Recuperação do controle da agenda de debates no mundo digital, apoio contundente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, presença territorial, mudança no sistema eleitoral, e uma oposição peronista que, após obter uma vitória importante no início de setembro na província de Buenos Aires, perdeu impulso — e praticamente não fez campanha. Esses são os elementos mais importantes a serem levados em conta na hora de analisar o surpreendente triunfo obtido pelo partido governista argentino A Liberdade Avança (LLA) nas eleições legislativas do último domingo.
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Após o revés sofrido na maior província argentina em 7 de setembro, o presidente Javier Milei, seu governo e sua tropa digital de influenciadores conseguiram virar o jogo com a ajuda de um aliado estrangeiro fundamental: Donald Trump. Agora, espera-se que o chefe de Estado aproveite a nova oportunidade para obter consensos e aprovar reformas.
De acordo com o monitoramento de agências que observam a interação de internautas em redes sociais, entre os dias 1 e 21 de outubro o nome de Trump foi o mais mencionado nas conversas digitais no país, ajudando a Casa Rosada a, pela primeira vez em oito meses, ter um índice de positividade nas redes (47%) superior ao da negatividade (46%).
— O mundo digital mostra os sintomas do que estava acontecendo. O apoio de Trump a Milei deu à comunidade libertária conteúdo para construir narrativas positivas, que tiraram o foco dos escândalos de corrupção — explica Javier Correa, diretor da agência de comunicação AdHoc.
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Para ele, está claro que a análise da chamada “conversa digital” é apenas um dos elementos a serem considerados para entender como o presidente argentino virou o jogo em menos de dois meses e venceu uma eleição que, semanas antes, era considerada um enorme risco para seu governo.
Quando o alerta foi feito por analistas locais, a Argentina enfrentava uma corrida cambial, e Milei tentava superar o vazamento de áudios que levantaram suspeitas de corrupção envolvendo a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, sua irmã e braço direito. Logo depois, entrou em campo o chefe de Estado americano, com quem Milei se reuniu duas vezes, entre o final de setembro e a primeira quinzena de outubro. O anúncio de um socorro financeiro de US$ 20 bilhões (R$ 114 bilhões), afirma Correa, “ajudou Milei a administrar o dólar e a crise interna”.
O noticiário sobre a situação financeira e a ajuda americana permitiram ao governo mudar o foco. Com a inflação controlada, uma das conquistas de Milei na primeira metade de seu mandato — embora ainda em um nível, em média, de 2% mensais —, as viagens do presidente aos EUA e as declarações de Trump sobre “uma Argentina que está morrendo” colocaram a questão da estabilidade no centro dos debates. Milei passou a defender a necessidade de dar continuidade a seu programa de governo e “não recuar”. O presidente se mostrou o único que pode conseguir a almejada estabilidade, com o respaldo de um dos chefes de Estado mais poderosos do mundo. E, nesse contexto, reviveu o lema de sua campanha: “liberdade ou kirchnerismo”.
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— A agenda internacional de Milei foi essencial para recuperar opiniões positivas nas redes — frisa Correa.
Na opinião de Pablo Pérez, diretor da Enter Comunicação, embora a figura de Trump tenha alta rejeição na Argentina, a ideia de que o país conta com a ajuda dos EUA caso Milei esteja no poder “penetrou na sociedade”.
— O apoio de Trump obteve engajamento porque se relacionava à necessidade de estabilidade. Milei pode dizer que conseguiu certa estabilidade, por exemplo reduzindo a inflação, e defender que o país precisa dele para continuar nesse caminho. O passo seguinte foi dizer que o voto no kirchnerismo implicaria recuar.
O presidente obteve um claro voto de confiança dos eleitores argentinos, com uma estratégia de polarização extrema. No dia seguinte à vitória, Milei voltou a mostrar-se aberto ao diálogo com “os que querem o mesmo que nós queremos, mesmo que seja com nuances”. O libertário se refere às reformas que pretende impulsionar na segunda metade de seu governo, entre elas a trabalhista, a tributária e a da previdência. A expectativa no país é de que o presidente se aproxime de governadores que controlam bancadas no Parlamento, onde a LLA ampliou de forma expressiva sua presença, mas depende de acordos para aprovar reformas.
— Os argentinos nos apoiaram porque querem mudar o país. No melhor dos casos, tenho seis anos para fazer isso — declarou, já antecipando seu desejo de buscar a reeleição em 2027.
Mas os eleitores argentinos não são muito tolerantes, salienta Pérez, lembrando que os ex-presidentes Carlos Menem (1989-1999) e Mauricio Macri (2015-2019), ambos elogiados por Milei, conseguiram vitórias em pleitos legislativos durante seus mandatos, mas não souberam aproveitar a oportunidade.
— Milei recebeu dois socorros: o dos EUA e, agora, o das urnas. O presidente obteve uma nova oportunidade. Mas seria um erro pensar que todos votaram nele porque estão satisfeitos com seu governo, muitos escolheram o mal menor — assegura Pérez.
Na visão do diretor da Ente Comunicação, “Milei deve entregar resultados econômicos e a estabilidade prometida”. Na Argentina pós eleição legislativa, existe um clima de expectativa sobre o que o presidente fará com o apoio popular que nem ele mesmo esperava. Espera-se que ele aproveite a vitória eleitoral para recompor vínculos com setores da oposição que foram escanteados, e, sobretudo, com o Parlamento.
— Com exceção do kirchnerismo, queremos dialogar com todos — ressaltou ontem.
Também se espera que Milei esteja mais presente nas províncias argentinas, algo que fez durante a reta final da campanha e, segundo os analistas consultados, também ajudou a LLA a obter um excelente resultado. O partido governista está presente nas 24 províncias, e venceu em 16 delas. Para consolidar esse apoio, Milei deverá circular mais pelo país.
Um dos destaques da eleição foi a mudança no sistema de votação. O voto continua sendo em papel, mas, em vez de uma cédula para cada partido, o novo modelo — aprovado pelo Parlamento em 2024 — unificou todos os candidatos em uma única folha. O eleitor agora apenas marca um X no nome escolhido. Analistas avaliam que a alteração aumentou a transparência do processo, antes marcado pela prática de distribuir papeletas pré-preenchidas aos eleitores.
— É uma mudança significativa e certamente beneficiou o governo. O peronismo tinha anos de experiência com o modelo anterior — diz Pérez.

