Em discursos alinhados durante a cúpula do G20 neste sábado, em Joanesburgo, na África do Sul, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu homólogo francês, Emmanuel Macron, afirmaram que o bloco, grupo que reúne as maiores economias do planeta, corre o risco de se tornar irrelevante caso não recupere sua capacidade de produzir consensos diante de conflitos e crises globais.
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Sem citar diretamente a ausência do presidente americano, Donald Trump, Lula disse que o funcionamento do G20 está “ameaçado” pelo avanço do protecionismo e do unilateralismo, e advertiu que, se o grupo fracassar na busca de soluções para temas urgentes — das guerras na Ucrânia e em Gaza às crescentes desigualdades — dificilmente outra instância global terá legitimidade e diversidade suficientes para substituí-lo.
Lula discursa na cúpula da G20, em Joanesburgo, na África do Sul
Reprodução / Redes sociais
— O próprio funcionamento do G20 como instância de diálogo e coordenação está ameaçado — afirmou o presidente brasileiro. — Se não formos capazes de encontrar caminhos dentro do G20, não será possível fazê-lo em um mundo conflagrado.
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Trump não só boicotou a cúpula, organizada pela primeira vez em território africano, como vetou a participação de qualquer autoridade de seu governo. O gesto acentuou dúvidas sobre a capacidade do grupo de manter seu papel desde 2008, quando serviu como eixo de coordenação na crise financeira global.
Logo depois de Lula, Macron reforçou o alerta.
— O G20 está em risco e talvez chegando ao fim de um ciclo — disse o presidente francês, apontando para a ausência americana, que, segundo ele, enfraquece diretamente a credibilidade do fórum e simboliza o avanço da fragmentação internacional.
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Antes da cúpula deste sábado, Lula realizou uma reunião bilateral com o chanceler alemão, Friedrich Merz, acompanhado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Em outra frente, o presidente brasileiro posou para fotos ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do próprio Macron, afirmando que os três “reafirmaram o compromisso” com o acordo entre Brasil e União Europeia.
Lula e o chanceler alemão, Friedrich Merz
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‘Protecionismo e o unilateralismo’
No discurso, Lula pontuou que G20 nasceu em resposta à crise de 2008 e que as intervenções feitas pelo fórum foram fundamentais para evitar um “colapso de proporções catastróficas”, mas ponderou que “a resposta oferecida pela comunidade internacional foi incompleta e produziu efeitos colaterais que perduram até hoje”.
— Enveredamos por uma trilha que repetiu a receita de austeridade como um fim em si mesmo, que aprofundou desigualdades e que ampliou tensões geopolíticas. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas fáceis e falaciosas para a complexidade da realidade atual. Seus efeitos exacerbam os problemas que enfrentamos — afirmou.
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Lula ainda afirmou que “a ciência prevaleceu, o multilateralismo venceu” na COP30, após a União Europeia abrir caminho para a adoção do acordo final.
— Neste ano em que o planeta ultrapassou pela primeira vez, e talvez permanentemente, o limite de 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais, a comunidade internacional se viu diante de uma escolha: continuar ou abandonar. Optamos pela primeira opção — disse.
O brasileiro também defendeu mecanismos de troca de dívida por investimento climático e o debate sobre a taxação de super-ricos, dizendo que a desigualdade extrema se tornou “risco sistêmico para todas as economias”.
Mesmo sem os EUA, o G20 conseguiu aprovar uma declaração robusta sobre combate às mudanças climáticas e redução das disparidades socioeconômicas.
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— Precisamos recuperar um padrão comum de atuação. Caso contrário, o G20 se tornará irrelevante — acrescentou Macron.
Na sua fala final, Lula resumiu a posição brasileira.
— Nenhum país tem condições de prosperar em isolamento. As soluções que buscamos estão ao redor desta mesa.
(Com AFP)

