Marina Ruy Barbosa vive um momento especial em sua carreira. A atriz carioca de 31 anos é uma das estrelas de “Antártida”, nova superprodução do Núcleo de Filmes dos Estúdios Globo com direção de Bruno Safadi que abre na sexta-feira (14) a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado.
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Em “Antártida”, Marina interpreta Inês, uma cientista que chega para uma temporada na estação brasileira de pesquisas na Antártida. Em sua primeira noite no local, ela é vítima de uma violência sexual, o que transforma todos os homens da estação em suspeitos. A subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) assume a responsabilidade de tentar solucionar o crime e precisará enfrentar um sistema machista que fará de tudo para descredibilizar a vítima e as demais mulheres no local.
Antes de passar pelo badalado tapete vermelho da Serra Gaúcha, a atriz conversou com O GLOBO sobre o projeto e sobre o momento profissional. Além de “Antártida”, Marina se destacou recentemente na pele de Suzane von Richthofen na série de sucesso “Tremembé”, do Amazon Prime Video. Ela, que também é produtora da série, está confirmada na segunda temporada.
Você pode falar um pouco sobre como este projeto chegou até você e o que te interessou em contar essa história?
Acho que o que mais me encantou em “Antártida” foi justamente o fato de ser um filme que transita por diferentes camadas. À primeira vista, ele parece um thriller ambientado em um lugar extremo e fascinante, mas, no fundo, é uma história sobre pessoas, sobre trauma, culpa, silêncio e sobrevivência.
A Inês me conquistou porque ela não é definida pelo que acontece com ela. É uma mulher extremamente inteligente, curiosa, apaixonada pelo que faz, e acompanhar a forma como ela tenta preservar a própria identidade depois de uma experiência tão brutal foi um desafio muito bonito como atriz. Gosto de personagens que me obrigam a olhar para lugares desconfortáveis e me fazem sair diferente do processo.
O filme trata de temas sérios, como o machismo e a violência contra a mulher. Como foi abordar esses temas e construir essa personagem?
Foi um processo que exigiu muito respeito e muita responsabilidade. Em nenhum momento quisemos transformar a violência em espetáculo. O foco sempre foi entender as consequências que ela deixa, muitas vezes silenciosas e outras impossíveis de não deixar transbordar, na forma como uma mulher ocupa o mundo, olha para as pessoas e para si mesma…
A Inês não é construída a partir da violência que sofre, mas da maneira como tenta continuar existindo apesar dela. Isso foi muito importante para mim. Como atriz, me interessava muito mais investigar os pequenos deslocamentos da personagem, aquilo que muda no corpo, no olhar e nas relações, do que buscar grandes demonstrações emocionais. Acho que essa delicadeza torna tudo ainda mais humano.
Durante os meses de gravação eu como pessoa fiquei arisca, desconfiada, é difícil mergulhar tão fundo em uma personagem tão complexa e não se manter focada e imersa nesse lugar de desconforto.
Leandra Leal, Andréa Beltrão e Marina Ruy Barbosa em cena de “Antártida”
Divulgação / TV Globo
Quais as expectativas de apresentar o filme em Gramado?
Gramado tem uma história muito importante para o cinema brasileiro e é um festival que aproxima o filme do público de uma maneira muito especial. E ter o nosso filme “Antártida” abrindo um festival tão importante é muito lindo. É um projeto que mobilizou muita gente talentosa e que foi feito com enorme dedicação. Estou curiosa para viver esse primeiro encontro com a plateia, porque é quando o filme finalmente deixa de ser nosso e passa a pertencer ao público.
O filme traz essa grande novidade que foram as filmagens no estúdio de realidade virtual da Globo. Como foi a experiência?
Foi completamente nova para mim. A tecnologia impressiona porque ela deixa de ser um recurso técnico e passa a influenciar diretamente a interpretação. Você realmente passa a acreditar naquele ambiente.
A sensação é de que o cenário reage a você em tempo real. Isso muda a relação com o espaço, com a câmera e até com o outro ator. É uma ferramenta muito sofisticada, mas que continua existindo para servir à narrativa e à atuação, que, no fim, continuam sendo o centro de tudo.
Marina Ruy Barbosa durante as filmagens de “Antártida”
Divulgação / Fabio Rocha / TV Globo
Dava para se sentir na Antártida?
A imersão era muito grande. Obviamente, não estávamos enfrentando as temperaturas reais da Antártida, mas toda a construção visual, a luz, o desenho de produção, o figurino e a atmosfera faziam com que a gente entrasse naquele estado muito rapidamente.
Como atriz, você completa o restante com imaginação e preparação. Depois de alguns minutos, você praticamente esquece que está dentro de um estúdio. Isso é o mais impressionante.
Como atriz, como você enxerga as possibilidades desse estúdio?
Eu acho que abre possibilidades enormes para o audiovisual brasileiro. Não apenas porque permite criar universos que antes eram muito difíceis de produzir, mas porque amplia o tipo de histórias que podemos contar.
O mais importante é que essa tecnologia não substitui a interpretação, ela potencializa a experiência. Quando ela está a serviço da narrativa, ela amplia a imersão do público sem tirar a verdade da atuação. Acho que esse é o equilíbrio mais interessante.
“Tremembé” foi um grande sucesso com o público. Agora você está em “Antártida”, um filme com grande expectativa e grande elenco. Como tem sido este momento na sua carreira como atriz?
Acho que estou vivendo um dos momentos mais interessantes da minha carreira. Depois de 22 anos trabalhando como atriz e nessa fase dos 30 anos, sinto que conquistei uma liberdade muito valiosa: a de fazer escolhas guiadas pela inquietação artística, e não pela expectativa que as pessoas têm sobre mim.
Sempre tive vontade de me reinventar, de surpreender e de correr atrás de personagens que me desafiem de verdade. Hoje posso buscar projetos que me tirem da zona de conforto, que exijam uma transformação profunda e me façam crescer como artista. Isso tem sido muito estimulante.
Marina Ruy Barbosa como Suzane von Richthofen em ‘Tremembé’
Divulgação
“Tremembé” foi um desses encontros. Foi uma personagem extremamente complexa, que me levou para lugares muito difíceis e que teve uma repercussão enorme. E ainda tenho orgulho de ter acredito no projeto e ser produtora associada.
Agora, “Antártida” representa um desafio completamente diferente, tanto pela linguagem cinematográfica quanto pela construção da Inês, uma personagem que diferente da que interpretei na série, ao invés de manipuladora e calculista, mais fria, ela transborda. É um trabalho feito nos detalhes.
Tenho cada vez menos interesse em repetir fórmulas. O que me move é justamente a possibilidade de experimentar, de trabalhar com diretores que admiro, de me cercar de equipes talentosas e de continuar aprendendo. Acho que essa vontade permanente de evoluir é o que mantém uma atriz viva ao longo do tempo.

