Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO, e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, em conversas com aliados, tem dito que o nome de Michelle ganhou força para uma candidatura presidencial desde a última manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, em abril. Naquele dia, a ex-primeira-dama fez gestos inéditos em cima do carro de som em direção aos filhos, com quem sempre teve relação conturbada. “Aqui estão os três meninos do meu marido”, disse Michelle, para logo depois receber um afago de Carlos Bolsonaro, aquele com quem mais entrou em rota de colisão em 17 anos de casamento.
Nas últimas semanas, a ex-primeira-dama se aproximou do pastor Silas Malafaia, um dos mais relevantes interlocutores do ex-presidente, fundador da igreja Vitória em Cristo, da qual Sóstenes é membro. Na manifestação da Paulista, ela também acenou a Malafaia, fazendo referências carinhosas ao líder da Assembleia de Deus. O pastor vem dando conselhos a Michelle sobre fazer discursos menos religiosos, e o efeito na sua fala já é nítido. Nesta quarta-feira, no ato em Brasília pela anistia, Michelle lembrou a prisão de Adriana Ancelmo, então mulher do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, em 2017, e a posterior soltura meses depois. Foi uma maneira de apresentar um argumento político para se contrapor aos dois anos de detenção de alguns acusados de participar do 8 de Janeiro.
Nessa corrida para ficar bem na fita com pastores evangélicos, Tarcísio de Freitas também tem investido parte do seu tempo. Além de conversar com Malafaia, o governador de São Paulo mantém contato com lideranças como Valdemiro Santiago, da igreja Mundial do Poder de Deus, e Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo. Embora assediado pelo PL, Tarcísio ainda mantém-se filiado ao Republicanos, partido ligado à igreja Universal do Reino de Deus, comandada pelo bispo Edir Macedo. Ter boa relação com as maiores autoridades evangélicas será decisivo para qualquer candidato da direita em 2026.
As simulações de votos da Quaest apontam que Michelle, hoje, é o nome mais competitivo da oposição contra Lula. Em um confronto contra o petista, Michelle alcança hoje 38% das intenções de votos, diante de 44% do presidente. Outros cenários apontam Tarcísio, com 37%; Ratinho Jr e Pablo Marçal, ambos com 35%; Eduardo Bolsonaro, 34%; Romeu Zema, 31%; e Ronaldo Caiado, 30%.
Os marqueteiros ligados à direita que entrevistei na série da newsletter deram a entender que divergem sobre o que Bolsonaro vai fazer ano que vem. Marcos Carvalho, seu estrategista digital na campanha de 2018, acha que Bolsonaro será vaidoso e não vai escolher Tarcísio para sucedê-lo, mas sim alguém da família. Pablo Nobel, marqueteiro do governador de São Paulo no ano passado, diz que o seu cliente vai esperar até 31 de março de 2026, data da obrigatória desincompatibilização caso desista da reeleição e venha ao Planalto. Duda Lima, o publicitário que comandou a comunicação da campanha de Bolsonaro em 2022, preferiu não arriscar: “Vamos tentar acertar os números da Mega-Sena? Talvez seja mais fácil. Eu já desisti de querer saber o que esse cara vai fazer”.
- ‘Direita não se resume a Bolsonaro, mas vaidade vai levá-lo a manter a candidatura a presidente até o fim’: A entrevista com Marcos Carvalho
- ‘Tarcísio vai esperar Bolsonaro até 31 de março de 2026 e Michelle é ótimo nome para vice’: A entrevista com Pablo Nobel
- ‘O povo nem sabe o que é anistia, vai pesar se a vida está melhor ou não com o Lula‘: A entrevista com Duda Lima
Glauber vai rodar o Brasil para salvar o mandato, mas não tem esperança de que o julgamento do seu caso ficará apenas para o segundo semestre: ‘Arthur Lira não vai deixar’
Glauber Braga (PSOL) está começando uma série de viagens pelo Brasil em defesa do seu mandato. Vai começar por Belo Horizonte, passar por Vitória e fechar em São Paulo nos próximos dias. Serão encontros para mobilizar a esquerda em torno da sua causa, um deles já marcado com o MST. O deputado me disse que pretende percorrer todos os estados brasileiros, inclusive Alagoas, reduto do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP), seu inimigo declarado no Congresso.
Para você, leitor, que não se lembra do caso Glauber, um rápido resumo: ele é alvo de um processo, apresentado pelo Partido Novo, que pede a sua cassação por quebra de decoro parlamentar após agredir fisicamente e expulsar, aos chutes, um militante do Movimento Brasil Livre (MBL) do interior da Câmara, em abril de 2024. No mês passado, o Conselho de Ética votou pela cassação do deputado por 13 votos a 5. Glauber atribui a ânsia pela punição a Lira, a quem já chamou de “bandido” em discursos no Congresso.
Na newsletter 33, do último dia 16, conversamos com Lira, que negou veementemente estar articulando contra o psolista. Naquele texto eu já dizia que chamava a minha atenção a quantidade de declarações em off na imprensa em defesa de Glauber. Nesta terça-feira, mais um exemplo na coluna de Lauro Jardim, assinada pela repórter Naira Trindade. “Reservadamente, um influente dirigente partidário diz não concordar com a cassação do deputado da esquerda e pontua: ‘A cassação não é e não pode ser instrumento de vingança'”. Ou seja, sendo verdade ou não que Lira está trabalhando pela perda do mandato de Glauber, fato é que ninguém do Centrão tem tido coragem de defender Glauber “em on”, como nós jornalistas chamamos as declarações públicas das figuras que entrevistamos.
Abaixo, três perguntas que fiz a Glauber.
O seu caso ficará para o segundo semestre?
Estou trabalhando com a data de 1º de julho, não acho que ficará para o segundo semestre. Arthur Lira não vai deixar.
O Palácio do Planalto não deveria atuar mais em sua defesa?
A ministra Gleisi Hoffman e Sidônio Palmeira já ajudaram muito ao ir na Câmara enquanto eu fazia a greve de fome. Não vou cobrar solidariedade.
Não acha que era o caso de pedir desculpas pelo que fez?
Desculpas pelo quê? Para um militante do MBL que ficou me ofendendo? Para o Arthur Lira? Para o relator do caso (Paulo Magalhães, do PSD baiano), que tinha me dito que achava meu caso injusto? Não tenho problemas em reconhecer erros desde que sejam apresentados.
O livro de Tati Bernardi é daqueles para ser lido de uma vez só. Divertido, debochado, bem escrito. Leve, para usar uma palavra tão atraente para quem busca literatura nos últimos tempos. É mais um trabalho que zomba com muito sarcasmo do chamado “andar de cima”, como diz Elio Gaspari. White Lotus, Triângulo da Tristeza, Succesion… Está todo mundo bebendo dessa fonte de inspiração riquíssima para enredos.
Pablo Ortellado escreveu sobre no último sábado:
“É um livro muito engraçado porque inclui observações perspicazes sobre as aflições mesquinhas da gente de berço, mas é também um livro amargo, porque embebido pelo universo destituído de valores que denuncia”.
Na crítica do Segundo Caderno, Ruan de Sousa Gabriel escreveu sobre a comparação com a obra de Annie Ernaux que tem sido feita: “‘A boba da corte’ tem sido vendido como uma narrativa de trânsfuga de classe — a patrona do ‘gênero’, diga-se, é Annie Ernaux. O trânsfuga de classe é aquele que, graças ao esforço da família e a seu talento para os estudos, é o primeiro de sua árvore genealógica a viver com condições materiais consideravelmente melhores que seus pais. Sem nunca se integrar totalmente ao mundo ‘dominante’ (como diz Ernaux), ele não se reconhece mais nos valores de sua classe social de origem. A tentativa de colar esse rótulo no livro é compreensível (inclusive comercialmente), mas talvez atrapalhe, pois impõe um padrão a ser seguido, que coloca em segundo plano tanto os méritos quanto os defeitos do livro”.
Tati Bernardi também usa o livro para falar de vários dos seus relacionamentos passados. Procurei a autora para saber se os nomes citados no trabalho eram reais. Tati Bernardi riu, e garantiu que são fictícios. Abaixo um trecho do livro que trata de um desses “dates” passados que ela maltratou:
“Eu disse a Gabriel que não nos víssemos mais. Ele concordou, mas antes pediu que transássemos uma última vez. Ele deu tudo de si e quando eu estava prestes a gozar, ele parou antes. Se vestiu. E foi chamando o elevador. Disse que ia dormir na casa dele porque meu sofá era horrível. Aliás, era um sofá da Tok&Stok, ele disse: ‘Coisa barata’. Se vingou com esmero, o homem da tatuagem da árvore. Lembro de ter ficado orgulhosa dele e ter sorrido”.
A newsletter fará uma merecida pausa de duas semanas. Tirarei férias rápidas, retornando no dia 28. Até lá!
