Bo Hooper tinha 19 anos quando recebeu o diagnóstico que, segundo ela, ajudou a dar sentido a lapsos de memória, dificuldades com a percepção do tempo e uma profunda sensação de fragmentação da identidade. Diagnosticada com Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), ela afirma conviver com entre 20 e 30 identidades distintas compartilhando o mesmo corpo — ao menos dez delas, segundo seu relato, se manifestam com maior frequência, cada uma com traços, idades, sotaques e até caligrafias próprias.
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Em entrevista ao veículo britânico LADbible, Bo descreveu a transição entre essas identidades como um apagão repentino.
— É algo como adormecer — diz.
Segundo ela, o retorno à lucidez pode acontecer em contextos desconcertantes.
— É muito chocante voltar, sobretudo se tiverem tirado a roupa, se maquiado ou feito algo parecido. É chocante voltar e, de repente, estar vestindo outra coisa.
Anteriormente conhecido como transtorno de personalidade múltipla, o TDI é descrito, com base em explicação atribuída à organização Mind, como uma condição marcada por mudanças intensas de identidade, capazes de alterar pensamentos, comportamentos e a forma como a pessoa percebe a si mesma.
Bo afirma que uma das experiências mais difíceis é lidar com a forma como diferentes identidades percebem o próprio corpo. Para tentar compreender essas diferenças, ela passou a registrar em gravações como alguns de seus alter egos se veem diante do espelho.
Uma dessas identidades, chamada Layla, é descrita por Bo como uma menina de seis anos.
— Ela tem dificuldade para aceitar que sou adulta. Olha no espelho, vê que temos seios, curvas, que somos mais altas e tudo isso. E continua achando que é uma menina de seis anos, e isso a assusta — conta.
Segundo o relato, para tornar essa personalidade infantil mais confortável, Bo passou a usar roupas largas, de tamanhos exageradamente grandes.
A convivência entre identidades distintas também produz conflitos sobre aparência, estilo e forma de existir no mundo. Bo menciona, por exemplo, uma identidade que rejeita piercings, tatuagens e tintura de cabelo — marcas presentes no corpo compartilhado.
— Ela se incomoda bastante por ter que compartilhar o corpo porque não é assim que gostaria de se apresentar — diz.
Segundo Bo, há ainda uma personalidade descrita como “perseguidora”, movida por medos e traumas internos, que teria tentado causar dano físico a ela em repetidas ocasiões.
Ao falar publicamente sobre o diagnóstico, Bo afirma que tenta enfrentar estigmas associados ao transtorno.
— Acho que o maior problema é que acreditam que somos assassinos, que vamos machucar alguém — relata.
Ela também critica a banalização da condição nas redes sociais, tratada, segundo seu relato, como uma moda passageira. Bo afirma que recebeu o diagnóstico antes do auge do TikTok e defende que estabilidade exige terapia especializada.
Segundo ela, o transtorno dissociativo de identidade está ligado a experiências traumáticas severas, frequentemente associadas ao estresse pós-traumático, e demanda tratamento cuidadoso, longe de caricaturas, simplificações ou estigmas.

