O avanço da inteligência artificial tem levado empresas de tecnologia focadas em acessibilidade a entrarem em uma nova fase de investimentos, com o desenvolvimento de novas ferramentas para competir com aplicativos como ChatGPT e DeepSeek, que são capazes de transcrever textos e gerar imagens.
A busca por soluções para quem tem algum tipo de deficiência física ou intelectual tem levado ainda gigantes do setor a ampliarem sua gama de serviços integrados entre software e hardware.
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Além da causa justa, o esforço também tem motivação financeira. Dados da consultoria Grand View Research apontam que o mercado global de software de acessibilidade digital, que foi de US$ 721,1 milhões em 2023, deve atingir US$ 1,3 bilhão até 2030, com uma taxa média de crescimento anual de 9,2%.
O Brasil, onde 23,9% da população tem alguma deficiência, segundo dados do IBGE, representa entre 7% e 10% do mercado global.
De olho nesse crescimento, a empresa brasileira Audima, fundada em 2017, começou especializada na leitura de textos em celulares e computadores para pessoas com restrição de visão. Com a chegada de aplicativos como o ChatGPT, precisou se reinventar para continuar crescendo.
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Passou a desenvolver novos recursos como tradução em Libras, descrição automática de imagens, contraste inteligente e resumos com inteligência artificial.
— Chegamos a um momento em que o consumidor e as empresas não querem ter soluções de diversas empresas, e sim uma solução em apenas um local. Então, é uma pessoa entrar em um site ou aplicativo do banco e de um e-commerce e saber que dentro desse ambiente ela poderá ter suas necessidades atendidas, independentemente da restrição de visão, da fala ou da idade — explica Luiz Pedroza, CEO da Audima.
Para isso, a companhia vem investindo no chamado “agente de acessibilidade”, que permite que sites e aplicativos de qualquer empresa alterem seu layout a partir de comandos de voz e texto, modificando o tamanho das letras, gerando novos contrastes de cores e lendo em voz alta as principais informações da tela.
Há ainda comandos como resumo em Libras, a linguagem de sinais para pessoas com deficiência auditiva. Um dos desafios centrais dessa nova fase é criar, por exemplo, uma voz natural, atesta Pedroza.
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— O foco é ter uma experiência humanizada. Embora o áudio seja o recurso mais democrático, é cada vez mais importante que a voz se pareça com a de um humano, de forma a criar uma experiência mais natural. Notamos que vozes robotizadas não são eficientes e não geram a inclusão pretendida, porque a mensagem não será entendida. E, nessa nova fase, as próprias empresas querem cocriar as soluções, pois a necessidade de uma companhia de energia é diferente da de um banco — exemplifica Pedroza.
Com os novos serviços, a Audima se prepara para ampliar sua atuação para outros países, como Chile, Argentina, Peru e Colômbia. Hoje, 70% dos negócios estão concentrados no Brasil. Por isso, a companhia prepara, para 2026, uma captação de R$ 15 milhões para financiar a compra de concorrentes fora do Brasil.
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— O Brasil continuará sendo um dos principais mercados atendidos nos próximos dois anos, pois há um potencial de crescimento. A partir de 2027, mais da metade da operação e do faturamento serão do exterior — diz ele, lembrando que hoje a plataforma conta com mais de 60 mil palavras e expressões em português.
As empresas de acessibilidade se tornaram ainda alvo de aquisições. É o caso da Handtalk, voltada para surdos, com mais de 9 milhões de downloads. O app foi adquirido neste ano pela Sorenson Communications, a maior empresa do mundo em serviços linguísticos para a comunidade surda.
Segundo Ronaldo Tenório, CEO e cofundador da Hand Talk, a aquisição vai permitir escalar na atuação globalmente e integrar a tecnologia a uma ampla gama de soluções focadas na acessibilidade de pessoas com deficiência auditiva:
— Além disso, nosso aplicativo ganhou um módulo com trilhas de aprendizado em Línguas de Sinais, fortalecendo a inclusão. Nós enxergamos essas ferramentas (ChatGPT, DeepSeek, Llama) como aliadas, não como concorrentes. Utilizamos esses Large Language Model (LLMs, ou Modelos de Linguagem Grandes) como base para treinar nossos modelos de IA especializados em Línguas de Sinais. O surgimento dessas tecnologias acelerou significativamente nossa evolução, trazendo ganhos expressivos em qualidade de tradução, produtividade e desenvolvimento de novas soluções para acessibilidade.
Com isso, diz o executivo, o app está investindo agora em tecnologias de reconhecimento de movimentos:
— Esse avanço permitirá realizar traduções na via inversa, em que uma pessoa surda poderá sinalizar em Língua de Sinais e ser compreendida por meio de áudio ou texto. É um passo fundamental para quebrar de vez a barreira da comunicação, garantindo que a pessoa surda não apenas entenda, mas também seja plenamente compreendida.
O executivo cita ainda uma ferramenta que traduz automaticamente conteúdos para Línguas de Sinais com o apoio da inteligência artificial.
— Recentemente, essa solução passou a contar com um ‘Dicionário de IA’, que facilita o entendimento de termos e conceitos específicos diretamente nos sites acessados, potencializando a comunicação e a inclusão digital.
Com o objetivo de se tornar uma plataforma completa de acessibilidade digital humanizada, fabricantes investem em novos recursos. A Apple, por exemplo, vai lançar, nos próximos meses, ferramentas inéditas para seus produtos.
Uma das apostas é o lançamento do “Braille Access”, que vai permitir anotações em braile no iPhone, iPad e Mac. Com o recurso, será possível abrir qualquer aplicativo e digitar em braile, além de fazer cálculos, escrever e acessar arquivos no formato Braille Ready Format (BRF).
Haverá ainda uma forma integrada de “Legendas ao Vivo”, permitindo que os usuários transcrevam conversas em tempo real diretamente em telas braile.
Além de ampliar os recursos, que contam com aprendizado de máquina e inteligência artificial para serem mais precisos, a empresa criou rótulos (como legendas, contraste e comandos de voz) para informar aos usuários sobre a acessibilidade disponível nos aplicativos disponibilizados em sua loja, a App Store.
A Apple vai permitir, em todo o seu sistema, um novo modo de leitura em seus aparelhos. Chamado de Leitor de Acessibilidade, a ferramenta vai permitir que o usuário escolha fonte, cor e espaçamento, além de oferecer suporte para o recurso “Conteúdo Falado” em tudo que é exibido na tela.
Outro recurso é a “Lupa”, que vai chegar ao Mac. Para isso, basta acoplar, por exemplo, o iPhone ao Mac e ampliar a imagem capturada pela câmera do celular. Basta abrir o aplicativo “Magnifier” no painel do Mac. Depois que as câmeras estiverem integradas, é possível, na parte lateral direita, aumentar o brilho e o contraste. Há ainda a possibilidade de capturar imagens, ampliar a resolução e aplicar filtros de cor para obter mais detalhes.
Na nova ferramenta, será possível ainda usar a câmera do próprio Mac ou uma câmera externa conectada via cabo USB.
—O ChatGPT é uma ferramenta poderosa que pode aprimorar muito o aprendizado personalizado de idiomas, mas ainda é apenas isso, uma ferramenta. Então, há limitações claras. Ao aprender sozinho, o usuário pode não perceber que o ChatGPT é simplesmente um modelo preditivo. Ele gera aquilo que parece mais provável vir a seguir, mas não compreende de fato a linguagem ou o contexto, e tampouco consegue verificar informações. Isso cria o risco de aprender expressões incorretas sem perceber. Portanto, embora a tecnologia esteja evoluindo rapidamente, confiar nela sem orientação especializada é arriscado — explica Andrew Skrypnyk, CEO e fundador da Promova, um app de ensino de idiomas.
A Samsung também vem ampliando seu cardápio de funções para aumento de acessibilidade. Um deles é o recurso que fala tudo que está sendo exibido na tela. Em outra frente, o usuário pode aumentar o contraste do conteúdo exibido, de forma a fazer com que o conteúdo pareça maior. Para as pessoas mais idosas, é possível aumentar o tamanho do teclado e alterar a cor das teclas de forma a facilitar o uso.
Para quem tem problema de visão, a companhia criou ainda o Modo Relumino, que destaca os contornos e detalhes da imagem, tornando os elementos exibidos mais evidentes para quem tem dificuldades em distinguir os objetos. Os vídeos contam ainda com audiodescrição, que é feita de forma automática em áudio.
Os aparelhos ainda conseguem fornecer uma representação verbal do que é captado pela câmera, ajudando na descrição de imagens. Para os usuários com dificuldades de movimento, outra opção é controlar o dispositivo por meio de movimentos da cabeça ou gestos faciais.