Conhecida como “crystal”, “tina” e até “droga de rico”, a metanfetamina tem aparecido com mais frequência em apreensões pela polícia no Estado do Rio, onde o mercado de entorpecentes ainda é dominado por crack, cocaína e outras substâncias. Nesta quarta-feira, dois homens foram presos transportando oito quilos da droga, avaliados em cerca de R$ 4 milhões, na Rodovia Presidente Dutra, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A operação, realizada pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Baixada Fluminense (DRE-BF) e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), expõe uma realidade que começa a se intensificar, e especialistas alertam para o crescimento da circulação da droga no estado, com aumento de jovens buscando tratamento e maior uso em festas.
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A metanfetamina age diretamente no cérebro, aumentando os níveis de dopamina e noradrenalina. A droga é um pó branco e, no caso da que foi apreendida nesta quarta, estava escondida em pacotes que simulavam ser suplementos alimentares, pela semelhança com o aspecto da creatina.
Segundo a polícia, os dois suspeitos presos — Diego Puro Romano e Sebastião Henrique Noronha Pereira — dirigiam veículos roubados e com placas clonadas. Ambos foram levados para a sede da DRE-BF e autuados em flagrante por tráfico de drogas. A substância foi encaminhada para a perícia.
Para o pesquisador Francisco Netto, secretário executivo do Programa Institucional de Apoio a Pesquisas e Políticas Públicas sobre Álcool, Crack e outras Drogas da Fiocruz, a metanfetamina já é uma substância consolidada em países como os Estados Unidos, mas no Brasil o cenário ainda é recente e cheio de incertezas.
— No Brasil ainda temos poucos registros, não há uma série histórica que mostre um uso relevante em termos de proporção. O que vemos hoje no Rio, por exemplo, são apreensões que indicam uma possível demanda maior, mas é uma coisa nova, ainda sem dados consolidados — explica Netto.
Segundo o professor Paulo Telles, diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Uerj (Nepad), que oferece atendimentos gratuitos a pessoas com dependência, a presença da droga era pífia até pouco tempo:
— Curiosamente, em pouco menos de um ano e meio começamos a receber muitos pacientes com dependência nesta droga, principalmente jovens e de classe média alta. Esses usuários eram raros, agora há uma maior incidência — contou Telles.
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Ao contrário das drogas mais comuns no Rio, a metanfetamina é uma substância de alto custo: o grama pode chegar a R$ 550, cerca de dez vezes mais caro que o da cocaína. Esse fator coloca o uso da droga em outro patamar, o das elites, motivo pelo qual ela também é chamada de “droga de rico”. Por isso, seu consumo tem sido observado principalmente entre jovens de classe média-alta, moradores de áreas nobres da cidade e frequentadores de festas privadas, onde a substância circula de forma discreta.
O perfil de consumo também chama atenção por sua versatilidade: a “tina” pode ser cheirada, fumada, ou injetada, oferecendo ao usuário estímulos intensos e prolongados. Como droga estimulante, ela proporciona aumento de disposição, confiança e sensação de superpoder, efeitos que funcionam como reforço positivo, incentivando o uso contínuo.
— Diferentemente da cocaína, comum no Rio, uma dose de metanfetamina tem duração muito maior, o que reduz a necessidade de consumo constante. Enquanto a cocaína exige uso repetido durante a festa ou a noite, a tina mantém seus efeitos por mais tempo, o que a torna mais atraente para esses grupos — explica Telles.
Para Telles, o crescente uso de metanfetamina entre jovens no Rio sinaliza uma tendência de expansão que exige atenção de autoridades, especialistas em saúde e serviços de prevenção. Pensando nisso, o Nepad vem estudando alternativas para melhor atender à demanda, buscando referências de estratégias adotadas em outros países e adaptando-as à realidade local.
A prática do ‘chemsex’ e uso em festas
O consumo no Rio, segundo o Telles, que lida diretamente com os dependentes do sintético, está frequentemente ligado a contextos de festas e uso sexual, conhecido como “chemsex”, prática de utilizar substâncias químicas durante relações sexuais. Muitos jovens relatam ao Nepad que, à medida que aumentam a frequência do uso, passam a somente frequentar festas ou ter relações sexuais sob efeito da droga, criando uma rotina dependente e compulsiva.
— Com o tempo, os usuários desenvolvem tolerância, e sem a droga o corpo “não funciona”: a sensação de energia e euforia só ocorre sob efeito da tina, e a vida cotidiana passa a depender da substância. Eles se sentem como super-homens. A pessoa se envolve em uma rotina centrada na droga, perde a capacidade de funcionar sem ela e acaba comprometendo o equilíbrio da vida social, profissional e sexual — conta Telles.
Além dos efeitos positivos percebidos pelos usuários, a metanfetamina apresenta riscos severos à saúde. Conforme o especialista, ela diminui o apetite, oferece uma energia intensa, porém “vazia” e não saudável, e faz com que o corpo se desgaste rapidamente.
— Usuários acabam negligenciando cuidados básicos de saúde, alimentação e sono, entrando em um ciclo de consumo prejudicial. O uso injetável adiciona perigos ainda maiores: além do risco de contaminação e infecção decorrente do compartilhamento de agulhas, a pureza da substância é incerta, aumentando a probabilidade de efeitos graves — explica.
O que é a metanfetamina?
O pesquisador Netto explica que a metanfetamina pertence ao mesmo grupo de substâncias psicoativas que estimulam o sistema nervoso central, como a cocaína, mas seus efeitos variam conforme a forma de consumo. Quimicamente, trata-se de um estimulante potente, capaz de provocar euforia, aumento da libido e sensação de energia prolongada.
— Assim como outras drogas estimulantes, ela provoca aumento de energia, de funções motoras e da excitação do sistema nervoso central. Mas o impacto muda dependendo da via de administração. Fumada, chega mais rápido ao cérebro, com efeito intenso. Ingerida em comprimidos, age de forma diferente, mais lenta — explicou.
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A volta do lança-perfume
Além da metanfetamina, outras drogas também se destacam entre jovens em festas, como o lança-perfume. Na última terça-feira, a PRF apreendeu 1.060 frascos de lança-perfume em um ônibus interestadual que seguia de Rio para Belo Horizonte, na altura de Petrópolis. A passageira, de 24 anos, foi presa em flagrante e afirmou que transportava a droga para venda em festas, repetindo o comportamento em outras ocasiões.
Só este ano, em levantamento feito pelo GLOBO, a Polícia Militar do Rio já apreendeu pelo menos 1.292 frascos de lança-perfume entre janeiro e o último dia 11, a maioria na Rodoviária do Rio. A ocorrência mais recente foi registrada justamente no terminal do Santo Cristo, no Centro, quando policiais do Batalhão de Polícia de Turismo encontraram 220 frascos numa bagagem. O material foi levado para a 4ª DP (Presidente Vargas).
O sintético não é uma novidade no Rio. A substância teve seu auge na cidade nas décadas de 1980 e 1990, quando era presença comum em blocos de carnaval, segundo Netto.
Nas redes sociais, a droga também encontra espaço. Vídeos de jovens — e até crianças — inalando lança em festas viralizam com frequência. Em um deles, publicado por uma conta no Instagram, com localização marcada na Penha, na Zona Norte do Rio, frascos personalizados aparecem sendo exibidos como se fosse um catálogo de vendas. Nos comentários, internautas não escondem o interesse: “Quanto custa?” e “Manda a tabela” são alguns dos pedidos, em tom de negociação, sugerindo encomendas em grande quantidade.
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Segundo o professor Paulo Telles, o lança-perfume é uma substância volátil, com efeito sedativo no sistema nervoso central, que provoca uma sensação de embriaguez rápida e intensa.
— É também muito atrativa para os jovens. Basta inalar por cerca de 20 segundos para sentir aquele surto de euforia. Por isso, são vistas como divertidas e sedutoras, com efeitos diferentes dos estimulantes como a metanfetamina, mas igualmente capazes de gerar riscos à saúde — explica Telles.
O pesquisador Francisco Netto lembra que, além das estratégias de redução de danos voltadas diretamente às drogas, como cartilhas com orientações de segurança para usuários, é preciso trabalhar em medidas de redução de vulnerabilidades.
— A droga sozinha pode ser mais ou menos danosa, dependendo da condição biopsicossocial da pessoa. Quanto maior for a vulnerabilidade, maiores são os riscos associados. É fundamental pensar em políticas que fortaleçam a rede de proteção social dos jovens — defendeu Netto.