Casas grandes, ruas limpas e arborizadas, terrenos espaçosos e um toque britânico. Quem caminha pelo chamado Bairro dos Ingleses, entre Maria da Graça e Del Castilho, talvez nem imagine que essa charmosa região da Zona Norte ainda não consta oficialmente no mapa da cidade como um bairro. Mas isso pode estar prestes a mudar.
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Com uma história que remonta ao início do século passado, a localidade é hoje um dos focos de um movimento que busca o reconhecimento oficial do poder público — em um caminho parecido com o que levou, recentemente, à criação do Bairro Argentino, também na Zona Norte. Apesar de funcionar quase como um condomínio — abrangendo apenas quatro ruas —, o Argentino se tornou o 166º bairro oficialmente reconhecido do Rio, o menor da cidade. A conquista abriu caminho para outras reivindicações semelhantes. Moradores do Bairro do Araújo, em Vista Alegre, também sonham com a mudança de status.
O nome Bairro dos Ingleses vem dos tempos da Fábrica Nova América, que funcionava onde hoje está o shopping de mesmo nome. Por volta de 1925, os altos executivos da fábrica — em sua maioria britânicos — se instalaram nas redondezas. As casas da diretoria eram robustas, confortáveis, construídas em terrenos de 500 a mil metros quadrados. Desde então, o apelido se consolidou entre os moradores e se tornou parte da identidade local.
Agora, esse pedaço da Zona Norte, formado por dez ruas — oito em Maria da Graça e duas em Del Castilho — quer virar, oficialmente, Bairro dos Ingleses. A vereadora Rosa Fernandes (PSD), autora do projeto de lei que transformou o Argentino em bairro, estuda apresentar um novo projeto para a área. O desejo dos moradores vai além do nome: eles querem fechar todas as ruas do bairro, aumentar a segurança e preservar a memória da região.
O “quase bairro” já iniciou o processo de fechamento de suas vias. A primeira rua foi bloqueada em dezembro de 2024. A segunda, a Rua Pires de Carvalho — um dos acessos principais — deverá ser fechada em junho, no trecho entre a Avenida Dom Helder Câmara e a Rua Atílio Milano. No local, será instalada uma cabine telefônica vermelha britânica, símbolo tradicional do Reino Unido, como homenagem à história do bairro. O processo de autorização do fechamento das vias foi publicado no Diário Oficial do Município em 1º de outubro de 2024.
Além das residências, o Bairro dos Ingleses abriga uma creche, a Casa Regional de Aveiro — um clube onde há aulas de futsal — e um estacionamento privado. Por esse motivo, o fechamento das ruas ocorrerá apenas no período noturno. Mesmo com os bloqueios, as vias permanecem oficialmente como públicas.
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A mobilização dos moradores já apresenta resultados concretos. Um grupo foi formado, com arrecadação de doações voluntárias para cobrir os custos com a instalação de portões, câmeras de vigilância, tags de acesso e manutenção do sistema. Um site oficial (bairrodosingleses.com.br, ainda fora do ar) também foi criado, para divulgar informações e atualizações. Até o momento, cerca de 230 famílias participam da iniciativa, contribuindo mensalmente com R$ 50. A localidade abriga aproximadamente 900 moradias, entre casas e apartamentos.
Um dos moradores à frente da iniciativa é o representante comercial Paulo Thomé, de 52 anos, que vive no Bairro dos Ingleses desde os 4. Ele fala com saudade dos tempos em que a vida era mais tranquila por ali.
— Eu fui à inauguração do Metrô, quando o presidente ainda era o João Batista Figueiredo. Nossos amigos eram, de fato, quase todos ingleses. Brincávamos nos campos de futebol que existiam por aqui. Hoje todos viraram prédios. Continua sendo um lugar muito bom de se viver, mas a segurança já não é mais a mesma. Fui rendido na garagem da minha casa. As ruas viraram rota de fuga — conta. — Nosso principal objetivo é melhorar a segurança. Mas também sentimos falta de um espaço de convivência; uma área de lazer para as crianças seria muito bem-vinda. Temos, inclusive, a ideia de, em parceria com a direção da Casa Regional de Aveiro, revitalizar o clube.
Integrante do movimento, o professor de matemática Rozemberg Pinto dos Santos também relata um episódio de violência:
— Eu tinha acabado de lavar o carro que foi do meu pai, uma herança com valor sentimental enorme. Fui rendido dentro da garagem, e levaram o carro. Mas não é só isso: aqui roubam de tudo. Já levaram bolsa, planta, bomba d’água… Outro dia roubaram até o hidrômetro da vizinha, e a água ficou jorrando rua abaixo.
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A vereadora Rosa Fernandes, que atualmente estuda a viabilidade legal de transformar o Bairro dos Ingleses em uma unidade administrativa oficial, também pretende aplicar o mesmo processo ao Bairro do Araújo.
Com perfil majoritariamente residencial, o Araújo (cujo nome vem da principal rua da localidade) enfrenta desafios semelhantes aos do Bairro dos Ingleses, sobretudo no quesito segurança. Diante disso, os moradores já iniciaram um movimento para o fechamento de ruas, buscando mais proteção. Por outro lado, quando o assunto é lazer, sobram elogios: há uma praça equipada com parquinho infantil, academia ao ar livre, parcão, campo de futebol e uma área onde são oferecidas aulas gratuitas de funcional, kickboxing e jiu-jítsu.
As ruas do Araújo são largas e abrigam casas antigas, muitas delas padronizadas com telhas estilo Brasilit, típicas de conjuntos residenciais planejados. A região conta ainda com uma escola estadual, igrejas e um forte senso de comunidade.
— Aqui todo mundo se conhece. Tem o moço do gás, o padeiro… Mas já foi muito mais tranquilo. Esperamos que melhore — diz a aposentada Vanilda Araújo, de 73 anos, enquanto brincava de bola com o neto Rubem José, de 12 anos.
Quem também deposita esperança no futuro do Araújo é o comerciante Márcio Pires, morador da região há 22 anos. Há pouco mais de dois meses, ele inaugurou o Beef Rib & Beer, uma casa especializada em carnes, cervejas e sanduíches artesanais, na Rua Manuel de Araújo, a principal do bairro. O novo empreendimento se soma a outros dois negócios locais: um de churrasco misto e um de açaí.
— O bairro é muito familiar, um dos poucos da região que não têm comunidade. Mas, ao mesmo tempo, enfrentamos desafios como a crescente sensação de insegurança. Há cerca de seis meses, retiraram uma guarita da PM daqui, e desde então aumentaram os casos de assaltos e a presença de usuários de drogas — afirma.
Embora ainda não haja prazos definidos para a oficialização dos bairros do Araújo e dos Ingleses, os processos seguem em andamento. No caso do Bairro dos Ingleses, uma reunião de prestação de contas com a comunidade está marcada para sábado que vem, com expectativa de atrair ainda mais moradores para a mobilização.
