Morreu nesta quarta-feira (17), aos 87 anos, o historiador italiano Carlo Ginzburg, um dos intelectuais mais influentes do século XX e pioneiro da micro-história. Nas redes sociais, sua filha, a escritora Lisa Ginzburg, publicou uma foto com o pai e a legenda “Adeus, meu papai”. A causa da morte não foi informada.
Autor de obras fundamentais para os estudos históricos, Ginzburg ficou conhecido por investigar grandes processos sociais e culturais a partir das trajetórias de indivíduos comuns. Sua abordagem ajudou a consolidar a micro-história, corrente surgida na Itália nos anos 1970 que busca compreender fenômenos amplos por meio da análise minuciosa de casos particulares.
Seu livro mais célebre, “O queijo e os vermes” (1976), tornou-se uma referência internacional da historiografia. A obra reconstrói a vida e as ideias de Menocchio, um moleiro do século XVI que foi perseguido pela Inquisição por suas crenças religiosas. A partir dos depoimentos do personagem em processos inquisitoriais, Ginzburg traçou um retrato singular da cultura popular europeia da época.
Ao longo de sua carreira, o historiador dedicou-se a temas como bruxaria, heresias, religiosidade popular e formas de circulação do conhecimento na Era Moderna. Seu trabalho influenciou gerações de pesquisadores dentro e fora da História, dialogando também com áreas como a antropologia, a literatura e os estudos culturais. No Brasil, sua obra é publicada pela Companhia das Letras. Entre seus livros, destacam-se “História noturna”, “Os andarilhos do bem” e “O fio e os rastros”.
Nascido em Turim, em 15 de abril de 1939, Ginzburg era filho do intelectual antifascista Leone Ginzburg e da escritora Natalia Ginzburg, uma das vozes mais importantes da literatura italiana do século XX. Nos últimos anos, vivia em Bolonha, cidade onde morreu. Ele foi professor na Universidade de Bolonha, na Scuola Normale Superiore de Pisa e na Universidade da Califórnia (UCLA).
O historiador também se notabilizou pelos embates com colegas “pós-modernos”, que afirmam a impossibilidade de se traçar um limite entre fato e ficção. Em 2021, assegurou ao GLOBO que a verdade histórica existe:
— A noção de fato é complicada, porque pode se referir a eventos reais ou a documentos cujo conteúdo é fictício. Quando eu trabalhava com os arquivos da Inquisição, minha tarefa era checar não a veracidade, mas o valor simbólico de declarações de camponeses que afirmavam, por exemplo, poder voar e se transformar em animais. Não podemos cair no positivismo ingênuo que diz que há fatos e ponto. Até a mentira pode ser interpretada por historiadores. A pluralidade e a refutação de diferentes interpretações é parte do debate. Já dizia o filósofo Karl Popper que uma sentença irrefutável não é científica.
Em nota, o ministro da Cultura da Itália, Alessandro Giuli, lamentou a morte do historiador. “Com o falecimento de Carlo Ginzburg, perde-se uma das figuras mais importantes do panorama intelectual, cívico e moral italiano. Seus estudos históricos e etnoantropológicos foram e continuarão sendo uma referência essencial para gerações de estudiosos e leitores”, afirmou.

