A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, falou sobre sua relação com a arte em entrevista à jornalista Maria Fortuna ‘Conversa vai, conversa vem’, videocast do Jornal OGLOBO, no ar no perfil do Jornal OGLOBO no Youtube.
A senhora aprendeu a ler aos 16 anos. Nesse momento, fez se a luz? Quem faz a cabeça de Marina Silva em termos de literatura? E na música?
Tem um conto do Guimarães Rosa que me toca profundamente: “Nenhum, nenhuma”. Uma música importante na minha vida, é “Respeita Januário”, do Luiz Gonzaga. Aprendi matemática com meu pai para não ser enganada no preço da borracha e das mercadorias. Aprendi a falar de maneira letrada ouvindo novelas do rádio da Ivani Ribeiro, do Benedito Ruy Barbosa. Toda vez que falava com o povo da cidade, minha mãe dizia que eu estava falando como gente besta.
Estudei, voltei para casa e pensava: “Tenho que aprender a respeitar o modo de se expressar da minha família, não ficar corrigindo”. O saber narrativo é tão importante quanto o conhecimento letrado. Luiz Gonzaga entrava no universo da minha formação, da minha raiz. “Luiz, respeita os oito baixos do teu pai”. Aprendi a respeitar os oito baixos das minhas raízes, da minha família, da minha cultura. Tenho orgulho de navegar nos dois universos: o saber narrativo das comunidades tradicionais e esse saber letrado que, como eu disse, se encontram, se atravessam, não se excluem.
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É pós-graduada em teoria psicanalítica. Como foi o encontro com a psicanálise?
Foi em 1982, diante de uma situação estranha. Estava grávida de cinco meses e fazia um calor horrível. Entrei no banheiro, minhas amigas estavam se arrumando antes de pegar o ônibus, e eu as escutei falando: “Marina não gosta da família dela, essa mulher faz tanta coisa porque não gosta do marido e dos filhos”. Comecei a chorar e tampava a boca porque não queria que elas percebessem que tinha ouvido. Então, penso: “Quero defender a natureza, a justiça social, que pare a violência contra seringueiros e indígenas, e a mensagem é a que não gosto da minha família?”. Fui para uma biblioteca com livros de psicologia. Abri um que dizia: “O amor por uma pessoa que não é acompanhado de um profundo amor pela humanidade pode ser tudo, menos amor”. Aquilo me deu à luz. A gente é feito de contradições, as escolhas que fazemos marcam pessoas com as quais temos responsabilidade, relações afetivas. Mas se abrir mão dos meus sonhos essenciais, como vou ensinar para os meus filhos que eles têm que perseguir os sonhos essenciais deles?
Um filme, também, livro, que me marcou muito foi “A Cor Púrpura”. Coloca todo aquele dilema do que que era a escravidão, o racismo, todas as formas de opressão que existiam contra as mulheres, contra as pessoas pretas naquele contexto. Isso me marcou muito e marcou porque o livro, para mim, era mais potente, como sempre, na maioria das vezes do que o filme.
Mas poder fazer esse encontro entre a imagem e a acústica do que estava sendo descrito foi muito potente na minha vida. Então, sempre tomo isso como um referencial.
Mas ainda sobre Guimarães Rosa…
Quando eu saí do PT, em 2009, em me aproximei da obra dele. Na hora de me filiar ao PV, citando a poesia desse conto em que ele diz assim: “Será que um dia, quando a gente se separar, você será capaz de continuar gostando de mim, e gostando e gostando? Como é que a gente sabe?” Antes do ator de filiação, eu estava com minhas filhas no hotel, até para economizar, a gente ficou um bocado de gente no quarto.
E minha filha disse: “Você está chorando tanto que não sei como é que vai ser”. Foi uma vida toda no PT, né? Eu chorava, chorava, chorava, até que me inspirei, fui ao computador e lembrei tem alguma coisa lá no “Nenhum, nenhuma”. E foi como essa frase me desse vida, força. Digo: “Tô saindo porque, às vezes, os filhos têm que sair, né?” A gente convive melhor se a gente for para um outro apartamento, uma outra casa, mais a gente pode continuar gostando e gostando. E a gente só sabe disso quando a gente faz esse gesto.
E aí, para entrar no PV, mais uma vez, é a força da poesia, da beleza, da filosofia de Santo Agostinho. Nas Confissões de Santo Agostinho, ele diz: “É tarde, eu vos amei, beleza tão nobre, tão antiga tarde vos amei e que estavas dentro de mim. Eu estava fora de mim”. Ele está se referindo ao Espírito Santo que Santo Agostinho brigou com a conversão dele. Ele não queria.
Tem até coisas interessantes. E falei isso para o PV. Sempre tive uma proximidade com o (Fernando) Gabeira, com (Alfredo) Sirkis, com o (Carlos) Minc lá, o Chico Mendes nos ajudavam. É, mas a gente era do PT, mas o PV tinha muita identidade. Essas pessoas com quem nós fazíamos o embate, a defesa da floresta, até mais forte à época, digo em termos de consciência, mas o PT tinha muita solidariedade com a luta.
Tanto é que o Lula foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional junto com o Chico Mendes na morte do Wilson Ribeiro, porque ele sempre ia lá em solidariedade, nos momentos mais cruciais da nossa luta. Mas para o PT era mais aquela coisa da luta de classe dos trabalhadores, da reforma agrária tradicional. Então eu saio dizendo uma poesia para o PT e também uma oração poesia para o PT e para o PV.