Em um encontro recente com profissionais do mercado imobiliário, no meio de uma conversa sobre revitalização do Centro do Rio, um executivo soltou uma pergunta que não saiu mais da minha cabeça: “Você acredita que pode acontecer na Lapa o que está acontecendo na Cinelândia?”. A provocação não veio do nada. Minha coluna anterior, inclusive, tratava justamente disso, o avanço da violência em um dos espaços mais emblemáticos da história da cidade. Pensei por alguns segundos, mas a resposta veio direta: “Infelizmente, acho que sim. Se a reorganização da segurança ficar concentrada apenas na Cinelândia, o entorno tende a sentir. E a Lapa, que já não é exatamente sinônimo de tranquilidade, pode ver piorar justamente os trechos que ainda resistem.”
O sommelier de boteco ataca novamente
No Carnaval de 2026, a influenciadora Samanta Alves decidiu gravar o quadro “Cervejinha com Samanta” em frente aos Arcos da Lapa. O cenário era o esperado para fevereiro no Centro: cheio, barulhento, caótico. Até aí, nenhuma surpresa. Ninguém imagina aquele pedaço da cidade como uma versão tropical do paraíso. O que ninguém previa era o que viria junto com a gravação. Enquanto a câmera rodava, o entorno entregava outra narrativa: assaltos, arrastões e até esfaqueamento. “Vão roubar nossa câmera”, alertou o diretor e também namorado Antônio Olavo, tentando convencer a repórter a encerrar tudo ali. As imagens correram a internet e bateram milhões de visualizações. Mudou alguma coisa? Não. Recentemente, outro influenciador apareceu ensinando quais ruas e horários ainda permitem circular com o mínimo de paz.
Estudei no Colégio Zaccaria, ao lado da Lapa. Frequentei a região antes da explosão recente, antes das casas badaladas e da nova fase do Circo Voador. Com colegas de escola e, depois, da faculdade, o roteiro era simples: cerveja barata, festas improvisadas nos sobrados da Mem de Sá e forró no Clube dos Democráticos. Era uma Lapa de transição, entre o imaginário dos malandros e cabarés e a ocupação crescente de turistas vindos de todos os lados. Eu vi a Lapa atravessar crises. Vi moradores serem alvo de preconceito e, depois, testemunharem a chegada da especulação imobiliária. Vi a região deixar de ser apenas passagem e virar destino. Por isso, é difícil aceitar o que se vê hoje. Não é possível ter atravessado tanta coisa para, novamente, conviver com a sensação de insegurança se espalhando pelos quatro cantos de uma Lapa que é uma das sínteses mais evidentes do Rio de Janeiro.
Já que passei pela malandragem…
A imagem clássica dos malandros da Lapa, no Rio de Janeiro, ficou marcada por um visual elegante e cuidadosamente composto. O figurino mais associado a esses personagens inclui terno de linho branco S120, sapatos bicolores, chapéu-panamá e camisa de seda, muitas vezes com botões de madrepérola. Em alguns casos, a calça podia apresentar modelagem boca de sino.
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As roupas eram, em geral, bem ajustadas, limpas e passadas — características consideradas essenciais. Peças novas eram ainda mais valorizadas. Alguns também utilizavam anéis como parte do estilo.
O chapéu, além de símbolo visual, podia ter função prática, sendo usado como forma de defesa em situações de conflito. Nos bolsos, era comum carregar dinheiro e fumo, frequentemente prensado à mão, além de objetos como canivetes.
Especialistas destacam que essa representação segue um padrão estereotipado, já que a figura do malandro assumiu diferentes significados ao longo do tempo. A associação automática entre malandragem, criminalidade ou ociosidade é questionada por estudiosos e também por referências culturais.
O cantor Moreira da Silva, conhecido por interpretar personagens ligados à malandragem, defendia uma visão distinta: para ele, o malandro não era aquele que não trabalhava, mas sim quem evitava o trabalho pesado.
Que saudade
Democráticos tem uma origem pouco comum: um prêmio de loteria. No século XIX, um grupo de amigos que frequentava a região sonhava em criar um clube carnavalesco, mas esbarrava na falta de recursos financeiros.
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A situação mudou após uma aposta feita durante um encontro no antigo bar Maison Rouge. O grupo adquiriu um bilhete e acabou premiado justamente no dia de Nossa Senhora da Glória. Com o dinheiro, o projeto saiu do papel e, em 1867, o clube foi oficialmente inaugurado.
Desde então, o espaço se consolidou como um importante ponto cultural e político da cidade. O Democráticos esteve ligado a movimentos como o incentivo ao fim da escravidão e à implantação da República no Brasil.
A sede também chama atenção pelos detalhes arquitetônicos e decorativos. Nos azulejos da fachada, é possível observar figuras clássicas do carnaval, como Pierrot e Colombina, além de homenagens a ícones da cultura popular, como Charlie Chaplin. Saudade de dançar um forrozinho.

