A Tailândia afirmou ter usado caças F-16 para bombardear alvos estratégicos no Camboja nesta segunda-feira, em retaliação a disparos que mataram pelo menos um soldado tailandês e deixaram oito feridos. O governo cambojano, por sua vez, confirmou quatro civis mortos e 10 feridos. A nova escalada militar, a mais grave desde julho, provocou a fuga de mais de 30 mil moradores da fronteira entre os países. Os confrontos puseram à prova um acordo de paz inicialmente intermediado pelo primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, em julho, e assinado na presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em outubro.
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Cada lado acusou o outro de ter atirado primeiro, tal como tinham feito em julho, quando um conflito que durou cinco dias matou mais de 40 pessoas e deslocou quase 300 mil civis. Agora, mais uma vez famílias inteiras fogem às pressas de vilarejos próximos a áreas disputadas, muitas levando apenas o que puderam carregar. Autoridades estimam que mais 385 mil cambojanos receberam ordens de deixar áreas próximas à fronteira.
— O vilarejo nos pediu para sair e, com o que aconteceu em julho, obedeci imediatamente — disse a tailandesa Tannarat Woratham, de 59 anos, que deixou sua casa a poucos quilômetros da fronteira. — Muitos pensaram que o conflito havia terminado. Não deveria ter acontecido novamente.
A violência levou ao fechamento de três hospitais na província tailandesa de Ubon Ratchathani, localizada perto da fronteira com o Camboja, que agora opera apenas com instalações ambulatoriais temporárias para atender ao grande fluxo de deslocados.
Anwar Ibrahim, que ajudou a intermediar o cessar-fogo inicial, instou a Tailândia e o Camboja a evitarem uma escalada do conflito, alertando que os combates corriam o risco de “desfazer o trabalho cuidadoso que foi feito para estabilizar as relações entre os dois vizinhos”.
— Instamos ambas as partes a exercerem máxima contenção — afirmou o premier. — Os combates correm o risco de desfazer o trabalho cuidadoso feito para estabilizar as relações entre os dois vizinhos.
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Já o primeiro-ministro tailandês, Anutin Charnvirakul, emitiu um comunicado confirmando o “máximo compromisso do país em defender a soberania nacional e a integridade territorial, em conformidade com o direito internacional e o legítimo direito de autodefesa”. Fazendo coro com as declarações oficiais do Camboja, o premier insistiu que seu país “não iniciou nem realizou qualquer agressão”.
“A Tailândia, no entanto, não tolerará qualquer violação de sua soberania, e [o governo] está preparado para tomar todas as medidas necessárias para proteger a segurança nacional e cuidar do povo da melhor maneira possível”, disse.
A Tailândia reconheceu ter usado caças F-16 para bombardear alvos cambojanos em retaliação a disparos de Phnom Penh. O Camboja, por outro lado, afirma que foi atacado primeiro, e acusações mútuas incluem uso de tanques, emprego de gás tóxico, lançamento de morteiros e foguetes BM-21 e artilharia contra áreas civis.
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Os ataques aéreos tailandeses atingiram, segundo a rede britânica BBC, um complexo de cassinos em território cambojano, que Bangcoc afirma abrigar operações com drones.
A tensão remonta a mais de um século. Os vizinhos compartilham uma fronteira de quase 800 quilômetros de extensão, mas grandes partes dela não estão definidas, com regiões onde se localizam templos do século XI, como o Preah Vihear — declarado Patrimônio Mundial pela Unesco em 2008, o que acirrou disputas.
Essa escalada mais recente no conflito começou em maio, após a morte de um soldado cambojano em um confronto na fronteira. Tailândia e Camboja adotaram políticas antagônicas, incluindo proibições de importação e restrições de viagem.
O conflito também trouxe sérias implicações políticas à época. Um telefonema vazado entre a então primeira-ministra da Tailândia, Paetongtarn Shinawatra, e o ex-primeiro-ministro do Camboja Hun Sen, no qual ela se mostrou deferente a ele em meio à escalada das tensões, provocou uma forte reação negativa na Tailândia e acabou levando à sua renúncia.
(Com AFP e The New York Times)
