Pular para o conteúdo
setembro 24, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,1789
News

Movimento de 'mulheres virtuosas', as 'tradwives' brasileiras, inspira novo terror com Bruna Linzmeyer: 'Discursos que são sedutores'

Por · setembro 24, 2026
Movimento de 'mulheres virtuosas', as 'tradwives' brasileiras, inspira novo terror com Bruna Linzmeyer: 'Discursos que são sedutores'


“Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo. Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida”. O trecho é do capítulo 31 do livro bíblico de Provérbios, passagem que se tornou referência para grupos de mulheres Brasil afora que defendem modos de vida baseados em valores tradicionais de feminilidade, casamento e família. Foi também nessa passagem que a cineasta Cíntia Domit Bittar encontrou inspiração para criar “Virtuosas”, terror social estrelado por Bruna Linzmeyer, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (24).
Leia a crítica: No terror ‘Virtuosas’, Bruna Linzmeyer vive influenciadora que organiza retiros para mulheres cristãs
‘A gente ainda pode se ouvir’: Marjorie Estiano e Emílio de Mello discutem os dilemas de um Brasil polarizado em ‘Precisamos falar’
Na trama, Bruna interpreta Virgínia, uma influenciadora e coach feminina que organiza retiros exclusivos para ajudar mulheres cristãs a encontrar sua melhor versão. A promessa é de aperfeiçoamento, fé e pertencimento. Mas, à medida que o retiro avança, o que parecia uma jornada de transformação ganha contornos cada vez mais estranhos e perigosos.
Não por acaso, a personagem e o universo do filme nasceram de uma pesquisa que a diretora realiza há cerca de duas décadas sobre o ultraconservadorismo no Brasil.
Antes de encontrar uma “versão brasileira”, Cíntia acompanhou o fenômeno das chamadas “tradwives”, que ganhou força nas redes sociais americanas. São mulheres que defendem uma volta aos papéis tradicionais dentro da família e encontraram uma audiência numerosa no Instagram, TikTok e YouTube. O termo é uma abreviação de traditional wives (“esposas tradicionais”, em tradução livre). Em seus perfis, elas compartilham rotinas de casa, maternidade e casamento, muitas vezes apresentando um discurso antifeminista e uma divisão de papéis em que o homem aparece como provedor e a mulher, como responsável pelo lar.
‘Rainha das esposas tradicionais’: conheça Hannah Neeleman, que cria 8 filhos em fazenda de 328 acres em Utah
Reprodução Instagram
— Eu cavuquei muito para entender o que no Brasil se assemelharia a esses movimentos de tradwives. Eu não encontrava muito lastro ou de traduções disso, até que eu conheci esse termo: mulher virtuosa. E me surpreendi. Eu nunca tinha ouvido falar — conta Cíntia, que também foi responsável pelo roteiro, produção e montagem do filme.
A descoberta levou a diretora a um movimento que, segundo ela, reúne diferentes grupos e milhares de mulheres no Brasil. Na leitura de Cíntia, parte dessas lideranças se apoia em uma interpretação “distorcida” do trecho de Provérbios 31.
— O pessoal até fala assim: “Ah, elas são tipo as legendárias?” Não, elas já existiam muito tempo antes. Até nisso os homens têm protagonismo [risos]. Mas eu até brinco que para os legendários subirem montanhas, as virtuosas caminharam muito.
Criado em 2015 na Guatemala, o movimento Legendários ganhou força no Brasil ao propor desafios físicos, momentos de espiritualidade e reflexões sobre família, casamento e liderança masculina. O grupo tem adeptos famosos, como Eliezer, Thiago Nigro e o cantor Felipe Araújo.
O movimento Legendários
Reprodução/los.legendários.org
O crescimento dos grupos religiosos também acontece em meio a uma mudança no perfil religioso da população brasileira. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a parcela de evangélicos passou de 21,6%, em 2010, para 26,9%. Os dados ajudam a contextualizar o ambiente religioso em que esse discurso circula. Para Cíntia, porém, é a promessa de acolhimento, segurança e pertencimento que oferece uma chave para entender por que ele pode ser tão sedutor.
— Num ambiente de frustrações e decepções, num mundo violento, em guerras e cheio de injustiça, é até coerente que as mulheres busquem espaços que lhe deem paz, segurança, pertencimento, e uma razão de seguir nesse mundo. Tem certos discursos que são muito sedutores.
É nesse universo de fé, pertencimento e promessa de transformação que Virgínia se move. Para Bruna, construir a personagem exigiu olhar menos para a religião em si e mais para os mecanismos de manipulação que podem se esconder por trás dela.
— Eu cresci na igreja católica, literalmente. Minha mãe trabalhava na igreja, como secretária do padre. Eu adorava ser coroinha. Minha bizavó é benzedeira, minha tia é médium em um centro espírita e eu também sou uma mulher de axé. A pesquisa [para a personagem] se deu por outro caminho: da manipulação da fé e do desespero alheio. Pesquisei muito online, não só no universo dos coaches conservadores, mas da política institucional conservadora também — contra Bruna.
Na pesquisa, Bruna também encontrou uma estética recorrente:
— Uma estética asseada, cabelos e unhas impecáveis, um corpo contido, com gestos pequenos buscando o limite da delicadeza.
Cena de ‘Virtuosas’
Divulgação
O trailer viralizou (em um mês, foram mais de 120 mil visualizações só no YouTube, além de milhares de postagens nas redes sociais), e Cíntia recebeu mensagens de “muitas mulheres cristãs incomodadas”.
— Elas falam: “É um ataque à Bíblia, é um ataque às cristãs, é um…” Não. Aliás, eu gosto muito quando tem cristãs que defendem o filme, porque elas entenderam que é uma crítica a essas pessoas que se utilizam da fé para motivos escusos.
Nas redes, esse discurso aparece como uma escolha de vida. Mas, para Bruna, talvez a escolha não seja tão pessoal assim.
— A luta feminista trabalhou muito para que as mulheres pudessem escolher hoje, inclusive, serem submissas a seus maridos. O problema não é essa escolha individual, é o discurso de que esse é o único papel destinado à mulher, de que essa é a única maneira de ser mulher no mundo e que essa seria a forma “natural” de ser mulher.
Se “Virtuosas” investiga os papéis que são impostos às mulheres, Cíntia também usa o próprio gênero do filme para deslocá-las de lugares conhecidos. A diretora, que estreia na direção de longas-metragens de ficção, prepara outros dois filmes de terror, que serão lançados nos próximos anos – e vê no gênero uma possibilidade de criar personagens femininas que escapem de arquétipos tradicionais.
— Tem o terror que chega a maiores públicos, com demônios, espíritos, monstros… mas o terror é aquilo que te dá agonia, te dá angústia, te faz pensar na vida, te causa inquietação, perturbação. E eu fico feliz porque nós, mulheres, temos um olhar muito interessante pras coisas do mundo contemporâneo, pelas coisas que a gente vem vivendo. Não me importo em fazer mulheres ruins, perversas.. É muito importante construir esse imaginário no qual as mulheres também são perigosas. Porque o perigo e a vilania trazem um senso de poder à personagem. Se a gente cresce vendo apenas homens poderosos, vilões e autônomos nas telas, isso é um problema.

Movimento de 'mulheres virtuosas', as 'tradwives' brasileiras, inspira novo terror com Bruna Linzmeyer: 'Discursos que são sedutores'