Em março de 2020, o diretor Paul Schrader foi obrigado a interromper as filmagens de “O contador de cartas” (2021) alguns dias antes da conclusão dos trabalhos porque o teste de Covid de um dos atores tinha dado positivo. Pouco mais de dois anos depois, ele foi hospitalizado por causa de uma pneumonia relacionada ao vírus. A ideia de que o espectro da morte o rondava ficou mais palpável com a perda do escritor Russell Banks (1940-2023), de quem se tornara amigo desde “Temporada de caça” (1997), adaptação do livro “Affliction”, que rendeu um Oscar a James Coburn.
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A morte de Banks, com quem compartilhava a afinidade por histórias envolvendo homens emocionalmente destruídos, confrontados com o peso de suas ações, inspirou Schrader a fazer “Oh, Canadá”, versão para as telas de “Foregone”, penúltimo livro do escritor. O filme, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (5) e é uma das grandes estreias da semana, é estruturado em torno de uma entrevista final, em tom confessional, dada por um documentarista moribundo, na qual repassa sua vida privada e trajetória profissional. Para o lendário cineasta americano, autor do roteiro de clássicos como “Taxi driver” (1976) e “O touro indomável” (1980), ambos de Martin Scorsese, chegara a hora de refletir sobre o inevitável.
— Eu costumava visitar Banks e sua esposa, Chase, todos os verões, na casa que eles tinham em Keene Valley, no estado de Nova York. No verão de 2022, liguei para ele, que me avisou: “Você pode vir, mas estou com câncer e vou fazer quimioterapia.” Sabia que ele tinha escrito um livro de ficção anos antes sobre um personagem assombrado pela constante ameaça da morte. Banks dizia que era sua eulogia. Achei melhor ler o livro, me identifiquei com muitas situações e resolvi transformá-lo em filme. O fiz para ele e para mim, então se tornou minha eulogia também — contou o veterano realizador de 78 anos.
O filme gira em torno de Leonard Fife, premiado e controverso documentarista que, fragilizado por um câncer terminal, decide desfazer alguns mitos sobre sua vida diante de uma câmera. Em depoimento registrado por dois de seus pupilos, ele refaz algumas etapas de sua existência a partir da tumultuada juventude, quando, determinado a escapar do alistamento obrigatório para juntar-se ao Exército americano na Guerra do Vietnã, decide fugir para o país vizinho, o Canadá, onde virá a construir carreira e família. O protagonista é interpretado por Richard Gere, com quem Schrader havia trabalhado em “Gigolô americano” (1980), que transformou o ator em um sex symbol instantâneo.
— Naquela época, Paul havia me mostrado filmes com Alain Delon, como “O Sol por testemunha” (1960), para ajudar a compor o personagem. Desta vez tudo foi completamente diferente. Paul me mostrou muitas fotos e vídeos de Banks durante o tratamento. Também me projetei muito no meu pai, que morreu alguns meses antes de Paul me oferecer este projeto — lembrou Gere. — Meu pai, que morava comigo, morreu poucas semanas antes de completar 101 anos. Ele estava claramente em seus últimos dias, com sua mente entrando e saindo de diferentes níveis de consciência. Acho que foi por isso que me identifiquei com o roteiro, e queria capturar esse estado em filme.
Frágil, preso a uma cadeira de rodas e enfrentando incômodas dores, Leonard Fife recebe os jovens documentaristas em sua casa confortável. Ele conta suas histórias à câmera, mas mantém seu olhar diretamente para a esposa, Emma, interpretada por Uma Thurman, que está imediatamente atrás da equipe. É como se Leonard estivesse confessando coisas que talvez Emma ainda não soubesse sobre seus dois casamentos anteriores, com quem teve seus dois filhos americanos, e estivesse pedindo desculpas por seus erros do passado, antes de conhecê-la. Às vezes, Emma prefere acreditar que o marido esteja sob o efeito dos analgésicos.
— É um retrato de um casamento muito interessante, curioso, que você não costuma ver todos os dias em dramas para cinema ou televisão. Estão ali duas pessoas com um vínculo emocional e intelectual enorme, passando por um momento difícil de imaginar, que é ver o parceiro desaparecendo. A mente dele desintegrando diante de seus olhos. É uma situação dolorosa — observou a musa de Quentin Tarantino, conhecida por filmes como “Pulp fiction” e “Kill Bill”. — Leonard parece carregar um fardo vergonhoso, como se fosse culpado de grandes pecados sem que, às vezes, mereçam ser punidos.
Uma Thurman diz que muitas coisas podem contribuir para “esse sentimento de inadequação do ser humano, essa noção de vergonha, como a religião”. O próprio Schrader admite ter visto no livro de Russell certo exagero no comportamento do personagem, como se dissesse “eu fui tão mau que você não vai acreditar”. Mas algumas pessoas podem não entender como um grande problema, e então ele se viu em busca de algo mais obscuro e condenável no passado de Leonard.
Gere diz que “a noção de culpa no personagem tinha que ser mais profunda e compreensível, e foi por isso que Schrader inventou o momento em que o personagem renega o filho”.
— Eu precisava de algo de proporções bíblicas — diz o diretor, que também explora a questão moral por trás da atitude do jovem Leonard (interpretado por Jacob Elordi), que fingiu ser gay para escapar da convocação para a Guerra do Vietnã. — Houve um período de dois, três anos em que todos os jovens americanos tiveram que tomar uma decisão, antes de aquilo se tornar uma anomalia. Eu fui dispensado por motivos físicos, mas meu melhor amigo na época foi parar em Amsterdã, onde virou comandante. Oliver Stone, por outro lado, foi para o Vietnã e acabou ganhando o Oscar (com “Platoon”, de 1986, e “Nascido em 4 julho”, de 1989, sobre o conflito). Cada um tomou uma resolução, e isso é uma das pedras fundamentais do romance e do filme.
