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outubro 2, 2026
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Lula liga crise do STF a ministros indicados por Bolsonaro, e Flávio acirra críticas na reta final após decisões sobre debate

Por · outubro 2, 2026
Empatados, Lula e Flávio apostam em atos no Sudeste, maior colégio eleitoral, nos últimos dias de campanha


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, voltaram a colocar o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro da disputa presidencial às vésperas do primeiro turno. Em entrevista ao podcast Flow, o presidente relacionou a crise na Corte a ministros indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e afirmou ter pedido a Kassio Nunes Marques e André Mendonça que não favorecessem nenhum dos lados envolvidos. Já Flávio intensificou os ataques ao Judiciário após a sequência de decisões que alterou as condições do debate da TV Globo, posteriormente cancelado, e passou a usar o episódio para pedir um “voto de revolta” aos eleitores na reta final.
Em entrevista ao Flow na noite de quinta-feira, no mesmo horário em que estava previsto o debate, Lula citou Kassio Nunes Marques e André Mendonça, os dois ministros indicados ao Supremo por Bolsonaro, ao comentar a crise aberta pelas investigações do caso Banco Master. O presidente relatou ainda uma conversa com ambos no Palácio do Planalto e afirmou ter pedido que os magistrados não favorecessem nenhum dos lados envolvidos nas apurações.
— Pergunte para o Kássio Nunes, que é o presidente do TSE, e para o André Mendonça, que estiveram comigo no Palácio. Eu disse o seguinte: “Gente, eu não quero que vocês pendam para nenhum lado. Eu quero que vocês sejam justos. O povo merece respeito. Vocês não têm que favorecer ninguém. Favoreça o que é certo.” Agora, se eles têm um comportamento que não é o correto, vão pagar o preço. Todos nós pagamos o preço do erro que cometemos. Todos nós.
Lula evitou culpar apenas Alexandre de Moraes e citou de forma ampla os ministros quando tratou do escândalo do Master e suspeitas de integrantes da Corte, na linha em que é preciso “julgar todo mundo”:
— Quando você começa a tirar o cobertor de cima da denúncia do Banco Master, percebe que não é só o contrato do Alexandre de Moraes. Você percebe que tem mais gente. Tem gente que recebeu dinheiro para montar um instituto. Tem gente que viajou no avião porque era importante viajar no avião. Tem gente que recebeu um resort. Tem tudo isso. Então, para que julgar só? Vamos julgar todo mundo.
Ao falar em “montar instituto”, o presidente se referia ao ministro André Mendonça. O ministro Flávio Dino, do STF, pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que seja investigada uma possível relação entre o Banco Master e o instituto que teve Mendonça como sócio. O ministro nega qualquer relação. Na sequência, Lula citou Nunes Marques e Toffoli, que foi indicado pelo petista em seu segundo mandato, e afirmou que a sociedade quer saber se as histórias envolvendo os dois ministros são “verdadeiras”.
Toffoli deixou a relatoria do Master após a revelação de que é sócio de uma empresa que vendeu uma participação no resort Tayayá, no interior do Paraná, para um fundo do cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro. Já Nunes Marques foi citado indiretamente em mensagens entre Vorcaro e interlocutores com referências à “turma do KN”. Filho do ministro, o advogado Kevin Marques também foi citado em mensagens por ter recebido pagamentos de uma empresa de consultoria que foi contratada pelo Master. Os ministros e o advogado negam irregularidades.
Ao tratar da crise do STF, Lula voltou a falar de uma proposta para criar um conselho da sociedade civil para escolher integrantes da Corte e de mandatos para ministros do Supremo. As duas ideias foram para o discurso do petista com o acirramento da crise do STF e com os reflexos negativos que essa tensão trouxe para a campanha petista. Ao longo do terceiro mandato, porém, Lula escolheu ministros para a Corte da sua confiança e com estrita relação pessoal com ele. Flávio Dino foi seu ministro da Justiça, e Cristiano Zanin seu advogado na Lava-Jato.
— Quero criar um conselho para escolher ministro. Não pode ser o presidente da República. É melhor criar um conselho da sociedade civil para indicar uma pessoa, e essa pessoa passa a ser da responsabilidade da própria sociedade, e não do presidente da República. E a gente começa a ter a possibilidade de um STF de fato menos político — disse Lula.
Do lado de Flávio, as decisões que antecederam o debate da TV Globo levaram o candidato a endurecer um discurso que vinha sendo calibrado pela campanha ao longo dos últimos meses. Embora mantivesse ataques frequentes a ministros como Alexandre de Moraes e Flávio Dino, o senador vinha evitando estender as críticas ao Supremo como instituição e buscava preservar canais de interlocução com integrantes da Corte.
A mudança de tom ficou evidente após a sequência de decisões tomadas às vésperas do último debate antes do primeiro turno. A campanha havia decidido participar do encontro mesmo sem Lula e preparado uma estratégia para explorar a ausência do presidente.
Flávio pretendia direcionar perguntas ao petista e usar o púlpito vazio como símbolo da decisão do adversário de não comparecer. Essa dinâmica era, inclusive, um dos principais motivos para a manutenção de sua presença: a equipe apostava que as provocações a Lula renderiam cortes para as redes sociais e ajudariam a mobilizar o eleitorado nos últimos dias de campanha. O candidato também desejava reforçar a ausência ao espectador, em uma tentativa de se apresentar como o único nome competitivo que havia comparecido.
Horas antes do programa, no entanto, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a emissora de mostrar o púlpito reservado a Lula e de permitir perguntas dirigidas ao presidente. Paralelamente, decisões judiciais alteraram a composição do debate. Gilmar Mendes, do STF, determinou a participação de Renan Santos (Missão), inicialmente fora da lista de convidados da emissora, enquanto Romeu Zema (Novo) também havia recorrido à Justiça para garantir presença.
Flávio anunciou então que não compareceria. Pouco depois, a Globo cancelou o debate diante das sucessivas alterações nas regras do encontro. O episódio, porém, não se encerrou com o cancelamento: a campanha passou a incorporá-lo ao discurso das últimas horas antes da votação como exemplo do que considera uma interferência do Judiciário na disputa eleitoral.
Em uma transmissão montada às pressas por sua equipe, realizada no horário em que ocorreria o encontro da Globo, Flávio chamou de “censura” a decisão que impediu a exploração da ausência de Lula e associou o episódio à necessidade de uma resposta dos eleitores nas urnas.
— Me dê seu voto de revolta. Me dê seu voto inteligente já no primeiro turno — afirmou.
Sua campanha montou um púlpito vazio com o nome do presidente Lula, em uma tentativa de reproduzir a estética desejada para o confronto final das eleições, que acabou não ocorrendo.
O coordenador político da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), seguiu a mesma linha. Após o cancelamento do debate, afirmou que as decisões judiciais demonstravam parcialidade e escreveu nas redes sociais que “o sistema está com medo”.
Segundo interlocutores de Flávio, o embate deve permanecer no discurso do candidato até a votação e deverá aparecer em seus últimos atos, em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Embora a campanha tenha buscado moderar o tom nesta reta final e ampliar o espaço dedicado a temas como custo de vida e segurança pública, a avaliação é que as decisões judiciais abriram uma oportunidade para mobilizar também a indignação do eleitorado nas últimas horas antes do primeiro turno. A estratégia também busca acentuar o contraste com Lula, seu principal adversário, associando o petista à crise no Judiciário.

Lula liga crise do STF a ministros indicados por Bolsonaro, e Flávio acirra críticas na reta final após decisões sobre debate