Em dezembro de 1962, de passagem pelo Rio, o arquiteto suíço Le Corbusier escreveu uma carta para se despedir do país onde ele aportara pela primeira vez em 1929. “O Brasil é um desses lugares acolhedores e generosos que a gente gosta de poder chamar de amigo”, afirmou o mestre da arquitetura moderna, que soube combinar funcionalidade e beleza, fazer poesia com linhas retas e concreto aparente. Até 8 de junho, a amizade entre Le Corbusier e o Brasil é celebrada na Maison La Roche, no décimo sexto arrondissement de Paris. Lá, está em cartaz a quarta edição da “Aberto”, mostra que une arte, design e arquitetura e, pela primeira vez, é realizada fora do país (as edições anteriores ocuparam casas modernistas em São Paulo).
A exposição destaca o diálogo profícuo estabelecido entre o arquiteto suíço e a arte e a arquitetura brasileiras: da construção do Palácio Capanema (Le Coubusier supervisionou o projeto) à estética concretista desenvolvida a partir dos anos 1950. Cerca de 40 obras estão espalhadas pela Maison La Roche, de telas do próprio Le Corbusier (que se filiava ao purismo, movimento que acusava o cubismo de ter se tornado arte decorativa) a trabalhos de brasileiros como Lygia Clark, Cícero Dias, Maria Martins e Amilcar de Castro.
A exposição acontece em meio ao Ano Cultural Brasil-França. Idealizador do evento, Filipe Assis explica que a Cidade Luz foi eleita para sediar a primeira incursão internacional da “Aberto” para honrar a contribuição parisiense à cultura brasileira: as vanguardas artísticas que bagunçavam a orla e o Sena o início do século XX serviram de combustível ao modernismo brasileiro. Décadas depois, a capital francesa acolheu levas de exilados da ditadura militar. Até Oscar Niemeyer se refugiou em Paris, onde projetou a sede do Partido Comunista Francês, um edifício majestoso de vidro e concreto aparente, com as curvas inconfundíveis do brasileiro.
O prédio comunista, aliás, foi a primeira opção de Assis, mas as características da construção impediam que se montasse uma exposição ali. Optou-se, então, pela Maison La Roche, projetada por Le Corbusier e seu primo Pierre Jeanneret para Raoul Albert La Roche, banqueiro solteiro e colecionador de arte, construída entre 1923 e 1925. E Niemeyer, discípulo do suíço, continuou presente na mostra, que ostenta uma Marquesa, banco assinado pelo arquiteto e sua filha Anna Maria — na cor vermelha, um modelo que é produzido em raras ocasiões. Ao lado da Marquesa repousa uma pintura do venezuelano Juan Araujo que retrata o interior do prédio do PC francês.
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Um dos curadores da “Aberto4”, Lauro Cavalcanti afirma que o lema do arquiteto — “eu recebo, eu dou” — exemplifica a relação dele com o Brasil. Quando visitou pela primeira vez o país, Le Corbusier ainda não era reconhecido na França. Ao erguer edifícios inspirados nas propostas do suíço, os brasileiros provaram que o “cartesianismo lírico” pregado pelo modernista podia ficar de pé. “O Brasil mostrou que o estilo de Le Corbusier cabia nos trópicos, que não era só um modelo para habitações populares ou casa de colecionadores ricos de arte moderna”, diz Cavalcanti. Os brasileiros, diga-se, adicionaram ainda mais poesia ao funcionalismo do mestre. “É influência de Le Corbusier uma das características fundamentais da arquitetura e da arte brasileiras: um uso do espaço marcado pela indeterminação entre o que é dentro e o que é fora”, completa o organizador da correspondência de Le Corbusier e Lúcio Costa, editada no Brasil no ano passado.
A “Aberto4” apresenta ainda obras de artistas contemporâneos convocados a interagir com o legado do arquiteto. “Cada um deles respondeu a um aspecto da prática de Le Corbusier. Alguns optaram por trabalhar com as cores que ele usou nesta casa. Outros abordaram a influência dele no pensamento arquitetônico do modernismo brasileiro”, explica Kiki Mazzucchelli, que integra o coletivo curatorial ao lado de Assis, Cavalcanti e Claudia Moreira Salles.
Respondendo à provocação, Beatriz Milhazes se inspirou nas colagens de Le Corbusier para criar uma sua. Já Luiz Zerbini pintou o Edifício Holiday, do Recife, que lembra a Unidade de Habitação de Marselha, obra máxima do suíço, com tons melancólicos que escancaram os impasses do modernismo. E Erika Verzutti voltou a produzir, agora em cerâmica, suas “Brasílias”, esculturas no formato de jacas. Os cortes nas frutas de barro, afirma a artista, simbolizam a intervenção da mão humana na natureza selvagem, indicando que “o gesto mais simples pode criar arquitetura”. “O meu maior aprendizado nessa experiência foi o uso da cor. Não foi fácil encontrar as que fluíssem nesse espaço expositivo”, diz ela. As paredes da Maison La Roche têm as cores da paleta purista, do cinza escuro ao mármore.
No ano que vem, a “Aberto” volta ao Brasil, mas Assis adianta que edições internacionais serão realizadas a cada dois anos. Onde? Ele ainda não sabe, mas revela algumas cidades que aparecem em sua “wishlist”: “Nova York, Londres, Milão…”. “A ‘Aberto’ sempre foi itinerante, essa é nossa essência”, diz ele. Independentemente do cenário, o objetivo será sempre “difundir a arte e a cultura” do país acolhedor e generoso que um arquiteto suíço, cartesiano e lírico, pôde um dia chamar de amigo.
*O repórter viajou a convite da “Aberto”.

