Macaco Branco crê ter um gosto musical peculiar para alguém com 37 anos.
— Gosto de música que não é da minha idade, que não é da minha vivência. É Marvin Gaye, George Benson, Simply Red, Phil Collins… coisas da memória musical de quando era pequenininho. Sempre que ouço essas músicas, elas me trazem uma emoção do caramba, sinto um conforto… tipo assim, a saudade de um tempo que não vivi — divaga ele, jovem (e premiado) mestre de bateria da Unidos de Vila Isabel, que, como não poderia deixar de ser, tem a mesma saudosa relação com os imortais sambas de enredo (os quais, por sinal, homenageia esta terça-feira, no Teatro Rival Petrobras, no Centro do Rio, na oitava edição do projeto Roda de Enredo).
A partir “daquela nostalgia, que faz você lembrar do teu pai botando aquele disco, do seu avô desfilando nessa escola aqui”, Macaco Branco certa vez organizou uma playlist no Spotify só com aqueles sambas de enredo que todo mundo canta.
— Aí pensei: “Pô, vou fazer uma roda voltada para os sambas antológicos, uma roda de sambas de enredo. E vou trazer os intérpretes para cantarem e contarem a história deles!” Percebi que a galera gosta mais daquela pegada do samba tocado em formato de roda — diz ele, que terça recebe Serginho do Porto (da Estácio de Sá) e Igor Vianna (da Mocidade Independente de Padre Miguel).
Por trás de toda essa saudade do que não viveu do mestre de bateria, estão raízes muito bem fincadas em Vila Isabel. Para começar, tanto o seu bisavô quanto o de sua mulher (Dandara Oliveira, que ele conheceu ainda criança na quadra da escola de samba) trabalharam na lendária fábrica de tecidos da Vila, citada por Noel Rosa no samba “Três apitos”. Criado no bairro, em uma vila na qual as casas passavam de pai para filho, o garoto vivia na quadra da Unidos de Vila Isabel, onde seus pais desfilavam e ele, desde que se entende por gente, sonhava em desfilar.
— Quando criança, botava três bonecos juntos, e era uma ala. Depois, pegava um caminhãozinho, fazia de abre alas, aí começava a cantar sambas. Era como se os brinquedos estivessem desfilando — diz ele, que também já tinha fissura pela bateria. — Eu pegava uma latinha de cerveja e um palito de churrasco e vinha tocando. Mesmo sem ter instrumento, já mostrava ritmo, já fazia um telecoteco.
Depois de experiências em alas mirins, com 13 anos ele começou a frequentar sozinho os ensaios da Vila (“fiz teste para tocar tamborim, não passei, mas no outro ano consegui desfilar”). Aos 16, já era o responsável pela ala dos tamborins. E, aos 17, Mart’nália cruzou seu caminho.
— Quando fomos gravar “Menino do Rio”, CD dirigido pela minha cabocla Maria Bethânia, ela queria aqueles momentos em que afinam os instrumentos da escola. Então, fomos até lá (Vila Isabel) para gravar isso — conta a cantora. — Foi aí que me encantei pelo Macaco Branco. Ele era diferente, magrinho, e tinha um tombo diferente… parecido com o meu (risos).
Na hora de montar o show do disco, Mart’nália pediu à empresária Márcia Alvarez para chamar o menino da Vila:
— Macaco Branco ainda não tinha 18 anos. Marcinha conversou com a mãe dele, pediu autorização, e ela permitiu que ele viajasse. Levamos ele para Angola, para a Europa e, desde então, nunca mais nos desgrudamos. Este ano completamos 21 anos no mesmo barco. No palco, o Macaco Branco é pura alegria. Canta todas as músicas e se entrega de corpo e alma.
O músico conta que ganhou o apelido aos 15 anos, porque tinha muito Anderson na quadra da Vila Isabel (“nem minha mãe me chama de Anderson”, conta). E tudo porque alguém achou que ele tinha “uma pegada de gorila”.
— Quando era show com 30 ritmistas, tinha que ter pelo menos ter uns três tamborins para o som sair. Mas, quando era novo, eu tocava muito forte, e aí só me levavam para tocar tamborim — recorda-se.
Em 2019, ele chegou ao posto de diretor de bateria da Vila Isabel. No primeiro ano, já ganhou o Estandarte de Ouro de revelação do carnaval e, em 2020, o de melhor bateria.
— Tinha muita gente com mais experiência do que eu, mas a escola teve um olhar clínico. O carnaval se profissionalizou muito e ela passou a ir nos caras que se prepararam musicalmente — acredita Macaco Branco, que estudou bateria e leitura de partitura, além de ter se formado em produção musical (aliás, há quatro anos é produtor do disco dos sambas de enredo da Série Ouro). — Quando virei mestre de bateria da Vila, eu já sabia tudo o que que tinha de defeito e o que eu poderia melhorar para ela voltar a ser uma bateria que pontuava. Meu trabalho foi o de resgatar o ritmo tradicional da Vila Isabel, os toques dos taróis, a afinação, a filosofia…. e hoje, para você fazer um trabalho de gestão de pessoas, você tem que ser um pouco quase psicólogo.
Ogã do Candomblé Nação Angola, Macaco Branco acredita que o samba está diretamente ligado à sua religiosidade e aos laços com a África:
— Em Angola, aprendi muito sobre o semba, que, reza a lenda, deu origem ao samba. Então, acho que, por ser da religião e por ser também muito aficionado pelos tambores, a gente acaba trazendo um pouquinho da cultura ancestral para o nosso trabalho.
O amor precoce pelo samba e pelo carnaval foi herdado pelos três filhos de Macaco Branco, todos do casamento de 16 anos com Dandara. Os mais velhos, Enzo, de 14, e Gael, de 4, hoje são participações aguardadas nas rodas de enredo do pai. A caçula, Inaê, de 1 aninho, ensaia os primeiros passos.
— No aniversário do Enzo, nós fomos lá numa roda de samba. O Gael cantou, um cara filmou ele e, em uma semana, o vídeo teve um milhão de visualizações no TikTok. Fiz um Instagram e, em um mês, ele já estava com 14 mil seguidores — orgulha-se o pai da estrela mirim.

