O Museu Judaico de São Paulo inaugura neste sábado (29) a exposição “Lasar Segall: sempre a mesma lua”. Realizada em parceria com o museu que leva o nome do artista, a mostra reúne 60 obras — entre pinturas, gravuras, desenhos e aquarelas —, que vão desde sua vida na Europa até sua imigração e atuação no Brasil, na década de 1920.
Na busca por apresentar um amplo panorama da produção de Lasar Segall, a instalação não se baseia em uma linha cronológica ou em um recorte de temas que se repetem ao longo de sua trajetória — como as fortes cores e seu “flerte” com as abordagens expressionista e realista. A ideia é traçar uma dimensão poética sobre sua atuação e relembrar seu interesse por assuntos como deslocamento, espiritualidade e memória.
Responsável pelo projeto curatorial, Patricia Wa decidiu usar a imagem da lua como norte do caminho expositivo. Como a curadora explica, apesar da mostra conter representações artísticas de Segall para o satélite natural, a intenção foi colocá-lo como símbolo de profundos olhares e sentimentos do artista, em especial ao que era atribuído por ele à própria identidade judaica.
O título surge a partir de um antigo artigo de Vinicius de Moraes em defesa de Lasar Segall a ataques conservadores. Elaborado durante uma retrospectiva no Museu Nacional de Belas Artes, o poeta relembra um episódio relatado por Rubem Braga. Ao saírem juntos e observarem a lua, Segall disse ao escritor: “Essa velha lua, amigo, sempre a mesma…”.
— A lua é o fio poético da exposição. É uma imagem que evoca a ideia de que o olhar empático sempre foi uma ética do trabalho de Segall, independente do lugar em que estava. A lua o acompanha e, apesar de se transformar, é também sempre a mesma. É ela que ilumina esses caminhos dos deslocamentos (do artista) — explica Patricia.
O núcleo central da exposição coloca lado a lado obras de Lasar Segall em sua “fase” expressionista, enquanto vivia na Alemanha, e trabalhos produzidos após sua imigração ao Brasil, em 1923. É uma mistura entre a paleta tropical brasileira e as cores densas do período alemão.
Nascido em 1889, em Vilnius, capital da Lituânia, e naturalizado brasileiro, Segall cresceu em um ambiente fortemente influenciado pela ortodoxia judaica e
tradições seculares. Filho de um escriba da Torá (livro sagrado do judaísmo), ao migrar para Berlim e Dresden, na Alemanha, aproximou-se da modernidade europeia e desenvolveu uma abordagem artística expressiva.
— As diversas linguagens (artísticas) do Segall mudaram muito mediante o lugar em que estava, a situação política do momento e as tensões que viveu. Segall estava na Europa durante a Primeira Guerra Mundial, mas já estava no Brasil na Segunda Guerra… Em Dresden, por exemplo, ele tem um encontro mais forte com as vanguardas e com o expressionismo alemão. Já no Brasil, ele entra em contato com o modernismo daqui. Então, essas mudanças tiveram impactos importantes na sua linguagem e em seu vocabulário como artista — explica a curadora.
Boa parte das obras foi emprestada à instalação pelo Museu Lasar Segall. Localizado na Zona Sul da capital paulista, o espaço surgiu a partir da casa-ateliê do artista judeu e foi inaugurado em 1967, depois de sua morte. Entre os destaques cedidos pelo museu está a famosa tela “Eternos caminhantes”. Feita em 1919, é conhecida por ter sido confiscada pelo regime nazista em 1937 e exibida na mostra Arte Degenerada, parte da campanha contra o modernismo da época. Foi apenas em 1958 que a família de Segall conseguiu reaver o quadro e fazê-lo retornar ao Brasil.
Há ainda trabalhos do acervo da Pinacoteca de São Paulo, exemplo da tela “Morte”, de 1919; obras de coleções particulares, como “Morro vermelho”, de 1926, e “Mulata com criança”, de 1924 (que, na mostra, surge acompanhada de uma problematização quanto ao título); e “Interior de pobres II”, de 1921, que foi restaurada para entrar no conjunto.
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De acordo com Patricia, a união dessas obras fornece uma visão da obra de Segall que atravessa fronteiras geográficas, culturais e religiosas. A partir de seu “olhar empático para com o outro”, a exposição busca unir as vivências do artista lituano na época (como a dor dos deslocamentos e as perseguições) a discussões contemporâneas.
— Se a lua ilumina todos os caminhos, todos os deslocamentos, ela ilumina também as guerras. Ao final, ela não é apenas uma “chave” positiva, mas uma observadora. Há uma forte ligação entre Segall e o que nos é contemporâneo, por isso revisitamos sua obra à luz do presente — diz a curadora.
Exposição “Lasar Segal: sempre a mesma lua”
Onde: Museu Judaico de São Paulo. Rua Martinho Prado, 128, Bela Vista. Quando: terça a domingo, das 10h às 18h. Até abril de 2026. Ingresso: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia), grátis aos sábados.
*Estagiária sob supervisão de Luiz Rivoiro

