Um dos dados mais relevantes do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância, divulgado na semana passada pela OCDE, diz respeito não ao que acontece nas escolas, mas, sim, ao que ocorre dentro das casas. E os resultados são preocupantes no contexto brasileiro, representado a partir de uma amostra em três estados (São Paulo, Ceará e Pará).
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Por aqui, apenas 14% das famílias com crianças de 5 anos de idade reportaram que liam livros para elas numa frequência superior a três dias por semana. A média dos demais países investigados (Inglaterra, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Azerbaijão e Malta) é de 54%.
Uma primeira hipótese para explicar essa diferença estaria na maior situação de vulnerabilidade das famílias brasileiras. Pais com instrução precária, sem recursos para comprar livros, ou que precisam se desdobrar em escalas de trabalho excessivas (ou em duplas jornadas, em especial no caso das mães), teriam menos condições de ter esse tempo de qualidade com seus filhos.
É certamente uma variável a ser considerada, mas não explica tudo, afinal, mesmo nas famílias de maior renda e escolaridade, o percentual de leitura frequente com os filhos é de apenas 24% por aqui, ainda muito abaixo da média dos demais países. Há, portanto, uma questão cultural também a ser enfrentada.
Se as famílias brasileiras têm pouco hábito de leitura com os filhos na comparação internacional, a lógica se inverte quando a variável investigada é o tempo excessivo que as crianças passam em tela. Por aqui, metade (50,4%) dos responsáveis admitem que seus filhos usam dispositivos digitais todos os dias. Na média dos países participantes do estudo, esse percentual é de 46%, o que evidencia que estamos diante de uma epidemia global.
Mas a combinação perversa de alto tempo em telas e baixíssimo tempo em leitura torna o caso brasileiro mais grave. Afinal, essas são variáveis que o estudo confirma o que a literatura acadêmica já evidencia: o estímulo ao hábito de leitura desde cedo melhora o desempenho escolar e o bem-estar, ao passo que o tempo excessivo em telas tem efeito negativo.
O estudo da OCDE analisou diferentes dimensões do desenvolvimento infantil: aprendizagens fundamentais, como a literacia e numeracia emergente (etapas anteriores ao processo formal de alfabetização); funções executivas como a memória de trabalho, flexibilidade mental e controle inibitório; e habilidade socioemocionais. Os achados confirmam que desigualdades já aparecem desde antes do ensino fundamental, e o Brasil, em quase todos os quesitos, aparece em situação pior.
Mas, ao olhar também para o que ocorre no ambiente doméstico, o estudo contribui para o diagnóstico do problema, pois políticas de primeira infância não podem se restringir ao acesso à escola, o que não é pouco, mas é insuficiente.
Desde a década de 90, a pesquisa sobre o desenvolvimento infantil evoluiu muito, evidenciando que a primeira infância é uma etapa muito mais importante para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional do que se acreditava até então. Hoje já há evidências de que essa etapa é a de maior impacto no longo prazo. Mas os estudos com resultados mais promissores sempre se basearam em intervenções que melhoravam não apenas as condições de oferta de creches e pré-escolas, incluindo também ações em saúde, assistência social e orientação aos pais.
Estimular e garantir tempo de qualidade para que os pais possam participar de atividades ao ar livre, brincadeiras lúdicas, músicas e conversas sobre sentimentos com seus filhos são ações de baixo custo e alto impacto no desenvolvimento infantil. Precisam, portanto, entrar também no radar de nossas políticas públicas.

