No dia 25 de maio, 30 minutos após o início da missa na Basílica de São João Latrão, considerada a “mãe de todas as igrejas”, um gesto de Leão XIV chamou a atenção. Foi durante o chamado Rito de Obediência, no qual representantes de grupos diversos da sociedade se apresentam ao novo Papa simbolizando o “povo de Deus”.
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Nesse momento, 12 pessoas entre clérigos e leigos, incluindo uma criança, percorreram o corredor da basílica em direção ao Pontífice que os esperava no altar, como é de praxe nesse tipo de celebração. Ao cumprimentá-lo, fizeram um gesto de reverência, ajoelhando, um a um, e beijaram seu anel. Leão XIV não fez qualquer menção em interferir na genuflexão dos fiéis. O mundo não via esse tipo de cena há 12 anos, tempo de duração do pontificado de Francisco, que sempre interrompia o movimento das pessoas de se curvarem em sua presença.
O retorno da veneração papal, assim como a vestimenta com adereços pomposos — outro símbolo tradicional da Igreja — sinalizam uma faceta importante nestes primeiros 30 dias do novo pontificado: a intenção de Leão XIV de se reaproximar da ala mais conservadora da Cúria Romana. Ao mesmo tempo, mesmo com um comportamento que enfatiza a autoridade papal, como João Paulo II e Bento XVI, Leão XIV tem mostrado ser um Pontífice do centro, do equilíbrio. No discurso, segue a linha de Francisco.
Pela tradição cristã, o novo Papa não continua a missão do antecessor, mas a de Pedro, um dos apóstolos de Jesus, fundador da Igreja. O trabalho é cuidar do povo de Deus, e os pontífices devem cumprir o dever, cada um ao seu estilo. Mas é inevitável comparar os passos de Leão XIV aos de Francisco, talvez com uma proporção maior em relação às sucessões anteriores.
O estilo de Francisco governar a Igreja afastou muitos tradicionalistas ao longo dos anos. Uma fenda que começou a se abrir em 2016, apenas três anos depois de se tornar Papa, com a exortação Amoris Laetitia (Alegria do Amor), documento de grande repercussão que aventou a ideia de casais divorciados e recasados receberem a comunhão. A ira interna foi tamanha a ponto de deflagrar uma revolta entre cardeais que questionaram a validade do texto papal. Começava o afastamento dos prelados conservadores.
Ao mesmo tempo, Francisco mudou o rumo do apostolado católico mundial. Foi o primeiro a pregar e levar, por meio de atitudes práticas, o amor cristão para fora do Vaticano, incluindo os não cristãos e fiéis marginalizados pela Igreja. Com isso, conseguia dialogar e ser admirado por leigos, religiosos e políticos. No dia de sua morte, o ex-presidente dos EUA Barack Obama lembrou que “ele foi um líder raro que nos fez querer ser pessoas melhores”.
— Neste momento inicial, Leão XIV está tentando falar com diferentes vozes dentro da Igreja e está se saindo muito bem — analisa o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, ex-coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.
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Em quase todas as suas falas, há três temas onipresentes: a importância do amor de Deus, da paz e da unidade da Igreja. Também como o antecessor, refere-se a conflitos mundiais com frequência, mas com tom menos aguerrido.
— Aos responsáveis, renovo meu apelo: cesse o fogo; todos os reféns sejam libertados; seja respeitado integralmente o direito humanitário — disse ao fim da audiência geral na Praça de São Pedro, três dias após um ataque da Rússia com drones contra a Ucrânia.
Cinco meses antes, na mesma Praça de São Pedro, Francisco citou a guerra proferindo as palavras dramáticas de uma carta enviada por um estudante ucraniano para recordar os mil dias do início do conflito:
— Aniversário trágico pelas vítimas e pela destruição que causou, mas ao mesmo tempo um desastre vergonhoso para toda a Humanidade.
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Para Borba, a mudança de tom tem a ver com o momento atual.
— É como se os trabalhadores precisassem recarregar as baterias — avalia o sociólogo. — O Papa tem mais a preocupação de fortalecer o aspecto espiritual interno da Igreja do que falar para fora dela.
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Leão XIV é a pessoa que mais circulou pelo mundo antes de ser eleito Papa. Mesmo quando ainda era prior geral da ordem religiosa agostiniana, visitou 47 países. Francisco quase não saiu da Argentina antes de se tornar Pontífice. Mas a carga maior que traz para o posto de chefe da Igreja são os dois anos em que esteve à frente do Dicastério para os Bispos, de 2023 a 2025. Trata-se de um dos departamentos mais importantes do Vaticano. Nessa função, o então cardeal Robert Francis Prevost tinha a missão de assessorar o Papa na nomeação, supervisão e eventual remoção de bispos no mundo inteiro. Leão XVI conhece os bastidores da Santa Sé como poucos.
Seu dia a dia de trabalho tem sido intenso. Por vontade própria, manteve neste primeiro mês uma carga horária maior do que a de seus antecessores no período. Além de cumprir os compromissos que Francisco havia deixado marcado, ele tem os dele, o que faz com que sua equipe tenha de trabalhar além do horário. Um exemplo foi a visita-surpresa na manhã do dia 29 de maio a Castelgandolfo, cidade perto de Roma, conhecida por abrigar a residência de verão dos papas, um palácio luxuoso do século XVII. Francisco nunca esteve lá. O evento nem entrou no calendário oficial do Vaticano.
O primeiro mês do novo pontificado está longe de desvendar uma dúvida crucial sobre o que pensa Leão XIV — a que se refere às questões morais. Como Papa, praticamente não trouxe o assunto em público. Mas, em 2012, Prevost fez declarações críticas a homossexuais em um discurso aos bispos, em Chicago. Lamentou que a cultura popular fomentasse “simpatia por crenças e práticas que estão em desacordo com o Evangelho, como o estilo de vida homossexual”.
Francisco, por sua vez, que chegou a afirmar durante seu pontificado que “as pessoas homossexuais têm o direito de estar na família, são filhos de Deus, têm direito a uma família”, agiu de forma diferente quando era cardeal. Em 2010, como arcebispo de Buenos Aires e presidente do episcopado argentino, acompanhou a posição majoritária da Igreja local, que fez campanha pelo voto contra a lei do casamento igualitário. Como dizem os vaticanistas, “de um Papa recém-eleito, só se tem certeza mesmo é do nome”.
