Depois de trabalhar das 6h30 às 16h30, o operador de máquinas Luciano Pinheiro, de 46 anos, só quer chegar em casa e descansar. Durante a semana, o despertador toca às 5h, mas há cerca de um ano ele tem levantado duas, três, quatro horas antes, com as janelas batendo forte e repetidamente, até o dia raiar. Além da trepidação, um ruído constante também tem tirado o sono dele e de outros moradores do distrito de Sambaetiba, em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio. O sossego, antes característico de lá, agora é perturbado por intervenções no Complexo de Energias Boaventura, da Petrobras, o antigo Comperj.
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Na casa de Luciano, nascido e criado no bairro Alto do Jacu, há vários sinais de abalo na estrutura. O gesso está cedendo, as paredes do quarto da filha mais nova, de 4 anos, descolaram uma da outra, o vidro de uma das janelas quebrou, e há rachaduras espalhadas do chão ao teto.
— Eu não sei o que fazer. É um barulho aterrorizante. Está tirando meu sono, dos meus filhos. Eles dizem que é teste. Mas que teste é esse que dura tanto tempo assim? Tem mais de um ano. Quinta-feira eram duas e pouca da manhã, e começou a barulheira. Eu fiquei tão indignado, com tanta raiva, que eu nem gravei vídeo. Dá raiva, sabe? A minha casa não tem estrutura para aguentar o que está acontecendo. Eles tinham que tirar a gente daqui. E se acontece alguma coisa? — questiona Luciano, que tem registrado as noites de impacto.
Vizinhos denunciam tremor e rachaduras próximo ao antigo Comperj
O Alto do Jacu é um bairro pacato, tipicamente rural. As ruas são de terra batida, cercadas por vegetação, quase lembram uma trilha. Há poucas casas e alguns sítios e fazendas, com criação de galinha, cavalo e vaca. Sem sinal forte de internet, as crianças passam o tempo brincando com os cachorros, andando de bicicleta ou no quintal.
— Antigamente aqui era um lugar pitoresco. A gente acordava ouvindo passarinho, saía para fazer caminhada, com cheiro de mato. Agora, com essas máquinas, ninguém dorme mais. Minhas plantas estão morrendo. O problema maior para mim é a química que vem pela fumaça. Cheiro de gás forte, barulho na cabeça da gente, minha vista passou a arder — relata Mary Jane Moreira, vizinha de Luciano.
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De acordo com moradores, as intervenções acontecem à noite, depois do horário comercial e em dias aleatórios. Muitas vezes, começa no meio da madrugada.
A primeira vez que a moradora Adriana Caldas escutou um ruído intenso vindo do complexo industrial foi no Dia das Mães do ano passado. Com o susto, ela correu para fora de casa para entender o que estava acontecendo.
— Eu saí para olhar o céu para ver se tinha algum avião caindo, porque foi um barulho horrível, muito forte. Tremeu tudo. Agora, com o tempo, a madeira que sustentava o telhado do quarto onde eu estava dormindo, na casa da minha mãe, soltou da parede. Está tudo cheio de rachaduras. Eu tive que me mudar — relembra Adriana.
O Complexo de Energias Boaventura iniciou o processamento de gás natural bruto no terceiro trimestre de 2024, segundo informa o site da Petrobras. A empresa não esclareceu, no entanto, por que realiza atividades industriais durante a madrugada e nem como tem sido a articulação com a comunidade local.
Uma audiência pública para tratar sobre os impactos do projeto na vizinhança, que estava marcada para a última quarta-feira, foi adiada para 6 de agosto. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semau) de Itaboraí, na ocasião, será apresentado o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e o Relatório de Impacto de Vizinhança (RIV) para a comunidade, lideranças locais e demais interessados.
A gestão municipal informou ainda que a realização da audiência é uma etapa fundamental para o fechamento dos indicadores e a análise técnica dos possíveis impactos da obra, garantindo transparência e participação social no processo.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou, por meio de nota, que está apurando mais informações sobre o caso.
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Matriarca local, Miriam Fernandes de Jesus, de 83 anos, se entristece com a situação da cidade. Ela foi, por anos, presidente da Associação dos Amigos do Alto do Jacu, ajudou a fundar o conselho de segurança municipal e trabalhou por mais de 30 anos na prefeitura de Itaboraí.
— Quem mora aqui é porque gosta mesmo. Eu amo. Mas assim não tem condição. O gasoduto é muito pior e mais tóxico do que a refinaria, o cheiro vai dentro de casa. Daqui a pouco a gente está com dificuldade para respirar. Se for assim, daqui para frente, eles precisam indenizar para a gente ir para um lugar mais seguro para viver — ressalta Miriam.
A Petrobras informa que iniciou as operações de processamento de gás natural no Complexo de Energias Boaventura em regime contínuo de 24 horas em outubro de 2024, com o primeiro módulo de processamento. Em abril deste ano, começaram as operações do segundo módulo de processamento.
Em nota, a empresa afirma que, “ao tomar conhecimento da existência de danos estruturais em imóveis da comunidade e considerando reclamações da mesma em relação ao assunto, contratou especialistas para realizar diagnóstico e avaliar a correlação com as operações no Complexo de Energias Boaventura”. Até o momento, acrescenta, “não há elementos técnicos que correlacionem as atividades industriais de processamento de gás natural e os danos nas casas”.
Em relação ao nível de ruído, a Petrobras argumenta que “o empreendimento tem sistemática periódica para sua medição, atendendo às premissas previstas na legislação e normas aplicáveis”.