Sempre quis ser atriz. Nunca me passou pela cabeça as profissões clássicas que toda criança sonha: veterinária, professora, médica ou astronauta. Passei a adolescência inteira achando que, se não conseguisse ser atriz, seria um ser humano frustrado. Como se a vida fosse uma prova objetiva e não de múltipla escolha.
Encarar frustrações na infância e na adolescência é algo quase pedagógico: ajuda a gente a repensar e amadurecer. É claro que na hora parece que o mundo vai acabar. Mas depois a gente descobre que é só um trampolim pra tantas outras coisas, ainda melhores, que virão.
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Já transformei frustrações em decisões que melhoraram a minha vida e algumas grandes, daquelas que a gente demora pra aceitar, transformei em resiliência. Que é uma das palavras mais importantes pra se viver melhor. Aprendi desde cedo que tem horas que a gente tem que apenas aceitar. E acreditar que em algum momento a gente entende o porquê. Às vezes não entende não. O mundo é bem injusto. Eu demorei a acreditar que Deus escreve certo por linhas tortas. Mas de vez em quando a vida presta.
O grande desafio é lidar com as frustrações ao longo do tempo. Porque uma coisa é se frustrar quando nossa maior preocupação é sumir com aquela espinha da testa. Outra coisa é se frustrar depois de estabelecida, sem tanto tempo para grandes viradas, tendo que cuidar dos outros, muitas vezes sozinha ou sobrecarregada, e ainda carregando os traumas de uma vida inteira. Aí não cabe mais ser vítima. Nem colocar culpa em ninguém. Até porque qualquer adulto funcional, com acesso a terapia, sabe que nós somos responsáveis pelos nossos atos e que a gente já tem material suficiente pra entender que agora é com a gente mesmo.
Artistas transformam frustrações em textos, músicas, filmes e pinturas. Van Gogh pintou suas angústias durante toda a sua vida e nem estava aqui pra ver o sucesso das próprias obras. Frida Kahlo traduziu suas lutas internas em autorretratos e transformou frustração em poesia. Eu decidi lidar com humor. Depois de dar uma chorada (é claro!) e desabafar com pobres coitados que são obrigados a me ouvir falar do mesmo assunto repetidamente até acabar rindo de mim mesma.
Mas nem todo mundo consegue fazer alguma coisa boa e bonita com aquilo que não deu certo. Tem gente que se vinga, que desconta em outra pessoa, que fica cruel, que se autocastiga. Já vi pessoas maravilhosas se transformarem por causa de frustrações e virarem pessoas ressentidas. Aquela pessoa que olha pra vida alheia e pensa: “faria melhor”. Faria melhor a peça, o livro, o quadro e o filme. Mas nunca fez. Temos um exemplo bem claro no nosso país: um ator frustrado virou político e resolveu perseguir artistas em vez de focar no próprio trabalho. E, nesse caso, até o karma encheu o saco e reagiu.
No dicionário, frustração significa “a distância dolorosa entre o que você deseja e a realidade”. E talvez viver nada mais seja do que escolher o que vamos fazer com essa distância. Alguns constroem pontes. Outros cavam os próprios buracos. Alguns descobrem desejos novos, que nunca tinham imaginado, e que acabam curando antigas frustrações. Outros passam a vida toda tentando provar que o mundo errou com eles.
Meu sonho de criança se realizou. Virei atriz. Mas junto com ele vieram outras frustrações que eu não tinha previsto. E também grandes vitórias que eu nunca tinha sonhado. Talvez frustração seja só o nosso desejo de tentar comandar a vida. Ou de, apesar de saber que Deus escreve certo, insistir só nas linhas tortas.

