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O trecho da Serrinha do Paranoá é o maior e mais valioso lote na proposta, avaliado em R$ 2,3 bilhões, correspondendo a mais de um terço dos R$ 6,6 bilhões que o governo do Distrito Federal espera injetar no BRB. Mas, para o meio ambiente, a perda é incalculável: perda de carbono, de biodiversidade, de conectividade ecológica e de recursos hídricos. A preservação da área garante o abastecimento de água potável e proteger a qualidade dos mananciais.
Mercedes Bustamante, professora titular da Universidade de Brasília (UnB), explica que a Serrinha do Paranoá faz parte de duas áreas de proteção ambiental. Uma área de proteção ambiental federal, a APA do Planalto Central, que é uma poligonal maior, e a APA do Lago Paranoá, da Terracap. É o último grande fragmento de área verde da região.
O plano de uso feito pelo GDF para os 716 hectares da Serrinha inclui a construção de blocos prédios de seis e três andares. Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, o diretor de Comercialização da Terracap, Júlio César Reis, afirmou que a área poderia abrigar cerca de 35 mil moradores e que não tem cursos d’água. Para Mercedes, o argumento do governo não faz sentido. A ocupação da Serrinha seria como impermeabilizar as partes de cima, impedindo a existência das nascentes que ficam embaixo.
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– Imagina que a nascente é a torneira por onde a água sai. Para a água chegar nessa torneira, ela precisa vir de uma caixa-d’água, precisa ter um sistema de canos. Ou seja, existe uma conectividade hídrica. Há uma área que recarrega, uma conexão subterrânea que depois leva ao afloramento da água. Tudo isso passa a ser prejudicado. Quando você fragmenta uma área em pedaços, aumenta a fragilidade das partes remanescentes, porque elas perdem conectividade.
Outro argumento do governo do Distrito Federal é que já foram feitos estudos na área e não haverá prejuízo ambiental. No entanto, a professora lembra que as conclusões estão baseadas em um plano antigo e que as condições climáticas do Distrito Federal já mudaram, assim como as do Cerrado.
– E, para mim, a cereja do bolo é lançar mão de um bem público que poderia garantir o bem-estar da população agora e no futuro para resolver um problema de má gestão e, ao que tudo indica, de corrupção. Ou seja, para fazer caixa para um banco público, sem assumir que houve um problema de gestão, lança-se mão do patrimônio público. No fim, a conta vai sendo paga pela população de várias formas.
Não houve discussão com os ambientalistas. Há cartas contrárias do Conselho Comunitário da Asa Sul, do Conselho Comunitário da Asa Norte e de vários movimentos da sociedade civil do DF, todos se manifestando contra. Além disso, a própria Terracap tem diagnósticos sobre as nascentes e a importância hídrica da área, além de estudo da Secretaria de Agricultura do Distrito Federal. Tudo foi ignorado pelo governo.
– Ninguém nega a importância do BRB. Só que agora a conta está sendo socializada.

