O documentarista fancês Nicolas Philibert já filmou o cotidiano de instituições psiquiátricas, zoológicos, escolas de enfermagem, grandes empresas, redações de rádio e do Museu do Louvre. Diferentemente do que pode parecer, o cineasta, que terá sua filmografia exibida na Caixa Cultural Rio de Janeiro a partir desta terça (9), não vive correndo atrás de novos temas.
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— São os temas que chegam até mim — diz o documentarista de 74 anos, em entrevista ao GLOBO num banco do jardim histórico do Palácio do Catete. — Não acredito em temas bons ou ruins. Grandes filmes podem ser feitos sobre os assuntos mais banais ou anódinos. De repente, posso ser agarrado por algo. E aí sinto vontade de ir lá ver.
Foi o que aconteceu com o seu “No Adamant”, que abre, às 17h desta terça, a mostra com 14 filmes do diretor. Premiado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2023, o longa acompanha a rotina do Adamant, um centro psiquiátrico num barco fixo ancorado às margens do Rio Sena, no coração de Paris.
O espaço acolhe adultos com transtornos mentais e os ajuda a se reconectarem com o mundo ao adotar uma lógica antimanicomial, quase como um centro cultural. Conhecido por seu olhar delicado e empático sobre as instituições, Philibert mostra no filme um tipo de cuidado psiquiátrico que rompe com fórmulas duvidosas.
— O espaço em si do Adamant já é excepcional — diz Philibert. — As pessoas passam, veem, às vezes batem à porta e só então descobrem que se trata de um centro psiquiátrico. Isso é raro, porque em geral não se quer mostrar essas pessoas, que permanecem invisíveis.
Durante as filmagens, o diretor percebeu que o assunto merecia um prolongamento. “Averroès & Rosa Parks”, de 2024, volta-se para os bastidores de uma unidade mais rígida do Adamant, que acolhe pacientes mais vulneráveis e os ajuda a reabilitar suas falas.
Fechando o tríptico sobre o mundo da psiquiatria, “A máquina de escrever e outros aborrecimentos” faz um recorte ainda mais específico: o trabalho dos cuidadores que ajudam os pacientes em afazeres cotidianos, incluindo o conserto de eletrodomésticos. Para muitos deles, esses aparelhos são o último elo com o mundo. A vida de um deles desaba quando sua máquina de escrever quebra, impedindo-o de escrever seus poemas diários.
— No fundo, esses três filmes contam como ainda existe, num contexto devastado e frágil, uma certa psiquiatria digna, humana, que tenta ajudar cada um a retomar um vínculo com a sociedade — diz o diretor, que participa de um bate-papo com o público após a sessão de “No Adamant”.
Philibert dará uma masterclass no dia 13, às 14h, quando falará sobre seu processo criativo e seus métodos de trabalho. Ele adianta que não adota uma preparação específica para filmar em instituições psiquiátricas.
— É preciso tato, delicadeza, mas, no fundo, é o mesmo para todos. Não filmo de modo diferente um paciente em psiquiatria e um cuidador: são homens e mulheres, e é meu dever filmá-los com respeito — diz o diretor.
O cineasta compara sua postura com a política do próprio Adamant:
— Ali os pacientes são considerados pessoas antes de serem rotulados por seus sintomas. Algo que, por sinal, é cada vez menos comum na psiquiatria e na área da saúde. Hoje, muitos profissionais abandonam a psiquiatria por não encontrarem mais sentido no que fazem. São substituídos por interinos, que ficam duas semanas e vão embora. Isso destrói a relação, o vínculo, a escuta. E é justamente essa relação que está ameaçada, como tudo no mundo em que vivemos.
Ao longo de sua carreira, o diretor francês se especializou em filmar o funcionamento de instituições. O que lhe interessa, contudo, não são os mecanismos e engrenagens desses ambientes, mas a sua capacidade de reunir pessoas que têm algo a ver umas com as outras. “Ser e ter” (2002), por exemplo, revela a relação de confiança entre um professor e seus alunos em uma escola pública. “De cada instante” (2018) transforma a formação humana e o aprendizado técnico de jovens enfermeiros em um espelho aumentado de nossos desafios e contradições.
“A estação de rádio” (2012) mergulha no trabalho da Radio France, um conjunto das rádios públicas capaz de abrigar diferentes vozes e ideias. “A cidade Louvre” (1990) acompanha o rearranjo do mais famoso museu da França durante uma reforma, com olhar atento nos funcionários responsáveis pela tarefa.
— O que me interessa é o coletivo — diz Philibert. — Não diria comunidades, porque comunidades reúnem pessoas com os mesmos interesses. Para mim, o interessante é o que esses grupos podem ter de heterogêneo e como conseguem coabitar nessas diferenças.
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Como boa parte dos grupos que gosta de filmar, a câmera de Philibert trabalha sem pressa e foge das fórmulas prontas. Os projetos do diretor se iniciam com mais perguntas do que respostas — e frequentemente acabam com mais questionamentos ainda. Ele se recusa a reduzir seus filmes a slogans, entrando em choque com certas expectativas do mercado.
— As televisões, por exemplo, gostam de saber logo: qual é a mensagem do filme? O que você quer demonstrar — conta ele. — Todos querem que a proposta do filme se explique em três linhas, mas comigo não é assim.
Enquanto outros cineastas fazem filmes para denunciar, Philibert diz que prefere “enunciar”:
— Quero mostrar que existem, aqui e ali, focos de resistência: gente que tenta manter uma rádio digna, uma psiquiatria humana, uma escola atenta. Eu preciso me agarrar a esses focos para continuar, porque o mundo é sombrio, desolador, corre para a ruína. Então me apego a essas pequenas resistências que me dão coragem.