
Passar um produto na pele é apenas o primeiro passo para que seus ingredientes exerçam algum efeito. Antes de chegar às camadas em que podem atuar, porém, muitas substâncias precisam atravessar o estrato córneo, a porção mais superficial da pele, que funciona como uma barreira natural de proteção. É justamente nesse limite entre proteção e absorção que entram as tecnologias de microagulhas, desenvolvidas para facilitar a passagem de determinados ativos.
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A ideia não é exatamente nova, mas ganhou diferentes aplicações na dermatologia e na cosmética. Dependendo da tecnologia, as microagulhas podem criar pequenas aberturas na superfície cutânea, carregar ingredientes para regiões mais profundas ou provocar estímulos que desencadeiam processos de renovação da pele. Apesar de terem em comum a utilização de estruturas microscópicas semelhantes a agulhas, essas técnicas não são intercambiáveis: variam em profundidade, mecanismo de ação, indicação e nível de evidência científica.
“Isso acontece porque o estrato córneo, camada mais externa da pele, funciona como uma importante barreira de proteção e dificulta a passagem de muitas substâncias”, explica a dermatologista Glauce Eiko. Segundo ela, a escolha da tecnologia deve levar em conta tanto as características da substância quanto o objetivo do tratamento.
Adesivos com microagulhas
Entre as aplicações mais recentes estão os adesivos que utilizam microagulhas para favorecer a liberação de ingredientes na pele. As estruturas são pequenas o suficiente para atravessar temporariamente a camada superficial e criar caminhos microscópicos por onde determinadas substâncias podem ser conduzidas.
A estratégia pode ser particularmente interessante para ingredientes que apresentam dificuldade de penetração quando aplicados sobre a pele de maneira convencional. “As microagulhas funcionam como uma espécie de sistema de transporte. Em vez de depender exclusivamente da capacidade de um ingrediente atravessar naturalmente a barreira cutânea, elas criam caminhos microscópicos para que ele seja depositado de maneira mais direcionada”, afirma Glauce.
Há, no entanto, uma questão regulatória importante. No Brasil, é possível encontrar adesivos desse tipo comercializados pela internet, inclusive por meio de importação. Como as microagulhas ultrapassam a superfície da pele, sua classificação e regularização não devem ser presumidas a partir da aparência ou da forma de uso. A orientação é verificar a situação do produto perante a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) antes da utilização.
O chamado ‘microagulhamento líquido’
O termo também aparece associado a cosméticos que contêm pequenas estruturas em formato de espículas. Diferentemente do microagulhamento realizado com dispositivos de agulhas, esses produtos não reproduzem o procedimento feito em consultório. As estruturas presentes na fórmula atuam principalmente nas camadas mais superficiais da pele, podendo promover uma ação esfoliante e favorecer a renovação celular.
“Esses cosméticos contêm estruturas que penetram suavemente nas camadas superiores da pele, promovendo esfoliação natural, renovação celular e melhor absorção dos ingredientes ativos presentes na fórmula”, detalha Glauce.
A intensidade dessa ação depende de fatores como a composição do produto, a concentração e as características das partículas utilizadas. Por isso, o chamado microagulhamento líquido não deve ser entendido como equivalente ao procedimento tradicional com agulhas, que produz microlesões controladas e pode alcançar diferentes profundidades.
Microagulhamento tradicional
Já conhecido nos consultórios dermatológicos, o microagulhamento convencional é realizado com dispositivos que possuem várias agulhas. Durante a sessão, elas perfuram a pele de maneira controlada e em profundidades definidas de acordo com a região tratada e o objetivo do procedimento.
“As microlesões controladas estimulam o processo de reparação e a produção de colágeno”, observa a dermatologista. A resposta desencadeada pela pele é justamente uma das razões pelas quais a técnica pode ser indicada em tratamentos voltados à textura, às cicatrizes e a sinais do envelhecimento, sempre de acordo com a avaliação médica.
Os pequenos canais criados pelas agulhas também podem ser utilizados para facilitar a entrada de determinadas substâncias, estratégia conhecida como drug delivery. Nesse caso, o objetivo é aproveitar temporariamente a alteração da barreira cutânea para favorecer a entrega de ingredientes na região tratada.
Quando as agulhas encontram a radiofrequência
Outra possibilidade é combinar o microagulhamento com uma fonte de energia. Na radiofrequência microagulhada, as agulhas são introduzidas na pele e a energia de radiofrequência é liberada em determinada profundidade. O calor produzido pelo equipamento provoca um estímulo térmico na derme, associado à remodelação do colágeno.
“A radiofrequência aquece a derme, estimulando ainda mais a produção de colágeno”, esclarece Glauce. Os equipamentos podem apresentar diferentes configurações de agulhas, profundidades e formas de aplicação, além de recursos destinados a tornar o procedimento mais confortável.
Por envolver perfuração da pele e aplicação de energia, trata-se de um procedimento médico ou estético que exige avaliação individualizada. A indicação depende das características da pele, da área a ser tratada e do resultado pretendido.
O que pode vir pela frente
O desenvolvimento das microagulhas não se limita às tecnologias já disponíveis. Pesquisas estudam novas formas de fabricar essas estruturas e de controlar a liberação de substâncias na pele. Entre as possibilidades estão sistemas produzidos por impressão 3D e mecanismos capazes de responder a mudanças no ambiente cutâneo, como variações de pH e temperatura.
Também estão em investigação dispositivos que associam microagulhas a sensores para acompanhar características da pele, como hidratação e oleosidade. No futuro, essas tecnologias poderiam permitir uma liberação mais precisa e personalizada de ativos.
Essas aplicações, no entanto, ainda estão em desenvolvimento e não fazem parte da rotina de cuidados com a pele. “É importante diferenciar as tecnologias já disponíveis daquelas que ainda estão sendo estudadas”, ressalta Glauce.