos aqui de feminicídios em que os filhos ficam trancados em casa com o corpo da mãe até alguém encontrá-los. Como se recuperar de uma tragédia assim?

Lucia Glioche é juíza titular da 4ª Vara Criminal — Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Lucia Glioche é juíza titular da 4ª Vara Criminal — Foto: Ana Branco / Agência O Globo

‘É aquela sensação de ir escutando os fatos e ficar boquiaberta’, diz Lucia Glioche

Os casos recentes no 4º Tribunal do Júri têm revelado parâmetros comuns? Estão mais cruéis, mais associados a ódio ou preconceito?

Eu estou há pouco mais de um ano à frente do tribunal. Então, tudo me impressiona muito, principalmente se a gente considerar como os casos são apresentados. Há advogados e promotores que usam imagens, vídeos e expõem a arma usada no crime. Não é fácil você assistir a uma execução, observar a família da vítima aos prantos. É algo que impacta mesmo, nos muda como pessoas e nos deixa atentos a realidades distintas. Mas não diria que há parâmetros, mesmo os que parecem repetitivos têm suas particularidades.

Poderia estabelecer um ranking dos casos mais comuns no seu tribunal? Qual crime é mais recorrente?

Minha avaliação é a de que os feminicídios ocupam o primeiro lugar. São muitos casos, e a maioria é muito cruel. É aquela sensação de ir escutando os fatos e ficar boquiaberta, sabe? Vejo muitos casos de mortes em trocas de tiro, seja entre traficantes ou entre traficantes e a polícia; homicídios em consequência de brigas de trânsito; desentendimentos no trabalho, mas as violências contra as mulheres são mais frequentes.

E qual o perfil desses feminicídios? Há alguma mensagem por trás da violência?

Geralmente, as mulheres são agredidas de forma brutal. São poucos os casos em que a morte é decorrente de tiro, por exemplo, que é mais fatal. Existe uma humilhação, um desejo de causar marcas profundas nessas vítimas. Então, a gente percebe que elas são constantemente feridas no rosto. Chegam até a ser desfiguradas. Se sobrevivem, as sequelas afetam a autoestima, transformam a forma como a mulher se mostra ao mundo. Elas também são esfaqueadas, estranguladas, distanciadas da própria humanidade. E os crimes acontecem, muitas vezes, na presença dos filhos.

Pela primeira vez, os quatro tribunais do júri da capital do Rio são presididos por mulheres. Como esses casos de violência contra a mulher impactam sua vida?

É muito difícil. Eu vou dizer para você, há momentos em que a gente precisa segurar a emoção na audiência. É tanta crueldade, barbaridade, que a gente fica até desnorteada. Como que você ouve que uma mulher foi estuprada e morta? Que ela foi torturada só porque decidiu sair de uma relação? Não existe reação para isso. É o que falei antes, tudo me impressiona muito. E tem sido frequente, são casos e mais casos com todo tipo de violência. A gente evita dar detalhes para não banalizar. A ideia não é que esses casos sejam normalizados. Eles não são normais, não são aceitáveis.

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