Mehmet Kusman não frequentou a escola por muito tempo, mas traçou com os dedos as antigas inscrições talhadas na rocha de basalto negro e leu: “Antes de mim, não havia nada. Mas, pelo poder do deus Haldi, fundei esta cidade.” Kusman, aos 86 anos, dedicou sua vida à fortaleza de Cavustepe, no leste da Turquia, e ao estudo da língua do extinto reino de Urartu, para homenagear seus deuses e governantes esquecidos.
Com passos firmes e mente aguçada — apesar da idade avançada e dos ventos quentes que açoitam o castelo —, ele caminha junto às fundações de um templo dedicado a Haldi, o deus guerreiro supremo. Kusman usava um boné comprado em Los Angeles, no qual escreveu “USA 2009” utilizando a escrita cuneiforme típica das antigas civilizações da região. Ele foi contratado como trabalhador braçal nas escavações de Cavustepe após cumprir o serviço militar na década de 1960 e foi lá que se deparou com sua primeira estela.
Mehmet Kusman, de 86 anos, posa em sua oficina na fortaleza de Çavuştepe, perto de Van, no leste da Turquia, em 22 de julho de 2026
Ozan Kose / AFP
“A inscrição era muito bonita”, disse ele à AFP. Mas o responsável pelas escavações o desaconselhou a aprender essa escrita “muito difícil”, que havia tomado emprestado seu alfabeto cuneiforme do assírio. “Ouvir um ‘não’ me magoou”, disse ele. “Fiquei obstinado, pensando: ‘Ainda vou aprender isso’.”
Apesar de não ter formação acadêmica, Kusman começou a copiar as inscrições encontradas durante escavações realizadas no leste da Turquia, no Irã e na Armênia — regiões que, outrora, integraram o reino de Urartu. Em três anos, segundo ele, dominou o alfabeto, mas “levei 22 anos para dominar 650 palavras” de vocabulário.
Um dos últimos
Acadêmicos contatados pela AFP elogiaram o entusiasmo e a dedicação de Kusman. Ele se tornou um persomagem local, descrevendo-se como “uma das últimas sete pessoas na Turquia que falam a língua urartiana”.
Erkan Konyar, professor de história antiga na Universidade de Istambul, descreve o reino como “um dos estados mais poderosos do antigo Oriente Próximo, entre os séculos IX e VII a.C.” Urartu foi mais recente do que os grandes reinos mesopotâmicos da Assíria, Suméria e Babilônia. Em sua época, uniu as comunidades tribais montanhesas sob um Estado centralizado, construindo cidades, fortalezas, redes de irrigação e vastas instalações de armazenamento de alimentos, disse Konyar.
Arqueóloga trabalha em uma pedra com inscrições no idioma urartiano na fortaleza de Ayanis, perto de Van, no leste da Turquia, em 4 de agosto de 2026.
ALI IHSAN OZTURK / AFP
Apesar de ter se aposentado em 2005, Kusman continua a zelar por Cavustepe, afirmou Konyar, especialista em Tuspa, a capital fundadora do reino. “Há 60 anos, ele vive em meio às escavações e apresenta a história de Urartu a milhares de visitantes.”
No entanto, Konyar faz questão de ponderar as afirmações de Kusman sobre falar a língua. Na verdade, os historiadores não sabem ao certo como ela era pronunciada, disse ele. “As inscrições disponíveis nos permitem compreendê-la até certo ponto, mas faltam vocabulário e textos”, disse ele. “Apenas o significado de certas palavras é conhecido com certeza. Portanto, ninguém pode afirmar que fala urartiano.”
“Mesmo na época de Urartu, as pessoas não falavam essa língua; ela era apenas escrita”, disse Mehmet Isikli, diretor do Departamento de Arqueologia do Oriente Próximo da Universidade Atatürk, em Erzurum.
‘Neto dos urartianos’
A paixão de Kusman pelo idioma fez dele uma celebridade local. Suas palestras o levaram “aos Estados Unidos, cinco vezes, à Alemanha, aos Países Baixos, à Bélgica”, disse ele, enumerando a lista com um toque de teatralidade. “Agora, estou pensando em ir ao Japão”, acrescentou.
Isikli está escavando a fortaleza de Ayanis — a última das grandes fortalezas construídas no reino antes de seu colapso, situada a 35 quilômetros ao norte de Van e com uma vista privilegiada do lago.
“Nossas escavações podem nos revelar algo sobre o fim de Urartu”, disse ele, observando que os pesquisadores encontraram “vestígios de um terremoto muito poderoso”.
Turistas caminham pelas ruínas da fortaleza de Cavustepe, perto de Van, no leste da Turquia, em 22 de julho de 2026
Foto por OZAN KOSE / AFP
Isikli admite sentir certo respeito pelo velho guardião. “Eu o admiro”, acrescentou. “Ele trabalhou muito e trouxe a cultura urartiana à luz. Mehmet Kusman promove Urartu de certa forma, mas isso não tem nada a ver com trabalho acadêmico: ele conhece apenas alguns sinais do alfabeto, ou algumas letras, e algumas informações muito, muito gerais sobre eles.”
Em sua pequena cabana de pedra na entrada do sítio arqueológico de Cavustepe, Kusman não se deixa abalar pelos céticos. “Sou descendente dos urartianos, neto deles”, disse. “Eles desapareceram, mas vejam só: não estão todos mortos”, declarou, enquanto se levantava para receber os visitantes.

