Amamentar costuma vir acompanhado de uma lista de dúvidas que não aparece nos manuais de preparação para o parto. Elas surgem antes mesmo de o bebê chegar, mas ganham outra dimensão nos primeiros dias em casa, muitas vezes no intervalo entre uma mamada e outra. Posso tomar determinado remédio? Fazer uma tatuagem? Doar sangue? Emagrecer enquanto amamento? As perguntas são variadas e uma parcela delas acaba sendo feita ao Google antes de chegar ao consultório.
Amamentação muda o formato das mamas? Entenda o que acontece com o corpo após a gravidez
Bianca Andrade e a dúvida que surgiu após seu relato: silicone interfere na amamentação?
Um levantamento da plataforma Olá Doutor identificou mais de 6,9 milhões de buscas relacionadas à amamentação nos últimos 12 meses. Os dados reúnem perguntas sobre medicamentos, alimentação, mudanças no corpo e hábitos do dia a dia e foram divulgados durante o Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno.
Mais do que uma lista de dúvidas, as buscas ajudam a dimensionar a quantidade de decisões cotidianas que atravessam esse período. Entre os assuntos pesquisados, medicamentos aparecem com destaque. A pergunta “quem amamenta pode tomar Mounjaro?”, por exemplo, ultrapassou 71 mil pesquisas no período e ficou no topo do levantamento.
O interesse acompanha a popularização das canetas à base de medicamentos usados no tratamento do diabetes e também associados ao emagrecimento. No caso do Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, a segurança durante a amamentação precisa ser avaliada individualmente, diante da disponibilidade limitada de dados. A médica Manoella Ferreira recomenda que o uso seja discutido com um profissional de saúde, especialmente porque decisões sobre medicamentos nesse período precisam considerar tanto a mãe quanto o bebê.
A mesma preocupação aparece em dúvidas sobre remédios mais conhecidos. Dipirona, ibuprofeno e nimesulida somaram cerca de 134 mil buscas no período analisado. Embora façam parte do cotidiano de muitas pessoas, a compatibilidade com o aleitamento varia de acordo com o medicamento, a dose, a duração do tratamento e as condições de saúde de quem amamenta.
“O ibuprofeno é considerado compatível com a amamentação pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria; a dipirona teve sua classificação de risco revista para cima nos últimos anos por fontes de referência internacionais; e a nimesulida é a que exige maior atenção, sendo frequentemente indicada sua substituição ou a suspensão temporária da amamentação enquanto durar o tratamento”, afirma Manoella.
A orientação, portanto, não é interromper a amamentação ou deixar de tomar um medicamento por conta própria, mas buscar avaliação profissional antes de fazer mudanças. A recomendação é especialmente relevante porque uma interrupção desnecessária também pode interferir na continuidade do aleitamento. Segundo o Ministério da Saúde, a amamentação deve ser exclusiva até os seis meses e mantida até os dois anos ou mais, com a introdução de outros alimentos a partir do sexto mês.
Do peso à tatuagem
As dúvidas, porém, não terminam na caixa de remédios. A relação entre amamentação e perda de peso também desperta interesse: a busca “amamentar emagrece” teve cerca de 45,2 mil registros em 12 meses.
A produção de leite aumenta o gasto energético do organismo, mas isso não significa que toda mulher vá perder peso durante o período. Alterações hormonais, alimentação, metabolismo, sono e a própria recuperação do parto interferem nesse processo. A amamentação, portanto, não deve ser tratada como estratégia de emagrecimento.
Outra pergunta recorrente diz respeito à tatuagem. O tema registrou cerca de 42 mil buscas no período analisado e envolve uma série de variáveis, entre elas as condições de higiene do procedimento e os produtos utilizados. Por isso, a decisão deve ser discutida individualmente com um profissional de saúde, especialmente quando há dúvidas sobre possíveis riscos de infecção ou exposição a substâncias.
A doação de sangue é outro exemplo de como o aleitamento interfere em escolhas que, fora desse período, parecem simples. No Brasil, o Ministério da Saúde orienta que mulheres que estão amamentando aguardem um ano para voltar a doar. A recomendação considera a demanda nutricional da produção de leite e busca reduzir o risco de anemia e outras carências decorrentes da doação.
Quando a dúvida não cabe em uma busca
O volume de pesquisas também revela uma característica particular do pós-parto: muitas questões aparecem de forma inesperada e exigem uma resposta que depende do contexto de cada mulher. Uma busca pode indicar possibilidades, mas não necessariamente dizer o que é adequado para aquela mãe e aquele bebê.
É justamente nesse intervalo entre a informação disponível na internet e a avaliação individual que profissionais de saúde têm papel importante. “A internet cumpre um papel importante, mas não substitui a orientação profissional, especialmente em uma fase tão delicada quanto a amamentação”, afirma Manoella.
A variedade das perguntas — de medicamentos a mudanças no corpo e procedimentos estéticos — ajuda a mostrar que o aleitamento não acontece isoladamente. Ele faz parte de uma fase de adaptação em que sono, alimentação, saúde, autoestima e rotina passam por transformações ao mesmo tempo.
Mounjaro e amamentação lideram buscas sobre o tema
Divulgação Olá Doutor
No Agosto Dourado, a discussão sobre amamentação também passa por reconhecer essa complexidade e por oferecer informação confiável para as decisões que surgem muito depois da primeira mamada.

