A Polícia Federal recuperou mensagens, imagens e arquivos dos celulares de cinco alvos suspeitos de integrarem um grupo de pistolagem e espionagem que monitorava autoridades, como parlamentares e ministros de Cortes superiores. As conversas dos integrantes do autointitulado “Comando C4”, em referência a “Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos”, mostram elogios ao desempenho de colegas nas execuções — “frio e calculista” —, citam missões com a “tocaia em andamento” e troca de informações entre militares da reserva e Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs).
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Em relatório entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF explicou o uso de expressões corriqueiras no ambiente militar: “REC feito significa que já foi feito um reconhecimento do local”, e “lugar ácido comumente indica lugar perigoso ou de alto risco”.
No celular do instrutor de tiro Hedilerson Barbosa, um dos alvos de prisão preventiva, os agentes se depararam com uma série de fotos de vítimas de assassinatos. “Chamou atenção, ainda, a quantidade de imagens de pessoas mortas, aparentemente vítimas de homicídio, que estavam armazenadas no aparelho celular de HEDILERSON, algo totalmente incomum e deveras estranho, pois qualquer cidadão com o mínimo de bom senso não armazenaria imagens de pessoas mortas em seu aparelho”, anotou a PF. Não há indícios que apontam Barbosa como o autor dos tais assassinatos. Procurada, a defesa dele não se pronunciou.
Os investigadores também deram mais detalhes sobre a tabela encontrada com o coronel Etevaldo Caçadini, outro alvo da operação e suposto integrante do Comando C4. Segundo a PF, o documento indicava o planejamento para as “missões. As mensagens mostram o grupo discutindo qual seria o logotipo usado — a escolha foi uma caveira ressaltando que os alvos eram “corruptos e criminosos”.
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“Locação de aparelhos” significaria o arranjo de locais onde as supostas missões seriam tramadas. “No que diz respeito ao setor de ‘MATERIAL/EQUIPAMENTO’, nos causa espanto o tipo de armamento que é citado, com destaque para o emprego de silenciadores, tantos nas pistolas quanto nos fuzis, bem como a menção a armamentos de uso exclusivo militar, a exemplo do Lança Rojão e das Minas Magnéticas”, diz a representação da PF.
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O relatório cita ainda o recrutamento de um “desenvolvedor de sistemas de tecnologia da informação”. Segundo a PF, é uma “função de elevado interesse para a organização criminosa”.
Conforme a PF, o grupo foi responsável pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri em 5 de dezembro de 2023, em Cuiabá. Ele era figura central de um suposto esquema de negociação de sentenças judiciais que envolvia integrantes do Poder Judiciário do Mato Grosso, Tocantins e do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Na visão dos investigadores, Zampieri se enquadrava na classificação de “corrupto” que o grupo buscava “caçar”.
De acordo com relatório da PF, é provável que os membros do grupo “já estavam monitorando mais uma vítima” e apontam uma morte suspeita ocorrida em 25 de fevereiro deste ano. O especialista em tecnologia da informação Halcke Sampaio morreu após cair de um prédio de quatro metros em Cuiabá. Segundo o boletim de ocorrência, antes de morrer, ele aparentava estar em surto e dizia que estava sendo perseguido.
Halcke foi um dos primeiros suspeitos a serem presos pelo assassinato de Zampieri, mas foi liberado depois que a Polícia Civil identificou o real atirador, Antônio Gomes da Silva, que confessou o crime. Preso desde o início de 2024, ele também seria integrante do grupo de pistolagem. Os integrantes do grupo se referem a Silva como “máquina bruta de matar” e “frio e calculista”. O nome “Hacke” aparece nas anotações da agenda do coronel Etevaldo Caçadini apreendida pela PF.
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Além dele, também há menção no caderno ao ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que é associado a uma data 24 de abril de 2023, horário “9h30” e a inscrição “vg armada” (vigilância armada) com valores ao lado de R$ 32 mil e R$ 35 mil. Naquela data, Pacheco estava retornando a Brasília para discutir a instalação da CPMI dos atos de 8 de janeiro.
A PF não esclareceu se uma ação contra Pacheco estava em andamento, mas pediu ao ministro do STF Cristiano Zanin, relator do caso, os mandados de prisão e buscas para que a investigação fosse aprofundada. A solicitação foi deferida pelo magistrado.
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A defesa de Caçadini negou que ele tenha relação com o assassinato de Zampieri ou fizesse parte do grupo de extermínio. Também “ressaltou” que não foi encontrado “qualquer elemento ilícito” com ele. No processo, os advogados ainda indicaram um perito independente para analisar a autenticidade das mídias apreendidas. A defesa de Silva disse que vai se manifestar após ter acesso aos autos.
Em uma audiência na Justiça, o coronel Etevaldo Caçadini contou sobre a sua trajetória de 30 anos no Exército em que se especializou nas áreas de inteligência e Operações Especiais. Disse que participou de confrontos na região de fronteira contra membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs), onde teria recebido ordens para “eliminar” os inimigos. Ele, no entanto, ressaltou que nunca cometeu nenhum ato criminoso. Preso desde o início do ano passado pela morte do advogado, o militar afirmou que está com câncer e negou todos os crimes imputados a ele.
Em outro depoimento dado à Polícia Civil do Mato Grosso, Caçadini explicou que fundou um grupo chamado de “Frente Ampla Patriótica” em 2023 para, segundo as suas palavras, “unir os grupos patriotas e conservadores do Brasil”. A ideia dele era “reagrupar” as pessoas que estavam indignadas com as consequências dos atos de 8 de janeiro e com o que classificou como “síndrome de avestruz” por parte das Forças Armadas – “enfia a cabeça na terra e fica sem defesa ante as atrocidades que estava acontecendo no Brasil”, criticou ele.
O instrutor de tiro Hedilerson Barbosa, preso junto com o militar, seria o editor e assessor de tecnologia do grupo Frente Ampla Patriótica, que abriu filiais pelo Brasil.
Responsável pela investigação sobre a morte do advogado, o delegado da Polícia Civil Nilson Farias afirmou ao GLOBO que encaminhou a investigação à PF depois que percebeu “atos extremistas e revolucionários” por trás do grupo de assassinato.
Conforme as investigações da Polícia Civil e Polícia Federal, o assassinato de Zampieri teria sido encomendado ao Comando C4 por um fazendeiro, que disputava a propriedade de fazendas milionárias com a vítima. O pecuarista fazia parte do grupo “Frente Ampla Patriótica” e mantinha contato frequente com o coronel Caçadini. Segundo o militar, os dois se falavam todo dia sobre questões de “política”.
