Há dois anos, para ganhar tempo no deslocamento pelo Rio, a esteticista Cristiane Tucci, de 52 anos, passou a deixar o carro na garagem e a circular usando moto por aplicativo. A mudança de comportamento faz parte de um movimento crescente no Brasil. Diante da grande quantidade de viagens sobre duas rodas e do elevado número de acidentes, no entanto, surge a preocupação com a segurança de motociclistas e passageiros. Uma equipe do GLOBO circulou por diferentes bairros da capital fluminense e observou o flagrante desrespeito às regras sobre o uso de capacete.
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Não basta apenas usar o item de proteção; é preciso fazê-lo corretamente. A cena mais comum nas ruas é o motoqueiro andar com a viseira levantada, o que é proibido. Em alguns casos, ela nem existe. Em cerca de cinco horas de percurso numa quarta-feira, a reportagem viu apenas cinco motociclistas que cumpriam a regra. Na Semana Nacional do Trânsito, que termina hoje, um dos alertas foi para a importância de seguir as normas de segurança.
‘Serviço veio para ficar’
Entre as inadequações vistas, está circular com a cinta que prende o capacete sob o queixo solta e com o equipamento mal encaixado na cabeça. A reportagem testemunhou também motoqueiros dando partida sem que o garupa tivesse terminado de colocar a proteção.
— Já peguei capacetes bem deteriorados. Sem viseira, por exemplo, e isso me incomoda muito; acabo tendo que usar óculos escuros. Outros estão sem aquela espuma na parte de dentro, machucando a cabeça, e sem aquela correia para prender. Eu sempre reclamo. É um serviço que veio para ficar, então quero que melhore cada vez mais. Resolveu 50% dos meus problemas, e não consigo mais abrir mão — contou Cristiane, abordada pela reportagem quando desembarcava de uma moto em frente a um shopping em Botafogo.
Motoristas e passageiros de capacete com a viseira levantada no Humaitá, Zona Sul do Rio
Marina Calderon e Fabiano Rocha
Cerca de 30 milhões de pessoas no país usaram moto por aplicativo desde que a Uber começou a oferecer o serviço há cinco anos, informou a empresa. No Rio, entre 2024 e 2025, a 99 observou aumento de 32% nos pedidos de corrida por moto na plataforma, diz a companhia, que não divulga números absolutos. Os dados mais recentes da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa o setor de transporte por aplicativos, mostram que, em 2024, o país contava com 455.621 entregadores, número 18,11% maior do que em 2022 (385.742).
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As normas que disciplinam o uso de capacete em vigor atualmente constam da Resolução 940, de 28 de março de 2022, do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). De acordo com o texto, o capacete é obrigatório para circular nas vias públicas e deve estar devidamente afixado à cabeça pelo conjunto formado pela cinta jugular com engate por debaixo do maxilar inferior. A viseira deve cobrir totalmente os olhos durante a circulação. Caso o capacete não possua a viseira, é obrigatório o uso de óculos de proteção apropriados, sendo vedados óculos de sol comuns. O equipamento deve estar em bom estado de conservação, conter o selo do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e adesivos refletivos nas laterais e na parte traseira.
Regras sobre o uso de capacetes
Editoria de Arte
O motoboy Jeferson Oliveira, de 21 anos, afirmou ao GLOBO que sempre usa o apetrecho, mas admitiu que costuma dispensar a viseira:
— A viseira eu só uso em dias de chuva. Se estiver ensolarado, eu levanto, para pegar um vento no rosto, porque esquenta muito.
Marcos Vinícius Santos Ribeiro, de 38 anos, que há oito anos faz ponto na Rua Benjamin Constant, na Glória, e presta serviços para aplicativos como mototaxista, afirmou que há casos de passageiros que optam por não usar o item de proteção:
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— Tem muito passageiro que não gosta de botar o capacete, para não bagunçar o cabelo ou porque a viagem é curta, por exemplo. Uma vez acabei multado porque o garupa estava com o item na mão. Eu levo porque preciso do dinheiro, mas não gosto.
O capacete protege a cabeça e o rosto contra lesões graves em caso de acidentes, que cresceram 5,5% este ano no Rio. De 1º de janeiro a 22 de agosto, foram 38.190 colisões, quedas e atropelamentos envolvendo motos, no estado, de acordo com o Corpo de Bombeiros. No mesmo período de 2025, a corporação registrou 36.201.
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Na capital fluminense, de janeiro a agosto, a rede de saúde municipal prestou atendimento a 26.503 vítimas de acidente de moto, 27,8% a mais do que no mesmo período de 2025 (20.738). Nos primeiros 20 dias deste setembro, 925 feridos já foram socorridos.
Proteção contra fraturas
Um dos coordenadores da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), o ortopedista Marcos Esner Musafir explica que o capacete é crucial para absorver a energia do impacto. Ele destaca que a melhor opção é aquela que protege até o queixo, evitando fraturas na mandíbula e lesões de língua, que podem impedir a capacidade respiratória, assim como traumas de nariz. Na resolução, o Contran elenca os modelos certificados.
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— Se você deixa a fivela solta, o capacete pode sair com o impacto, expondo a pessoa a traumas de crânio, que, a depender da velocidade, podem causar graves lesões no cérebro. Já a viseira levantada não impede o trauma ocular. Ela também protege contra partículas e objetos estranhos, como pedrinhas que se soltam do asfalto, insetos e poeira, que podem até cegar o motociclista por alguns segundos, causando acidentes — esclarece o médico. — Além do uso adequado do equipamento, a segurança pressupõe gestão da velocidade, redução da imprudência, farol e lanternas acesos, fitas reflexivas, pneu e freio em bom estado e, para quem puder, uso de itens como coletes de proteção, luvas e botas.
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Márcio Foletto
Além do uso inadequado, a má higiene dos capacetes virou alvo de queixas de passageiros.
— Tem capacetes que vêm fedendo; por isso, levo minha touca. Já até sugeri a alguns motoqueiros que ofereçam toucas descartáveis. Faz diferença, principalmente para as mulheres — disse a esteticista Cristiane Tucci.
A prefeitura diz que realiza ações diárias de ordenamento e fiscalização. Neste ano, até agosto, a Guarda Municipal e a CET-Rio aplicaram 379.453 multas por infrações cometidas por motociclistas, como dirigir sem capacete e transitar por passarelas.
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Motos em excesso e muitos acidentes: mau uso do capacete põe em risco condutores e passageiros no Rio; veja os modelos mais seguros
