O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou na tarde deste domingo para França e pretende usar sua participação na cúpula do G7, na próxima terça e quarta-feira, em Évian-les-Bains, para reforçar críticas à possibilidade de um novo tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Segundo integrantes do governo, não houve pedido para uma reunião reservada com o presidente americano e não há agenda oficial entre os dois prevista até o momento. Isso, porém, não impede que os dois líderes tenham uma conversa informal à margem do encontro, como ocorreu na reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado e que abriu as portas para uma relação mais direta entre os dois presidentes.
Lula anunciou sua ida ao G7 um dia após a divulgação das conclusões de uma investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana, que sugeriu a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Embora o Brasil não integre o grupo das maiores economias do mundo, foi convidado pelos anfitriões franceses a participar da cúpula e vinha deixando em aberto a possibilidade de participar do evento.
Auxiliares de Lula avaliam que não haveria ganho político em buscar uma reunião formal neste momento, apesar das recentes iniciativas da Casa Branca envolvendo o Brasil, mas uma conversa informal pode ser um caminho para a busca de um recuo dos americanos. O presidente brasileiro já tem encontros previstos com o presidente da França, Emmanuel Macron, e com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi.
Além da tarifa de 25%, os Estados Unidos estudam impor uma taxa adicional de 12,5% a cerca de 60 países, entre eles o Brasil, sob a alegação de falhas relacionadas ao combate ao trabalho forçado. Também causaram desconforto no governo brasileiro a decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e a recepção dada por Trump ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Casa Branca.
Entre as medidas adotadas pelos Estados Unidos, integrantes do governo consideram que a única com possibilidade de revisão no curto prazo é a proposta de sobretaxa de 25%. O tema já vem sendo tratado por um grupo de trabalho criado após a reunião entre Lula e Trump, em 7 de maio. Na avaliação do Planalto, não faria sentido levar a discussão diretamente aos presidentes enquanto existe um canal institucional aberto entre integrantes do alto escalão dos dois países.
No sábado, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, participou de uma reunião virtual com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. De acordo com o ministério, uma nova rodada técnica de negociações deverá ocorrer nos próximos dias.
Mesmo sem um encontro direto entre os dois presidentes, Lula deve abordar o tema das tarifas em sua intervenção na cúpula. A pauta da terça-feira será dedicada aos desequilíbrios macroeconômicos globais, espaço que o presidente pretende utilizar para criticar o unilateralismo e o que considera um enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Na última quinta-feira, Lula afirmou que Trump “não foi eleito para ser imperador do mundo”. No G7, contudo, a expectativa de auxiliares é que o presidente brasileiro adote um discurso mais diplomático, compatível com o ambiente do encontro.

