Após os Estados Unidos decidirem classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, na noite desta quinta-feira, veículos de imprensa estrangeiros atribuíram a ação às articulações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua campanha eleitoral à Presidência da República. O parlamentar esteve em Washington nesta semana, onde se encontrou com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio.
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O jornal americano The New York Times definiu que a decisão dos EUA ocorreu “após nova pressão dos Bolsonaros”. O veículo citou um “lobby agressivo” dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Além de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) está no país desde fevereiro do ano passado, onde articulou sanções contra autoridades brasileiras.
“A medida surge poucos dias depois de dois dos filhos de Bolsonaro, um dos quais planeja se candidatar à presidência ainda este ano, terem visitado Trump na Casa Branca. Isso gerou preocupação entre autoridades brasileiras de que os EUA possam estar tentando influenciar as próximas eleições, ajudando um novo Bolsonaro”, diz o jornal.
A agência Associated Press, em publicação veiculada no jornal americano Washington Post, mencionou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já “afirmou repetidamente”, em outras ocasiões, que interpretaria tal ação dos EUA como um interferência a favor de Flávio.
“Em preparação para as eleições, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu filho, candidato à presidência, pediram a redesignação das duas facções criminosas — Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) — acusando Lula de não combater esses grupos de forma eficaz”, afirma.
O diário britânico Financial Times, por sua vez, lembrou que a medida pode esfriar a tentativa de aproximação entre Lula e Trump. O presidente esteve nos EUA no início deste mês, mas afirmou não ter debatido o assunto com o líder americano.
“Embora Washington já avaliasse essa mudança há pelo menos um ano, o momento da decisão deve fortalecer politicamente o senador de 45 anos”, avaliou o veículo, em alusão a Flávio.
Em conjunto, Al Jazeera e Reuters lembraram dos esforços de Trump em atribuir a classificação para organizações de Colômbia e Venezuela, por exemplo, com o desejo de consolidar sua força na América Latina. A publicação também afirmou que Lula tentou “repetidamente dissuadir” os EUA sobre a questão, além de lembrar a aproximação do período eleitoral.
“Embora Lula seja um crítico de Trump, seu principal oponente, o senador de direita Flávio Bolsonaro, tem laços estreitos com o governo dos EUA”, diz. “Trump já interveio na política brasileira em nome da família Bolsonaro. No ano passado, ele aumentou as tarifas contra o Brasil para quase 50% em um ato de solidariedade ao pai de Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro”, diz outro trecho.
Já o France 24, canal francês de notícias internacionais, afirmou que “do ponto de vista político, a designação de terrorista é uma clara afronta a Lula”. O veículo lembrou que Brasil e Estados Unidos unidos assinaram um acordo de cooperação neste ano, embora o petista tenha rejeitado evoluir a colaboração para a definição terrorista.
Nova classificação
A nota no qual o anúncio foi feito afirma que os grupos são “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”. O texto afirma que PCC e CV foram classificados como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs, na sigla em inglês). Eles devem ainda receber a classificação de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) partir de 5 de junho de 2026.
“Juntos, eles comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros. A sua influência e redes ilícitas estendem-se muito além das fronteiras do Brasil, através da nossa região e do nosso país”, diz o anúncio do Departamento de Estado.
A classificação FTOs, que deve começar a valer a partir de junho, é feita pelo secretário de Estado e diz respeito a grupos estrangeiros. A designação torna ilegal para “uma pessoa nos Estados Unidos ou sujeita à jurisdição dos Estados Unidos” fornecer “apoio material ou recursos” à organização. Instituições financeiras americanas que tomem conhecimento de gerirem fundos de interesse de uma FTO tornam-se obrigadas a “reter a posse ou o controle sobre os fundos e reportar os fundos ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA”.
Já a classificação de SDGT, que já está valendo para os dois grupos criminosos, foi instituida pelo ex-presidente americano George W. Bush em setembro de 2001, após os ataques da Al-Qaeda às Torres Gêmeas. A designação é administrada pelo Departamento de Estado e pelo Departamento do Tesouro dos EUA, tendo foco financeiro e podendo atingir indivíduos.

