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A presença dos navios de guerra e tropas americanas na região e as ameaças do presidente Donald Trump de uma ação militar por terra reforçaram o temor de Maduro de uma ofensiva para removê-lo do poder — embora ainda haja divisões dentro do governo americano sobre como lidar com o regime de Caracas. Em resposta, ele ampliou práticas de controle interno que têm sustentado seu governo desde a morte de seu antecessor e mentor, Hugo Chávez (1999-2013).
Segundo reportagem do jornal Financial Times, esses colectivos, armados com pistolas e cassetetes, realizam interrogatórios informais, vasculham celulares e controlam a distribuição de serviços básicos nos bairros.
— Eles observam tudo e, se veem alguém desconhecido na comunidade, param a pessoa e fazem perguntas — disse ao jornal Financial Times um morador do bairro 23 de Enero, área degradada que já apoiou o governo chavista. — À noite, membros de colectivos às vezes patrulham os telhados armados, de vigia. O melhor é não falar de política, continuar trabalhando e não dar motivos para suspeitas.
O regime de Maduro também expandiu mecanismos de denúncia por meio de um aplicativo que incentiva cidadãos a reportarem vizinhos que considerem suspeitos, como revelou a rede americana CNN. Analistas afirmam que recompensas em dinheiro estimulam as delações em busca de benefícios ou demonstrações de lealdade ao governo.
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O software gratuito, chamado VenApp, foi lançado em dezembro de 2022 para relatar incidentes relacionados a serviços públicos no país, como falta de energia e de água e emergências médicas. No entanto, sua utilidade já havia sido deturpada logo após as eleições de 2024, quando Maduro pediu aos venezuelanos que utilizassem o aplicativo para “fornecer confidencialmente informações sobre os delinquentes que ameaçaram e atacaram o povo”, em referência aos manifestantes que se mobilizaram contra a sua reeleição em protestos que terminaram com alguns mortos e centenas de feridos.
Segundo a emissora, a adaptação do software foi realizada em uma semana a pedido de Maduro, que teria convidado as Forças Armadas para supervisionar a criação de um novo aplicativo, “para que as pessoas possam relatar com segurança tudo o que ouvem, tudo o que leem”.
— Eu nunca sonharia em baixá-lo. É assustador que agora exista um aplicativo para os cidadãos denunciarem uns aos outros — disse uma apoiadora da oposição à CNN, falando sob condição de anonimato. — Além disso, como podemos saber se o aplicativo não está nos espionando?
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A polêmica intervenção de Maduro no app em 2024 levou a Apple e o Google a removerem o VenApp de suas lojas de aplicativos. Mas, mesmo que não pudesse mais ser baixado, o aplicativo nunca deixou de funcionar. Quem já tinha o VenApp instalado antes de agosto de 2024 pode acessá-lo nos seus smartphones, e o governo também criou e patrocinou uma versão móvel que funciona em navegadores, diz a CNN, que teve acesso ao software em Caracas.
Segundo o diretor do centro de pesquisas Laboratorio de Paz, Rafael Uzcátegui, o governo Maduro está oferecendo dinheiro para obter informações de suspeitos por deslealdade.
— Se você é alguém que em algum momento criticou o governo e agora quer ganhar sua confiança, uma maneira de fazer isso é fornecendo informações sobre outras pessoas — disse ele ao FT. — Este é um momento de incerteza para todos.
Diante da repressão intensificada, organizações de direitos humanos já registraram crescimento no número de presos políticos, que chegou a 875, enquanto relatos de moradores apontam vigilância constante.
— Sob o pretexto de “defender a soberania”, Maduro deu novo ímpeto à militarização total do país — afirmou ao FT Oscar Murillo, coordenador do grupo de direitos humanos Provea. — Maduro intensificou a repressão, a perseguição à dissidência política e aprimorou seus mecanismos de controle social.
As medidas do governo chavista refletem a crescente tensão entre Venezuela e Estados Unidos após Trump também confirmar ter autorizado a CIA a realizar operações secretas no país, além de estar analisando as opções para uma ação militar por terra.
Maduro, por sua vez, teme que a presença militar americana na região e as ameaças cada vez mais diretas estimulem novos movimentos internos de oposição. Especialistas militares, porém, acreditam que o uso das Forças Armadas para repressão interna pode reduzir a capacidade de defesa externa da Venezuela.
Nesta quinta-feira, dois bombardeiros B-52 sobrevoaram a costa venezuelana, segundo dados de rastreamento de voos, na quarta demonstração de força da aviação militar dos EUA nas últimas semanas. Os Estados Unidos também ordenaram que o grupo de ataque do porta-aviões USS Gerald R. Ford se dirigisse para a América Latina, enviaram caças F-35 para Porto Rico e atualmente têm oito navios da Marinha no Caribe como parte do que chamam de esforços de combate ao narcotráfico.
Apesar do aparato militar e das ameaças, segundo o jornal americano Wall Street Journal, Trump ainda não decidiu se o objetivo de Washington deve ser a derrubada de Maduro ou apenas a obtenção de concessões políticas e econômicas do líder venezuelano.
As opções apresentadas ao presidente, segundo o The New York Times, variam desde o endurecimento de sanções e tarifas sobre o petróleo venezuelano até uma campanha de ataques aéreos contra instalações do Exército e do governo dentro do território. O Departamento de Justiça dos EUA, segundo o WSJ, trabalha em uma justificativa legal que permitiria incluir Maduro como alvo de uma operação militar.
Embora tenha classificado o presidente venezuelano como “narcoterrorista” e oferecido uma recompensa de US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões, na cotação atual) por sua captura, Trump mantém receio de se envolver diretamente em uma mudança de regime — especialmente após a frustrada tentativa de apoiar a oposição venezuelana durante seu primeiro mandato, segundo ex-funcionários do governo ouvidos pelo WSJ.
Por ora, Trump estaria satisfeito em aumentar gradualmente a presença militar americana na região, mantendo a ofensiva contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas. O último ataque aconteceu na terça-feira, quando a Marinha dos EUA destruiu uma embarcação no Pacífico Oriental, matando dois tripulantes.
Com agências internacionais.

