
Lideranças do chamado Partido das Baratas foram presas dentro do avião no aeroporto de Nova Délhi, em meio à mobilização para uma nova jornada de protestos contra o governo do premier Narendra Modi, que colocou a capital indiana em um rígido lockdown e prendeu mais de 2 mil pessoas. O movimento, surgido na internet, se tornou hoje a maior ameaça ao longevo premier, e angaria cada vez mais apoio nas redes e, especialmente, nas ruas.
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Imagens divulgadas nas contas do partido mostram Abhijeet Dipke, fundador do movimento, e dois assessores detidos dentro da aeronave, enquanto os demais passageiros são impedidos de sair.
— Foi um prazer conhecer todos vocês. Podemos ver para onde a nação está caminhando — disse Dipke. — Isto é uma ditadura: a polícia de Délhi entrou no avião e está tentando nos prender.
Líder do ‘Partido das Baratas’ é preso dentro do avião
Em outro vídeo, gravado pouco antes da prisão, se dirigiu diretamente ao governo Modi.
— Se vocês acham que podem nos deter nos ameaçando com a prisão, estão enganados. Prendam-nos, se quiserem, mas continuaremos lutando para proteger a democracia deste país.
As prisões ocorreram em meio à mobilização para uma nova jornada de protestos exigindo a saída do chefe da comissão eleitoral, Gyanesh Kumar, após um controverso processo de revisão das listas de eleitores que eliminou 130 milhões de nomes. Para os críticos, a medida é uma ameaça à democracia indiana, e teria como alvos eleitores de minorias, como os muçulmanos, que não necessariamente apoiam a continuidade de Modi no poder.
— Quando se destrói o voto, destrói-se a estrutura deste país, destrói-se a Índia moderna, destrói-se a ideia de Índia — disse o líder da oposição, Rahul Gandhi.
Ao longo da semana, as autoridades da capital indiana implementaram medidas de controle de vias e alertaram que não permitiriam aglomerações no complexo de Jantar Mantar, um dos marcos históricos de Nova Délhi. Neste sábado, mais de duas mil pessoas, de ativistas a jornalistas, foram detidas pelas forças de segurança. Serviços de internet móvel sofreram cortes, estações de metrô foram fechadas e viagens de trens com destino à cidade foram canceladas. Em algumas áreas, foi imposto um regime de lockdown, similar ao dos tempos da pandemia da Covid-19.
Apoiador do Partido das Baratas é levado por policiais durante protesto em Nova Délhi
Arun SANKAR / AFP
Contudo, a repressão contra o que as autoridades chamam de “elementos anarquistas” não fez com que os manifestantes baixassem a cabeça ou voltassem para casa.
— O governo está com medo porque os jovens deste país estão despertos. Eles conhecem seus direitos e estão lutando por eles. É por isso que o governo está agindo como uma ditadura — disse ao jornal britânico Guardian o aposentado Parvin Singhal, de 75 anos, que afirma que seu nome foi retirado deliberadamente das listas de votação. — O que é ainda mais perturbador é que o governo está retirando o nosso direito mais fundamental: o direito de votar.
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Falando à rede BBC, Sabika Muzaffar disse que ela e sua mãe já esperavam ser presas, e que estavam memorizando o número do advogado. Mesmo assim, afirmou que comparecer ao ato era “sua maneira de defender o país e sua democracia”. De fato, como atestou a reportagem, as duas foram detidas, e se juntaram a outras dezenas de pessoas em ônibus da polícia, com destino incerto.
— Estou aqui para protestar não apenas contra a corrupção envolvendo nossos votos, mas também contra a corrupção no sistema educacional — disse Lucky, que viajou por 14 horas até Nova Délhi, em declarações ao New York Times. — Não acho que vão atirar em nós ou nos matar. No máximo, vão nos levar para a cadeia, e estou pronto para isso.
Apoiador do Partido das Baratas preso em protesto em Nova Délhi
Arun SANKAR / AFP
Surgido nas redes sociais como parte de um movimento por reformas educacionais e pela saída do ministro da Educação, o Partido das Baratas — que ainda não é um partido de fato — ganhou força no ambiente digital e nas ruas, com protestos numerosos e pautas que, hoje, vão além da insatisfação com a educação. O nome foi inspirado em declarações do chefe da Suprema Corte, Surya Kant, que em maio afirmou que jovens desempregados eram como “parasitas” e “baratas” que “não têm lugar em nenhuma profissão”.
Desde então, memes com baratas em lugares de destaque, como o Parlamento, circulam livremente, assim como um discurso que atrai cada vez mais apoiadores, que soa como ameaça crescente a Modi, no poder desde 2014.
— Vivemos tempos extraordinários e os jovens deste país devem sair para defender o seu futuro — disse ao Guardian Prakhar Vashishth, um manifestante que precisará comprovar às autoridades eleitorais que tem direito ao voto. — Este governo fará tudo para permanecer no poder, até mesmo alterando as regras eleitorais ou removendo pessoas que acredita que não votarão nele. Mas não pode nos manter afastados para sempre.”