Você sabia que já circulou pelo Méier um caminhão-pipa… de leite? Que o presidente Juscelino Kubitschek foi ao bairro entregar presentes a uma menina que furtou comida por fome? Ou que o Flamengo e o Vasco já se enfrentaram no Engenho de Dentro? Essas e muitas outras histórias inusitadas estão reunidas em O “Livro do Grande Meyer”, fruto de seis anos de pesquisa e paixão pela Zona Norte.
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Tem também um campeonato carioca, com jogos de 20 minutos e finais de 60, todos no mesmo dia, vencido pelo Mackenzie em 1923. E até Zico, o maior ídolo do Flamengo, entra na história como ex-dono de imobiliária na Rua Silva Rabelo.
Em meio às comemorações pelos 136 anos do Méier, o movimento de valorização da memória da Zona Norte ganha novo fôlego com a chegada da obra assinada pelo jornalista e farmacêutico Renato Breves Giglio Corrêa de Almeida. Com mais de 600 páginas recheadas de relatos emocionantes, fotografias raras e registros históricos, o livro é um mergulho afetivo pelos mais de 20 bairros que compõem o chamado Grande Méier.
— A memória é frágil. Se a gente não registra, ela se perde. E o Grande Meyer merecia um registro à altura da sua importância histórica e afetiva — afirma Almeida, que dedicou seis anos a pesquisa, escrita e organização do livro, que ficou pronto em 2023, mas só agora está sendo divulgado.
Natural da Tijuca e criado no “Meyer”— grafado com “y”, como na forma original, por escolha do autor —, Almeida tem longa trajetória como ativista da memória local. Foi ele quem protocolou o pedido de oficialização da bandeira do bairro, entregou à prefeitura um abaixo-assinado pedindo a revitalização do Jardim do Méier e outro à Câmara Municipal pleiteando o retorno da letra “y” ao nome do bairro, como forma de resgate histórico. Também é o criador do projeto Máquina do Tempo do Grande Meyer, que há mais de uma década movimenta as redes sociais com fotos antigas, relatos e curiosidades sobre a história da região.
A ideia de transformar esse acervo em livro surgiu justamente da intensa troca com o público nas redes.
— Comecei a postar fotos e curiosidades no grupo do Facebook em 2012. Depois veio a página, em 2014. Foi ali que percebi que não bastava só publicar fragmentos. Era preciso reunir tudo de forma organizada, aprofundada e acessível — relembra.
Almeida conta que é um andarilho incansável de sua região. Nunca teve carro, então percorreu o Grande Méier a pé durante anos, conversando com moradores, registrando histórias, anotando detalhes e fotografando os poucos atrativos ainda preservados.
— Essa vivência cotidiana me deu uma conexão profunda com o território. O desejo de reunir tudo isso em um livro veio como uma missão: preservar essa memória, valorizar o que temos de único e, quem sabe, despertar o olhar da população e do poder público para tudo isso. O livro é fruto de uma paixão que virou responsabilidade com a história local.
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A ficha caiu, diz, quando percebeu que marcos da região estavam desaparecendo.
— Sempre ouvi relatos incríveis de moradores mais antigos e fui testemunha de transformações marcantes. Mas vi também praças abandonadas, patrimônios descaracterizados, cinemas e clubes fechando, marcos históricos sumindo, tudo sem registro adequado — diz.
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Uma das maiores dificuldades foi encontrar fontes confiáveis e organizadas:
— Tive que mergulhar em livros raros, jornais antigos, documentos públicos e privados e arquivos da Biblioteca Nacional e conversar com moradores mais velhos. Muitas informações estavam incompletas ou contraditórias, então o trabalho de checagem foi intenso.
A dimensão emocional também pesou:
— Revisitar o passado da nossa própria infância mexe conosco. Escrever sobre lugares que marcaram minha vida e que já não existem como antes, como o Cinema Art Meyer ou o Jardim do Méier em sua fase áurea, me trouxe nostalgia, mas também um senso de urgência: registrar antes que desapareça de vez da memória coletiva.
Boa parte das fotos e registros do livro veio de colaborações da comunidade. Ao longo dos anos, centenas de imagens foram postadas no grupo da Máquina do Tempo do Grande Meyer.
Entre tantas histórias, um nome em especial marcou o autor: Augusto Duque Estrada Meyer.
— Entender o papel da família Meyer na urbanização da região, e como a grafia original com “y” foi sendo deturpada, me fez refletir muito sobre a identidade histórica do bairro — explica.
O livro está disponível em duas versões: uma edição em preto e branco com capa comum, à venda na Amazon; e outra colorida, com capa dura, disponível no site Clube de Autores.
